domingo, 27 de janeiro de 2013

Percurso pela Memória



CALAR OU FALAR NO TEMPO CERTO


         
Da minha infância guardo três visões. Continuam muito vivas em mim. Da primeira, creio que já falei. Foi uma verdadeira visão de criança.  Vi três peixinhos vermelhos a passar ou a passear nas escadas. Como era uma imagem fora de toda a lógica, creio que me assustei. Lembro-me de ter chorado convulsivamente e de não ter revelado o motivo do meu choro. Teria talvez cinco ou seis anos, não sei exactamente a idade, mas já sabia que os peixes não nadam no ar, quanto mais nas escadas.

A outra imagem que guardo da infância, com a mesma força e nitidez, é a da rainha Santa Isabel a descer de um pátio, onde havia um sino, por escadas estreitas, em caracol. No avental carregava pão ou rosas. Seria pão que se transformava em rosas ou rosas que se transformavam em pão. Acho que as escadas e o sino eram muito importantes. Embora eu tenha aprendido a ler aos cinco anos, não sei se esta imagem foi suscitada por qualquer livro ou imagem que eu tenha visto.

A terceira imagem, que ficou indelevelmente gravada em mim como a mais importante, foi a de um Homem/Deus, tão brilhante como o Sol, que conduzia uma quadriga. Um carro puxado por quatro cavalos. Um carro de duas rodas, mais belo e maior do que o das corridas romanas, embora fosse semelhante, que luzia como ouro e voava através dos ares. Sei que estava acordada e sei também que não o disse a ninguém. É a primeira vez que falo disso, sem me importar que digam que estou a inventar. Vi a carruagem do Deus Sol a voar pelos ares e, sim, já estava deitada, mas não estava a dormir.

Estes são os meus mais antigos segredos, que guardei porque sabia que não devia falar deles, para não dizerem que eu estava a inventar ou me chamarem mentirosa. Na altura não sabia que podiam pensar que eu, ou tinha uma grande imaginação, ou não regulava muito bem, e teria de consultar o psicólogo. Estas experiências, porém, só servem de testemunho do mundo onírico das crianças, que tocam outras realidades e muitas vezes se calam, com receio da incompreensão dos adultos. E um segredo que não desestabiliza a criança, ajuda a prepará-la para uma maior capacidade de compreensão de si próprio e dos outros na idade adulta.
 Aliás, sei que as crianças escondem muitas coisas dos adultos. Sabem o que não devem dizer ou a quem podem dizer. Um dia, uma criança de três anos contou-me uma história, demasiado elaborada para a sua idade. Ela era divorciada e tinha dois filhos. Um dia levou os filhos a passear de carro e deixou que o carro deslizasse e caísse no rio…

 Não havia nada à sua volta que pudesse originar esta história. Como não sabia que atitude tomar, calei-me e nunca mais lhe falei disso. Ainda tentei alertar os pais, que disseram que ela era uma miúda com grande imaginação. E tudo ficou por aí. Entretanto, os pais mudaram de casa e não voltei a saber da criança.
Hoje, actuaria de maneira diferente? Claro, mas tudo acontece como deve acontecer. Eu acredito nisso. A nós cabe-nos somente estar atentos e guardar no coração o que nos foi dito ou descobrimos, até ao momento certo. E acho ainda hoje que tudo aconteceu como devia ter acontecido.



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A QUASE AUSÊNCIA DE CRIANÇAS …


Só há pouco me apercebi de que quase não há crianças nos meus desenhos. Tudo se passa num mundo de adultos, empenhados em jogos de poder ou de uma provável sinalização de caminhos, faltando-lhes a alegria e a turbulência das crianças… Como foi que isso aconteceu? Há jogos de amor, sim, vejo isso em muitos desenhos, há o labirinto da Ordem Social, que se entrecruza e define ou aponta horizontes, há até liderança, mas quase não há crianças!... Como não dei por isso mais cedo? Onde ficaram as crianças?
Onde estão? Que horror seria este mundo de adultos sem o sorriso ou o choro de um bebé! Que horror se não tivéssemos ouvido a gargalhada dobrada de uma criança nos nossos braços ou as interrogações e dúvidas de um adolescente, a nosso lado, capaz de nos fazer repensar caminhos!

Andei a contar histórias de adultos, histórias que aconteceram, esquecendo o tempo em que esses adultos foram crianças, talvez felizes, talvez em choro, quem sabe se a esconder as lágrimas à noite na almofada?! Foi por isso que hoje decidi falar da infância e fazer um levantamento das crianças que desenhei.
 Poucas, muito poucas,apenas cinco…

Eu disse falar, mas será, sobretudo, mostrar, porque nada sei das três primeiras imagens. Mostro primeiro um desenho aprazível. A de uma mãe com o filho (ou filha) ao colo, sentado num curioso baloiço ovalado, porventura de madeira ou verga, que serviria para proteger dos xixis e para a mãe poder embalar o filho no colo. É a imagem de uma Senhora do castelo ou da cidade, feliz. Parece-me o instantâneo de um pequeno paraíso.


A segunda imagem é também a de uma maternidade feliz. Ou, porventura, duas faces de uma mesma vida, enquanto criança e já adulta, numa evolução seguida pela Terra e pelo Céu.


Esta é a imagem hierárquica do mundo das mulheres, em três fases: a jovem, a mãe e a matriarca, a grande mãe, que será neste caso a avó... É ela que aqui mantem o poder e assume todo o clã. As crianças lá se encontram espalhadas, protegidas…


Aqui pode ver-se Isabel de Aragão, levando nos braços o marido, a filha, que bem infeliz haveria de ser, e o povo que governava, numa maternidade abrangente.


Mostro, por fim, a filha do casamento de D. Manuel I com D.Leonor da Áustria, a Infanta D. Maria, em criança, a chorar junto ao rosto jovem de Camões. É uma imagem de infelicidade, com cães a uivar. D. Manuel tem no rosto, junto à testa, o retrato da mãe da Infanta D. Maria, a rainha D. Leonor da Áustria.



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AS CRIANÇAS ÍNDIGO


    Porque falei de crianças, quero evocar aqui hoje as crianças índigo, o futuro ainda embrião de uma Nova Ordem Social, de Uma Nova Terra.

São as crianças índigo, que trazem o futuro no ventre, que foram mandadas emigrar e estão a partir hoje para o mundo, mas rapidamente vão voltar. Elas têm a semente de um novo tempo dentro de si. Talvez precisem da experiência de outros horizontes para alargar a sua alma e dar forma ao impulso de renovação que, embora o não saibam ainda, têm dentro de si.

Esses jovens que partiram vão espalhar a sua energia por países que precisam ser renovados, para que todo o planeta se renove. Toda a ordem social se renove. Mas isto merece ser aprofundado. Fica para uma próxima vez.      



sábado, 12 de janeiro de 2013

O Fascínio das Grutas




VER O QUE IMAGINAMOS OU O QUE ESTÁ LÁ?


A realidade é o que é ou o que nela projectamos e queremos ver?  Este é o ponto de partida para a nossa conversa de hoje.

Há muitos anos deixei-me fascinar pelo Cromeleque dos Almendres. Lembro-me que, uma vez, talvez há mais de 15 anos, fui lá com o meu filho mais velho e a família. O meu neto, então com cinco ou seis anos, subiu para uma das rochas, onde o fui encontrar sentado na posição de lótus. O espanto desse dia foi verificar que o meu neto sabia reconhecer que aquele era um local sagrado.

 Foi, porém, na minha primeira ida ao cromoleque dos Almendres que descobri a Gruta do Escoural. É aí que hoje vos vou levar, a essa visita feita há mais de uma dúzia de anos e de que guardo uma incerteza, uma interrogação.

O lugar ainda era pouco conhecido. Havia um guarda, sim, que nos permitiu a entrada, mas não havia espaços de recepção, guias, nada. Era tudo ao natural. Aventurei-me com o repórter fotográfico para dentro da gruta. Eu tirei as minhas fotografias, ele as que achou possível que eu pudesse vir a precisar, mas são as minhas fotos que guardo e, pelo menos uma delas, me deixou sempre uma inquietação. Tanto que voltei lá, meses mais tarde para verificar se era realmente real o que eu tinha fotografado. E como então via muito o invisível, na altura não quis mostrar as minhas fotos a ninguém. E se eu via e ninguém mais conseguisse ver o que achava que estava lá?

Um dia, ao falar com outro fotógrafo, referi as imagens impossíveis que eu tinha captado, sem dizer o quê, e ele, que tinha experiência de grutas, disse-me que a realidade nas grutas era diferente e eu não perguntei mais, porque também não queria ir mais longe. Até porque não sabia se os outros veriam o que eu via na fotografia… Bem, o meu neto vê e isso dá-me a segurança de eu não estar a projectar ou a imaginar.


Aqui está. A formação da rocha faz uma espécie de altar branco azulado. Tem formação de rocha até ao chão, vêem? É uma formação muito bonita, parecem pregas na rocha, que sustem a pedra, a que chamei altar. Agora avancem até ao fundo dessa «pedra de altar», até à rocha que continua na vertical. Que vêem na junção das duas rochas? Eu vejo a cabeça de um homem com barba, morto, com um fato azulado, ali, no espaço entre o altar horizontal e a rocha vertical, entre as duas rochas.


Voltei lá logo que me foi possível. As primeiras fotos foram tiradas no Inverno, com a pedra húmida. Viva. Voltei lá no Verão, com a rocha seca, sem luminosidade. E sem a nitidez da primeira foto, o rosto do homem continuava lá. Comparem. É uma projecção ou é uma verdade? Seja como for, ainda que esse homem tenha sido sacrificado naquela pedra, isso foi já há tanto tantos séculos ou milénios, que não seria caso de polícia. É uma curiosidade, não um crime a denunciar.


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O GÉNIO DA GRUTA?




As grutas têm uma realidade fantasmática? Talvez, mas é porventura repetível, pelo menos na maior parte dos casos. O génio da gruta, que fotografei, não o vi da primeira vez e não sei se o voltarei jamais a ver.

Digamos, deixou-se ver em determinadas circunstâncias atmosféricas e pode ser simplesmente uma ilusão de óptica.  Não sei se, porventura, voltasse à Gruta do Escoural, eu poderia encontrar de novo o ângulo propício a fotografar esse rosto que ri, de boca aberta, a língua rosada, vendo-se na zona onde os dentes nunca existiram ou terão já existido e caíram. Um rosto de olhos franzidos, que observam com curiosidade a visitante, que talvez só se tivesse manifestado no momento em que a máquina fotográfica disparou e a luz se tornou cúmplice de uma imagem, que será porventura apenas imaginação, resultado do jogo de luz e sombras. Com existência real ou não, esse rosto deixou-se ver e mostro-o como coisa concreta, captada pela máquina fotográfica, ainda que tenha sido somente o resultado do jogo de luz e sombra…



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UMA AVE QUE TRANSFORMEI EM CAVALO


A imagem é a de uma ave pré-histórica fixada em pedra numa das paredes da gruta. Fotografei-a, mas, mais tarde, desenhei-a e pintei-a como cavalo alado. O cavalo que transporta os curandeiros pelos mundos invisíveis, em busca da cura para os seus doentes. Entretanto, esqueci-me de que me inspirara numa ave, até que a reencontrei entre as minhas recordações e é uma majestosa ave que, em tempos pré-históricos poderá ter exercido idêntica função.


A imaginação não tem limites. A realidade também a ela própria se pode recriar.



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ALGURES, NO ALENTEJO…


Nunca até hoje mostrei esta foto. É uma rocha perdida na planície do Alentejo e que não vou localizar. É um lugar muito especial. Fui lá levada por alguém da região, que quis mostrar esta rocha como uma formação especial.

Eu fazia parte de um grupo. E as pessoas iam subindo para a rocha, sem que nos fossem dada explicações específicas. Era uma rocha especial e isso bastava.

Subiram duas ou três pessoas antes de mim, até que chegou a minha vez. Subi e uma energia muito forte fez-se sentir no meu pescoço, a ponto de ter posto imediatamente a mão direita sobre o pescoço. Olho para trás. A senhora que vinha atrás de mim, também ela tinha a mão no pescoço.

Então verifiquei que, naquela pedra, a energia não subia do solo, mas descia directamente do céu. A pessoa que nos levou lá, embora porventura soubesse, não deu qualquer tipo de informação.

Nunca escrevi nada sobre esta pedra, nem falei dela a ninguém. Não sei porquê, como também não sei porque sou levada, precisamente agora, a falar dela e a mostrá-la.
Não preciso saber mais. Para mim está tudo bem.


E uma última recordação do cromeleque dos Almendres.  A desta rocha que tinha, no dia em que lá fui, uma formação que parece e quase é o mapa de Portugal. Creio que, entretanto, desapareceu. A partir de então não mais lá voltei.


Observação: a Natureza só se revela a quem se entrega…


sábado, 5 de janeiro de 2013

A Alma Portuguesa





UM TRABALHO DE MULHERES


Nove meses é o tempo de publicação deste blog. O tempo de uma gestação! Gestação daquilo a que chamei, no início, o parto do futuro.  Um parto partilhado pelas mulheres emblemáticas que, nos meus desenhos ou pinturas, deram corpo e alma a este monólogo semanal.

Sinto que cheguei a uma nova étapa, ainda que não tenha uma ideia clara aonde me levará.  Para já, sem ideia definida, tenho a sensação de que devo juntar, numa mesma comunicação, as diferentes figuras de mulher que evoquei ao longo destes nove meses. O que vou fazer com essa apresentação? Não sei, ainda não sei, embora saiba que elas me vão guiar para essa nova étapa, à medida que as for evocando.

(Não desistam! Para mim é complicado! Mas sei que vou lá chegar, a esse caminho que tenho vindo a preparar ao longo destes nove meses…)

A primeira figura que me vem à ideia é a da Tareja, a rainha D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, mas logo a seguir se impõe a personalidade da rainha Santa Isabel. Aliás, há bocado, olhei para uma das várias estantes de livros cá de casa e deparei com «Os Descobridores», um livro que há tempos procurei e não encontrei, na intenção de reproduzir o desenho das duas rainhas, que desenhei num café da estação de Santiago de Compostela enquanto esperava pelo comboio. O inesperado nesse desenho a lápis é a terceira personagem, a irmã de D. Teresa, D. Urraca, que foi rainha de Leão e Castela, e se mostra zangada, possivelmente afrontada pela presença de Teresa e Isabel, juntas intemporalmente nos seus domínios, ou pelo menos domínios do seu filho…

 (Isto não seria tão fascinante e desafiador para mim se tivesse sido anteriormente pensado! Mas não foi, surgiu assim! Diverte-me ser espectadora do encontro destas personagens, impossível no jogo do tempo linear!)

D. Teresa surge no condado portucalense como a Senhora do Graal. Foi um tempo incrível esse nos primórdios da génese do país que iria tornar-se Portugal. Ela é totalmente terrena e totalmente espiritual. Como se pode ser as duas coisas ao mesmo tempo? Pelos vistos, pode-se. Ela pôde. D. Henrique, o marido, tentou ir a Jerusalém. Não se sabe ao certo se chegou a realizar a viagem. Sabe-se que Portugal está na origem do aparecimento dos templários, que foram perseguidos e exterminados, porque tinham um sentido místico mais profundo do cristianismo e um conhecimento do Corpo Espiritual que só nos finais do século XX haveria de ser divulgado no nosso País…

Há quem afirme que, em Portugal, no início da nacionalidade, houve um grupo de mulheres templárias. D. Teresa terá sido uma delas, mas não encontrei documento credível que o confirme. Navego, portanto pelas águas do mito. Sabe-se que Afonso Henriques pertenceu à Ordem ou se manteve sempre muito próximo dos cavaleiros templários, que foram fundamentais para a expansão do território e na afirmação da independência portuguesa.

 A fundação de Portugal e da Ordem do Templo estão entrosadas desde o início, porventura com um objectivo comum e mais vasto do que a face exterior do cristianismo ou a simples criação de mais um reino. O erro de D. Afonso Henriques foi ter desistido do sonho de sua mãe: o de unificar Portugal com a Galiza. Em causa estava e continua a estar Santiago de Compostela, o Caminho das Estrelas, que surge no prolongamento natural do Minho com a Galiza. Vi esse caminho estelar uma noite, no comboio, a caminho de Santiago, em que as estrelas no céu não ficavam para trás no avançar do combóio, mas avançavam à velocidade da locomotiva como a indicar o caminho. Foi extraordinário. O que me causou espanto foi o facto de as estrelas nunca terem ficado para trás, avançando sempre ao ritmo do combóio.

É aqui que vos deixo Tareja, a rainha que quis unir o condado Portucalense à Galiza, por uma razão mais vasta do que o simples domínio territorial. As fronteiras caíram, não é o domínio territorial que hoje importa, mas o casamento das energias de Portugal e Galiza. Galegos e Portugueses, tão iguais, e porventura com uma missão comum. Urge descobri-la ou inventá-la. Trata-se de dois povos com a mesma Alma e o mesmo legado, que têm de descobrir ou inventar.    


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 A ALMA PORTUGUESA

 Sem dúvida que a Alma Portuguesa se entronca no casal primeiro da nossa História: o Conde D. Henrique e a Rainha D. Teresa. (Rainha por direito de nascença. Era então costume chamar rainhas às filhas do Rei.) Mas logo de seguida, a alma portuguesa é fecundada por um casal de místicos: Santa Clara e S. Francisco de Assis. Adquirindo então uma dimensão mística.

                
Este é o segundo casal a fecundar a alma portuguesa, no mais fundo da sua expressão. É uma alma mística, marcada pelo «poverello», a pobreza por escolha, sendo a expressão de um despojamento natural. Sermos pobres porque essa é a forma de nos tornarmos ricos em profundidade da alma, porventura em solidariedade, em proximidade do outro, em simpatia humana, que é de uma rara grandiosidade, quando se deixa exprimir.

Há um fio inconsútil a ligar os casais que enformaram, deram forma a alma portuguesa e a definiram. Mesmo quando a união entre eles é só espiritual, como é o caso de Clara e Francisco. No caso da Rainha Santa Isabel e do Rei D. Dinis, foi Isabel que assumiu a entrega mística, não tendo porventura por natureza a ânsia da realização carnal.

Desde muito nova que Isabel teve como modelos de vida Santa Clara e S. Francisco, dois seres que procuraram e atingiram a realização profunda da alma que, na época, assentava, nos casos mais conseguidos, na renúncia voluntária da união sexual.

Os tempos são outros. Actualmente, o casal humano pode atingir a transcendência sem ter de renunciar à fusão dos corpos, no que parece ser uma nova fase da espiritualidade e do caminho para a transcendência.

 Talvez Isabel não se interessasse fisicamente pelo sexo, talvez simplesmente tivesse sido emocionalmente ferida pela promiscuidade de D. Dinis, não importa, porque no fundamental eles conseguiram realizar o casamento de almas que permitiu que o reinado de D. Dinis tivesse sido um dos mais importantes da nossa história, capaz de fazer esquecer os conflitos entre o Rei e o filho, o futuro D. Afonso IV.

O pinhal de Leiria antecipou o nosso caminho do mar, continuando o espírito de Isabel a proteger, do outro lado da Vida, o povo que a não deixou de amar. Dela herdámos as rosas, o amor da pobreza e de uma vida ascética, que talvez um dia consigamos seguir. Entretanto, do outro lado, ela continua a proteger-nos e a ser o modelo do melhor da nossa alma.

Por último, neste quadro de personagens que marcaram indelevelmente a alma Portuguesa, trago-vos a Infanta D. Maria, a mulher emblemática da aproximação do Ocidente ao Oriente. E que, na dor e na distância, inspirou o livro que melhor define a alma e a saga dos Portugueses, «Os Lusíadas».

Os amores da Infanta e de Luís de Camões estavam à partida condenados. Ela, filha de Rei, e uma das mulheres mais ricas da Europa, coimo poderia vir a casar com um escudeiro, ainda que ele tivesse sido desde logo reconhecido como um dos maiores poetas de todos os tempos.


Claro que à partida era um amor impossível. Há desenhos que mostram que a Infanta poderá ter tido um filho de Camões. Como acreditar nisso? E terá alguma importância? O relevante, sim, foi que o destino os pôs ao lado um do outro, desencadeando muito sofrimento, o qual se tornaria no cadinho onde foi elaborada uma grande obra.  

Pessoalmente acredito que escolhemos antes de nascer as experiências fundamentais que darão expressão e sentido à nossa vida. Cada um de nós, se conseguir olhar a sua vida com distância e serenidade, poderá encontrar o fio condutor que explica o encadeamento dos acontecimentos que nos fizeram sofrer ou nos deram felicidade, temperando simultâneamente a nossa alma.

A Sempre Noiva nunca chegou a casar, mas deixou uma marca na história. Não terá promovido uma universidade para mulheres, como consta, mas reuniu nos seus salões os intelectuais do tempo e algumas mulheres notáveis. De certa forma, antecipou em séculos a mulher de hoje. Continua famoso o grupo de mulheres que reuniu à sua volta, e que antecipou, no séc. XVI, os famosos salões literários, que vieram a proliferar na Europa, nos séc.s XVII, XVIII.

Há dois pequenos poemas que lhe são atribuídos e que de certa forma a definem e à sua vida. Um deles é:

«Se soubesse fazer trovas/De que me satisfizera/Inda assi as não fizera.»

O outro, que a poderá definir e por isso lho atribuem, diz:

«Já não posso ser contente,/ Trago a esperança perdida./Ando perdida entre a gente/Não morro nem tenho vida.»


Como não tinha vida, um dia em que lhe apareceu uma doença que os físicos diziam ser facilmente tratável, ela recusou tratar-se. E disso morreu.

Uma última palavra para dizer que este grupo de mulheres deu forma à alma feminina portuguesa, ou seja, à mulher de hoje. Que, sabendo ou não, traz no seu ventre uma nova sociedade, uma nova partilha, uma nova forma de estar na vida, mais harmoniosa e mais solidária. Sendo, no seu conjunto, uma síntese da mulher de hoje.


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UM MISTÉRIO DESVENDADO


  Guardei até hoje um dos desenhos dos primeiros dias desta descoberta interior, exactamente 15/5/87, à espera de uma oportunidade que o justificasse. Creio que é o momento de o mostrar. E, com ele, uma das duas cabeças com três rostos, que guardei até agora. A cabeça foi insculpida em Março de 1989 e manteve-se para mim como uma incógnita durante muito tempo. Aliás, só mais tarde consegui relacionar o desenho com as personagens da cabeça.



Uma noite, estava eu na minha sala a ler um livro que tinha recentemente comprado, «Os Cristãos Místicos do Ocidente», quando cheguei a Fénelon e Madame Guyon, personagens que desconhecia completamente. Sei que estava a ler. Parei para descansar e pensar sobre o que lia. Levantei os olhos, que naturalmente percorreram a sala e foram parar numa cabeça, que tinha modelado recentemente, mandado cozer, etc.. Nesse momento, tive um sobressalto.


A cabeça em cima da mesinha, na parede ao fundo, do lado direito do sofá, era parecida com os retratos pintados dos místicos sobre os quais eu estava a ler. Que espanto. Nem queria acreditar. A partir de então esses seres, que eu modelara, passaram a ter um nome: Fénelon, «o pólo voluntarista da oração de quietude» e madame de Guyon, desterrada e com residência fixa por suspeita de quietismo.


É estranho, não é? Eu acho. Então uma pessoa que, aos 18 anos, decide que não há Deus e tem como programa de vida viver segundo a sua consciência, é visitada por quietistas, santos, guerreiros… que é isto?  Rapidamente integrei estes novos personagens, que eu se calhar conheci, que eu poderei ter sido, quem sabe, que pelo menos me acham merecedora da sua visita. É uma honra.

Descobri depois que tinha desenhos antigos dessas personagens, de Fenelon preceptor do Delfim da França, que acabaria por morrer, abrindo caminho à Revolução francesa. Descobri que Madame Guyon fora amiga da filha de Joseph Fouchet, o chefe da espionagem francesa, no séc, XVIII, cuja biografia, escrita por Stephan Zweiger, tinha lido aos 18 anos e de que ainda hoje me recordo com prazer. Como o mundo é pequeno e como tudo se entrelaça, indo nós, ao longo da vida, encontrando e reencontrando aspectos diferentes das figuras que nos impressionaram. Agora, que eu tenha esculpido e desenhado madame Guyon, amiga da filha de Fouquet, foi para mim inconcebível, é para mim inconcebível. Foram coisas como esta que tornaram a minha vida muito divertida para lá de todos os problemas, se é que eu os considero como tais.


Em resumo, o que eu quero comunicar é que a vida é fascinante. E convido-os a irem até ao fundo de si próprios, até as suas vidas se poderem misturar com todas as outras vidas, pois somos todos um. É isto que os novos tempos nos oferecem de bandeja. Recusar é limitar a vida. Sejam largos. E felizes.

Bom ano. Até para a semana.