domingo, 27 de janeiro de 2013

Percurso pela Memória



CALAR OU FALAR NO TEMPO CERTO


         
Da minha infância guardo três visões. Continuam muito vivas em mim. Da primeira, creio que já falei. Foi uma verdadeira visão de criança.  Vi três peixinhos vermelhos a passar ou a passear nas escadas. Como era uma imagem fora de toda a lógica, creio que me assustei. Lembro-me de ter chorado convulsivamente e de não ter revelado o motivo do meu choro. Teria talvez cinco ou seis anos, não sei exactamente a idade, mas já sabia que os peixes não nadam no ar, quanto mais nas escadas.

A outra imagem que guardo da infância, com a mesma força e nitidez, é a da rainha Santa Isabel a descer de um pátio, onde havia um sino, por escadas estreitas, em caracol. No avental carregava pão ou rosas. Seria pão que se transformava em rosas ou rosas que se transformavam em pão. Acho que as escadas e o sino eram muito importantes. Embora eu tenha aprendido a ler aos cinco anos, não sei se esta imagem foi suscitada por qualquer livro ou imagem que eu tenha visto.

A terceira imagem, que ficou indelevelmente gravada em mim como a mais importante, foi a de um Homem/Deus, tão brilhante como o Sol, que conduzia uma quadriga. Um carro puxado por quatro cavalos. Um carro de duas rodas, mais belo e maior do que o das corridas romanas, embora fosse semelhante, que luzia como ouro e voava através dos ares. Sei que estava acordada e sei também que não o disse a ninguém. É a primeira vez que falo disso, sem me importar que digam que estou a inventar. Vi a carruagem do Deus Sol a voar pelos ares e, sim, já estava deitada, mas não estava a dormir.

Estes são os meus mais antigos segredos, que guardei porque sabia que não devia falar deles, para não dizerem que eu estava a inventar ou me chamarem mentirosa. Na altura não sabia que podiam pensar que eu, ou tinha uma grande imaginação, ou não regulava muito bem, e teria de consultar o psicólogo. Estas experiências, porém, só servem de testemunho do mundo onírico das crianças, que tocam outras realidades e muitas vezes se calam, com receio da incompreensão dos adultos. E um segredo que não desestabiliza a criança, ajuda a prepará-la para uma maior capacidade de compreensão de si próprio e dos outros na idade adulta.
 Aliás, sei que as crianças escondem muitas coisas dos adultos. Sabem o que não devem dizer ou a quem podem dizer. Um dia, uma criança de três anos contou-me uma história, demasiado elaborada para a sua idade. Ela era divorciada e tinha dois filhos. Um dia levou os filhos a passear de carro e deixou que o carro deslizasse e caísse no rio…

 Não havia nada à sua volta que pudesse originar esta história. Como não sabia que atitude tomar, calei-me e nunca mais lhe falei disso. Ainda tentei alertar os pais, que disseram que ela era uma miúda com grande imaginação. E tudo ficou por aí. Entretanto, os pais mudaram de casa e não voltei a saber da criança.
Hoje, actuaria de maneira diferente? Claro, mas tudo acontece como deve acontecer. Eu acredito nisso. A nós cabe-nos somente estar atentos e guardar no coração o que nos foi dito ou descobrimos, até ao momento certo. E acho ainda hoje que tudo aconteceu como devia ter acontecido.



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A QUASE AUSÊNCIA DE CRIANÇAS …


Só há pouco me apercebi de que quase não há crianças nos meus desenhos. Tudo se passa num mundo de adultos, empenhados em jogos de poder ou de uma provável sinalização de caminhos, faltando-lhes a alegria e a turbulência das crianças… Como foi que isso aconteceu? Há jogos de amor, sim, vejo isso em muitos desenhos, há o labirinto da Ordem Social, que se entrecruza e define ou aponta horizontes, há até liderança, mas quase não há crianças!... Como não dei por isso mais cedo? Onde ficaram as crianças?
Onde estão? Que horror seria este mundo de adultos sem o sorriso ou o choro de um bebé! Que horror se não tivéssemos ouvido a gargalhada dobrada de uma criança nos nossos braços ou as interrogações e dúvidas de um adolescente, a nosso lado, capaz de nos fazer repensar caminhos!

Andei a contar histórias de adultos, histórias que aconteceram, esquecendo o tempo em que esses adultos foram crianças, talvez felizes, talvez em choro, quem sabe se a esconder as lágrimas à noite na almofada?! Foi por isso que hoje decidi falar da infância e fazer um levantamento das crianças que desenhei.
 Poucas, muito poucas,apenas cinco…

Eu disse falar, mas será, sobretudo, mostrar, porque nada sei das três primeiras imagens. Mostro primeiro um desenho aprazível. A de uma mãe com o filho (ou filha) ao colo, sentado num curioso baloiço ovalado, porventura de madeira ou verga, que serviria para proteger dos xixis e para a mãe poder embalar o filho no colo. É a imagem de uma Senhora do castelo ou da cidade, feliz. Parece-me o instantâneo de um pequeno paraíso.


A segunda imagem é também a de uma maternidade feliz. Ou, porventura, duas faces de uma mesma vida, enquanto criança e já adulta, numa evolução seguida pela Terra e pelo Céu.


Esta é a imagem hierárquica do mundo das mulheres, em três fases: a jovem, a mãe e a matriarca, a grande mãe, que será neste caso a avó... É ela que aqui mantem o poder e assume todo o clã. As crianças lá se encontram espalhadas, protegidas…


Aqui pode ver-se Isabel de Aragão, levando nos braços o marido, a filha, que bem infeliz haveria de ser, e o povo que governava, numa maternidade abrangente.


Mostro, por fim, a filha do casamento de D. Manuel I com D.Leonor da Áustria, a Infanta D. Maria, em criança, a chorar junto ao rosto jovem de Camões. É uma imagem de infelicidade, com cães a uivar. D. Manuel tem no rosto, junto à testa, o retrato da mãe da Infanta D. Maria, a rainha D. Leonor da Áustria.



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AS CRIANÇAS ÍNDIGO


    Porque falei de crianças, quero evocar aqui hoje as crianças índigo, o futuro ainda embrião de uma Nova Ordem Social, de Uma Nova Terra.

São as crianças índigo, que trazem o futuro no ventre, que foram mandadas emigrar e estão a partir hoje para o mundo, mas rapidamente vão voltar. Elas têm a semente de um novo tempo dentro de si. Talvez precisem da experiência de outros horizontes para alargar a sua alma e dar forma ao impulso de renovação que, embora o não saibam ainda, têm dentro de si.

Esses jovens que partiram vão espalhar a sua energia por países que precisam ser renovados, para que todo o planeta se renove. Toda a ordem social se renove. Mas isto merece ser aprofundado. Fica para uma próxima vez.      



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