A VIDA E A MORTE DAS CIVILIZAÇÕES
Tudo é
efémero. Nós, os animais, as plantas, as civilizações. E tudo, ciclicamente, se
renova. Todos sabemos isso e todos vagamente o tememos. Mas é inevitável. Em
contrapartida, somos todos eternos.
O drama da
morte deve-se essencialmente ao facto de não queremos perder a nossa história
pessoal. Os nossos amores, os nossos filhos, a nossa casa, a nossa cidade, até
o nosso País. Perder o Planeta Terra? Impensável! E tudo se perde e se
recupera, ciclicamente, com outros rostos, outra paisagem e outra organização
social. Alguns de nós sabem-no. Mesmo assim todos tememos e sofremos a angústia
da perda. Mas quem teme é a nossa parte animal. Entretanto, podemos imaginar o
futuro. Ou o passado.
Podemos situar-nos num ou no outro, com toda a
legitimidade, porque todos estivemos e estaremos lá.
A historiazinha pessoal é
que é o problema. Quem perdemos, o que perdemos, quem nos perdeu. E esse medo
atávico, animal, do último suspiro…
A viagem que
estou a fazer pelos desenhos que recebi (que desenhei vendo-os linha a linha,
ponto a ponto…) e que considero meus, será hoje um passeio pela história da
humanidade desde a Atlântida.
Sou actriz
ou espectadora de diversas civilizações? Não sei. Sou escriba. Sinto-me muito
confortável no papel de repórter, embora não traga dados novos do que então se
passou. Talvez um olhar diferente. Estupefacto. Porque me escolheram para esta
tarefa?
Estranho! O
que mais me chocou neste «flash» da Atlântida foi ver os peixes a voar,
catapultados pelo impulso das águas. No dia em que os peixes voaram… É assim
que denomino essa catástrofe. Talvez estivesse lá. Talvez fosse essa figura
central de mulher, que é submersa pelas águas… Ou a que sobrevive no barco que
navega com outros, na nuvem de água e peixes. Mas isso sou eu a romancear.
O
inquestionável é que tudo muda, a cada momento, para melhor e para pior. Só que
o pior é, simplesmente, aquilo que nos desagrada. A civilização actual está a
mudar e a que velocidade! E será que nós queremos que mude? Ou só damos o nosso
acordo desde que seja no sentido das nossas necessidades ou sonhos ou
simplesmente no sentido dos nossos interesses. E chegado a determinado ponto
muda para lá de todas as nossas projecções. Inexoravelmente.
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| Atlântida: no dia em que os peixes voaram... |
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EM EQUILÍBRIO INSTÁVEL
Antes de
avançar decidi mostrar o que me foi mostrado: o equilíbrio instável das
civilizações.
Uma
Civilização funciona como uma placa tectónica. Tem um equilíbrio precário. E
também funciona como um ser humano: nasce, cresce, desenvolve-se, decai e
desaparece, morre.
Enquanto se
desenvolve, a civilização funciona como um corpo. Cresce por saltos, por vezes
lentamente, por vezes de um dia para o outro. Todas as mães sabem que é assim.
O filho está a crescer, às vezes lentamente. Um dia, de repente, sem que nada
pareça tê-lo anunciado, ela olha para ele e tem um sobressalto: que grande
estás! E quando atingiu a sua máxima altura, esse filho, essa civilização
começa lentamente a decair. Às vezes o envelhecimento é precoce e rápido. Também
há civilizações que parecem ter surgido do nada, atingem rapidamente o máximo
fulgor e desaparecem com a mesma rapidez.
Não há tempo limite para o nascimento, vida e
morte de uma civilização, Tal como num ser humano. Veja-se a imagem, esse
movimento quase ondulante das placas, que um dia, uma a uma todas as
civilizações despareceram ou vão desaparecer. E nós, todos nós, queremos o
momento eterno. E o momento é só momento. Que o momento eterno existe, sim, mas
a outro nível. Na chamada eternidade, rompido o ciclo do eterno retorno.
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| As Civilizações dançam como as placas tectónicas. Movem-se, chocam e destroem-se |
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REI E RAINHA NA MESOPOTÂMIA?
O pouco que
sei deste desenho poderia resumir-se numa frase: um rei e a sua rainha, na
Mesopotâmia. No toucado, ela tem uma data: 3858. A época em que viveram?
O resto está
à vista. O mais estranho é que, nas linhas que prefiguram um vulcão,
precisamente no topo, entre outras cabeças, reconheço o rosto de meu pai. Ou é
simples ilusão? E a pomba começa a aparecer nos meus desenhos…
Da
Mesopotâmia ressalta a epopeia de Gilgamesh e a busca do Homem pela eternidade.
Para mim, esse canto é um dos mais belos da história humana. Nele estão já
todas as pistas da busca do Homem pela transcendência. Pela eternidade. Sem dúvida, é um dos cantos mais belos da epopeia humana na sua procura do infinito.
Recordo com
emoção as Portas de Ishtar, que vi em Berlim, então Leste, há mais de vinte e cinco anos. Mais antigo foi o encontro, no desenho, desse rei belíssimo que,
para mim, é profundamente real.
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| No toucado uma data: 3858... |
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A MULHER MOTOR DA HISTÓRIA
O rei é
magnífico, belíssimo. Eu acho! Mas o mais importante para mim neste desenho é o
facto de a mulher se apresentar como motor. É ela que dá dinamismo ao carro,
ela que o faz mover, quase despercebidamente. Aqui vejo representado pela
primeira vez a mulher como Motor da História. Motor da Civilização.
Neste carro,
que representa alegoricamente a civilização do Crescente Fértil, é registado um
dos principais inventos humanos, a roda! Imaginariamente, tudo decorre deste
veículo dinamizador do Poder. Um todo harmonioso, em que tudo parece estar bem.
Estive no
Iraque e não vi as ruínas de Babilónia. Tive muito pena. Mas viajei pelos Rios
Tigre e Eufrates no iate que pertencera a um rei... As margens desses rios continuam a
ter uma ressonância bíblica.
Como lamento
que as «chamas eternas», fogos que ardem permanentemente no solo, alimentadas
pelo petróleo da região, tenham despertado a cobiça dos Ocidentais, e tanta dor
tenham levado à região.
Alguma vez os Ocidentais pensaram que papel
desempenhará o petróleo no equilíbrio do Planeta? Será que andarmos de
automóvel e de avião é mais importante de que esse equilíbrio? Nunca ninguém
pensou que o petróleo e a água são o sangue da Terra? Se forem, estamos mesmo
a meter-nos em grandes complicações. Não já uns contra os outros, mas a
comprometer a sobrevivência do nosso Lar!
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| A mulher como força dinamizadora da História |
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O EGIPTO, A
FARAÓ E A ARTE
O registo do
Egipto terá necessariamente de passar pelas pirâmides, mas o que fluiu no meu
desenho como importante foi a figura de uma mulher faraó e a referência a uma elite
de artistas, à direita, assinalados por um instrumento musical. E como saberei
que se trata de uma elite? É, pelo menos, gente que vive sob a égide de uma
pomba e que tem a música como ocupação ou interesse. Num tempo de
desenvolvimento harmonioso e de Paz. Ao que me parece…
De assinalar
os crocodilos e a serpente, nas margens do Nilo, animais míticos. Ao que julgo
saber, em certos parâmetros, o conhecimento de hoje está ainda longe da grandeza
e profundidade alcançadas pelos antigos egípcios. Assim como perdemos a memória
da vibração da língua sagrada, também esquecemos o poder da vibração como forma
de mover pedras, por exemplo, ou de curar doenças, ou de levitar. Tudo isso
existe, está disponível, mas esquecido. Quando surgir de novo o homem de
coração puro, esse conhecimento voltará… e comeremos à Mesa do Rei.
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| Nas margens do Nilo, uma extraordinária civilização... |
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SÓCRATES,
DIOTIMA E PÉRICLES
A cultura
europeia foi trazida pelos Gregos do Egipto e espalhada pelos Romanos por toda
a Europa. Somos todos egípcios, afirmou-me há muitos anos uma professora da
Universidade Nova, que fazia trabalho de investigação no Egipto. A alegação era
que as raízes da civilização grega eram egípcias.
Nessa linha de pensamento,
atrevi-me a dizer que, na Europa, somos todos Gregos. E isto é preciso
reconhecer colectivamente neste momento. A Europa aprendeu a pensar com os
gregos, estão lá todas as nossas raízes. Isso leva-me a lançar um alerta:
abandonar a Grécia à sua sorte é desestruturar a Europa. Quando se arrancam as
raízes, a planta morre.
A Alemanha
foi um instrumento de morte no séc. XX. Pretenderá ela prosseguir esse triste
fado e obrigar a Grécia a afastar-se do Euro, que é o
mesmo que desencadear a desestruturação da Europa do séc. XXI?
Os Povos não
são iguais, felizmente. Os gregos deram-nos Péricles, Sócrates, Diotima, três
aspectos do saber. De Péricles herdamos a democracia; de Sócrates, a filosofia;
de Diotima, o saber mais fundo e intemporal, aquilo a que chamo o saber
sabendo.
Se, por
triste decisão, abandonarmos a Grécia à sua sorte, estaremos a renunciar aos
três pilares, reconhecidos ou não, que viriam a permitir a construção da
Europa. A democracia, a filosofia e o conhecimento fundo da arte de viver.
Há que dizer
à senhora Merkel que o ser humano não foi criado para trabalhar nem para se
esgotar física e moralmente para que uns tantos homens paranóicos passem a vida a especular com dinheiro, a fazer com que dinheiro tenha
como única função produzir mais dinheiro. Isto é doentio. É uma nova Idade Média dos especuladores. Só me fazem lembrar o Tio Patinhas. A tomar banho em dinheiro, a nadar em dinheiro, tão longe da grandeza do Ser Humano. «Olhem os lírios do campo que não tecem nem fiam e nem Salomão em toda a sua grandeza...» Recordam-se? É preciso ter a
coragem de o dizer: «O Rei Vai Nu!» É uma sub humanidade a que o dinheiro está a produzir.
Oh! líderes
do Mundo, por favor, parem para pensar: esta não é uma forma humana de viver. É a
esquizofrenia levada ao paroxismo. Parem. Até porque a Terra, que é um planeta
vivo, não aguenta tanta delapidação, só para encher os bolsos de alguns. É, antes do mais, paranoico, mas é também criminoso.
Já agora, um
alerta: se não tivermos bom senso e não fizermos uma reviravolta de 180 graus, será o Planeta Terra a agir. Como? Como age o Planeta Terra quando
precisa de restabelecer o equilíbrio? Qual é a forma do Planeta falar? Por
favor ouçam-no, antes que algo de irremediável aconteça, para muitos de nós!
Desculpem,
não sabia que este desenho me levaria a dizer isto.
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| Aos Gregos devemos os fundamentos da nossa civilização |
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MIL ANOS DE HISTÓRIA
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| Resumir mil anos de história num quadro de 32/21 cm equivale a querer meter a Praça do Rossio na Rua da Betesga |
Foi
um dos primeiros quadros que desenhei. Achei que era tão elaborado e tinha
tanta informação que o redesenhei a tinta-da-china. Ainda insatisfeita, resolvi
pintá-lo com lápis de cera de óleo. Os anos passaram e o óleo começou a
desaparecer. Projetei muitas vezes ampliar o quadro e pintá-lo agora a óleo.
Foi um projeto sempre adiado. Cada vez se torna mais problemático vir a
fazê-lo.
Sei
que este quadro tem uma mensagem profunda, mas não a sei descodificar.O que vejo são mil anos de história. Factualmente, uma mulher sentada num trono, a receber homenagens de Napoleão,
um oficial inglês e outros que não reconheço. Por cima da cabeça de Napoleão
estão D. Afonso Henriques, o primeiro rei de Portugal, com a mãe ao lado.
Por
trás e ao alto, reconheço a figura de Cid o Campeador, tendo à sua esquerda Cruzados e, por detrás, vários nobres. Como figuras centrais identifico
Cleópatra e Júlio César. E um outro casal que não identifico.
A
direita do quadro é quase preenchida por figuras de Ordens Monásticas,
mercadores e gente que deve ter sido relevante, mas não reconheço. E, em baixo, junto ao
vestido de uma mulher, porventura a Infanta D. Maria, encontra-se,
perfeitamente reconhecível, o nosso maior poeta, Luís de Camões, com uma pomba proporcionalmente
enorme, com uma asa levantada, a querer obviamente significar o «golpe de asa».
Não
vou tentar explicações. Só posso dizer que este quadro sintetiza,
obviamente, mil anos de História. Da História da Europa. E parece-me demasiado
arrojado querer contar tantos acontecimentos e mudanças num espaço tão pequeno!
E só aconteceu porque me entreguei ao desenho, sem nada pensar. Sim, o desenho foi para mim o método que me permitiu aprender a parar o pensamento...









