FREQUENTAR A ESCOLA DO SONHO
Francamente,
não sei como se é admitido na Escola do Sonho. Sei que um dia me encontrei lá.
Subi três degraus e ofereceram-me um vestido azul com grandes flores, um bocado
espampanante…
O meu
traquejo jornalístico levou-me a escrever uma entrada com todos os ingredientes capazes
de prender a atenção. É uma técnica, que tem vantagens e inconvenientes. Por
exemplo, como é que se é admitido/a na Escola do Sonho? Uma pessoa
candidata-se? Que qualificações são necessárias? É exigido algum tipo de qualificações
académicas? Deixei tudo isso de lado, porque eu própria não sei.
Admito,
porém, que embora não sendo essencial, alguma formação escolar seja necessária, pela parte que o conhecimento académico possa ter na modelação do
Ser. Estou em crer, porém, que não é determinante. Não são os
diplomas que habilitam para a Escola do Sonho, mas o que cada um faz em si
próprio com aquilo que aprendeu. E não se alvorocem, porque não há candidaturas
conscientes. Acho que ninguém pode chegar lá, em vigília, e dizer: «Eu quero
frequentar a Escola do Sonho».
Fui, portanto,
uma noite, admitida na Escola do Sonho. Dormia, porventura sonhava, mas estava
consciente. Subi três degraus. Sei que a subida desses três degraus é uma
condição indispensável. Não se entra sem os subir. E como é que se chega a esses
três degraus? Não sei.
Ali estava eu, sozinha, disposta a entrar. Devia
ter consciência do que estava a fazer. Não sei ao certo. Sei que subi três
degraus e fiquei num grande espaço aberto. Não me recordo do mobiliário, se é
que havia.
Então
apareceu alguém. Não recordo traços, não recordo vestuário, nem recordo género,
mas estou em crer que seria do sexo feminino. Esse alguém estava ali para me
receber e para me dar as boas vindas, creio eu. O que efectivamente fez foi
dar-me a roupa que eu deveria usar. Não era propriamente uma farda, mas algo
personalizado, percebi mais tarde. Um vestido, azul forte, com grandes flores.
Espampanante!
Achei o
vestido horroroso e como, desde criança, sempre me deixaram escolher o que
vestia, perguntei se poderia usar outro vestido. Aquele não me agradava! Disseram-me
logo que sim. A minha anfitriã, com toda a boa vontade e gentileza levou-me
junto de uma grande mesa, pejada de vestidos. E disse-me para eu escolher o que eu quisesse…
Quando a
fartura é muita, a dificuldade na escolha é maior. Ninguém me apressou e eu lá
fiquei, face a todos aqueles vestidos, atrapalhada com a dificuldade da escolha.
Eu tinha uma ideia do que queria, ou mais precisamente, o que a circunstância
exigiria que eu usasse. Um vestido discreto, de cores sóbrias, pensava eu, era o mais adequado à situação e à minha personalidade. Já não me recordo bem, foi há mais de 25 anos, mas acho que escolhi um vestido bege ou
cinzento, ou castanho, e fui experimentá-lo. Ficava horrorosa!
Tentei
outros e era a mesma tristeza, até que, finalmente, voltei ao vestido azul com
flores, que era afinal o que me ficava melhor. E pronto, foi assim que, de
vestido berrante, mas adequado à que eu era então, que dei entrada na escola do
sonho para uma longa, muito longa aprendizagem, que talvez nunca tenha fim.
ENTÃO, ENCONTREI UMA CHAVE...
Tempos depois encontrei uma chave. No chão, na terra. Grande. De ferro. Parecia a
chave da porta de uma igreja. Cismei algum tempo de que igreja seria, até que
senti que era perseguida no sonho, que havia qualquer coisa que tentava
desviar-me, mas passou.
Um dia, encontrei uma casa. A casa de que eu tinha a chave, soube ao vê-la. Eu faço
muita cerimónia com as pessoas. Seria incapaz de entrar na casa de quem quer que
seja, sem ter sido convidada. Eu tinha a chave daquela casa, onde poderia ir
ler, descansar, estudar, o que quisesse, segundo me disseram, mas não tinha
coragem de entrar lá, porque os donos não estavam. Não havia lá ninguém para me
receber.
Eu ia até junto
da casa, um palacete grande, com um lago e um repuxo! Ouvia-se a água a correr…
Era muito convidativo, mas sem os donos presentes, que não me tinham convidado
pessoalmente, eu não me sentia autorizada a entrar. Apesar do meu grande
desejo, não fui capaz de entrar!
Então, após
a cena se ter repetido várias vezes, um dia, parte dos muros que isolavam o
palacete caíram, e eu passei a poder ver o jardim, a água a correr para um lago.
O desejo de entrar era cada vez mais forte, mas sem os donos estarem lá era um
abuso, eu não entrava. E não entrei.
Numa das noites
seguintes, levaram-me a uma biblioteca. Mostraram-me especialmente uma estante,
convidando-me a ir ali, sempre que quisesse, buscar livros para ler. Fiquei com
o título de um livro, com vários volumes, que me interessou especialmente. Um
dia passei por uma livraria e encontrei lá os livros. Comprei-os. Não
necessitaria de esperar pelo sonho. Podia lê-los sempre que tivesse tempos
livres.
O engraçado
é que não cheguei a ler os livros, porque uma amiga pediu-mos emprestado e
nunca mos devolveu. Não me importei porque, entretanto, soube que, ou já os
tinha lido, ou já passara a fase em que era importante eu lê-los.
Acabei por
arranjar uma casa. Naquele dia, ia ser a inauguração. Convidei uma determinada
amiga para estar presente e fui esperá-la à entrada. A casa tinha um grande
jardim, que terminava numa piscina. Para se chegar ao portão tinha, forçosamente, de se entrar na piscina e molhar os pés.
A minha
amiga não quis molhar os pés. Disse-me que ia de volta e que mais adiante nos
encontraríamos. Comecei a subir o jardim, que ocupava uma pequena encosta, à
espera de encontrar a minha amiga mais acima, mas ela não apareceu.
Quando se
inicia uma viagem iniciática, que, sei hoje, era o que eu estava a fazer, há
sempre alguém que surge a nosso lado para nos apoiar, esclarecer quando fosse
preciso, emprestar o livro adequado ao momento. Aliás, não tive um, mas dois
amigos, o que, segundo um deles me disse, é raro isso acontecer.
Então, o amigo a quem contei o episódio,
esclareceu-me que era preciso molhar os pés para se poder entrar no Outro Lado.
Disse-me até que há pessoas que têm de atravessar rios e águas caudalosas para poder
chegar à outra margem. Não sabia nada disso. Já estava do outro lado, alguma preparação
anterior teria tido para me deixarem entrar sem problemas.
Subi a
encosta que levava à minha casa. Era uma espécie de capela, que teria sido porventura
um lugar de culto. Eu gostava muito dela, mas lembro-me da minha indecisão
quanto ao sítio onde ia colocar a minha cama.
Entrei e,
então, de repente, na parece do lado esquerdo, um bocado acima do solo, vi uma
porta. E soube que aquela era a porta que a minha chave abria! A indecisão de
antes desapareceu completamente. Aproximei-me da porta, que já estava aberta.
Levava a chave de ferro pousada nas minhas mãos abertas, levantadas à minha
frente. E entrei.
Uma série de
homens, sentados numa mesa em U, iam julgar-me. Julgar-me, porquê? Eu estava
ali de direito. Tinha sido convidada! Não tinha dúvida nenhuma de que tinha o
direito de estar ali. E sorri para eles!
O meu
sorriso aboliu qualquer hipótese de julgamento. Os homens sentados sorriram
para mim, abandonaram os lugares da mesa e vieram receber-me, acho que com
alegria.
Creio que
eram mais de doze, talvez vinte, ou vinte e dois homens vestidos com um
estranho e, de certa forma, pomposo vestuário. Pareceu-me um vestuário ritual.
Já foi há tantos anos que esqueci.
Um desses homens de balandrau comprido era-me
estranhamente familiar. Sentia que ele me conhecia muito bem e isso incomodava-me, porque conhecia-o, mas não me lembrava… Conhecia-o e ele
conhecia-me, mas incomodava-me, porque senti que eu não tinha segredos para
ele...
Lembro-me
que fui depois introduzida numa outra sala. Duas mulheres vestiram-me um lindo
vestido comprido, cor-de-rosa, de seda. E eu ficava muito bonita e elegante com
ele. Quiseram então fazer-me um toucado com uma planta de cor branca, semelhante
na forma à que tem a mulher de joelhos nos painéis de S. Vicente. Mas a planta
movia-se, estava viva e era lindíssima e eu recusei, porque não quis que a
cortassem, que ela morresse por minha causa. Então, uma das mulheres,
inesperadamente, disse: «Está bem. Vais tê-la quando a mereceres!» Na altura
não percebi a lógica, mas talvez tivesse recusado a oferta, porque não estava
preparada para ela. Será?
A seguir
foi-me mostrado o homem novo em construção. O corpo estava pronto, era muito
belo, talvez mais alto do que é actualmente, de uma cor dourada. E de seguida levaram-me a uma sala, mais interior, e mostraram-me o futuro. Felizmente, esta parte
esqueci, completamente. Seria talvez um fardo pesado demais!
Então desci,
levitando, na capela que era a minha casa, e os meus amigos fizeram-me uma
grande festa. E um deles disse-me:
«A partir de
agora só está do lado do bem!»
E eu
respondi, mais ou menos o seguinte: «Não. Eu aprendi que o mal é só o atrito
que nos faz avançar!»
Tenho este episódio
descrito com mais rigor, em outro local, mas não vou agora procurá-lo. Acho que
o que descrevi dá em síntese tudo o que se passou.
A FECUNDAÇÃO DA LUA
Parei para me perguntar porque estou a contar isto. Será que a Humanidade no seu todo vai passar por este processo? Que sou uma das pessoas a quem cabe a obrigação de abrir caminho para que tudo seja mais fácil e simples? Será muito redutor dizer isto assim, porque cada um de nós no seu percurso está a abrir caminhos de luz, mesmo, ou sobretudo, quando atravessa a noite escura da alma.
Por essa
altura, acordava de noite a ver o Sol. E trazer o Sol do sonho era sempre uma
experiência que me parecia dilatar a alma. O Sol alternava com a Lua. Por vezes
via o Sol. De outras vezes, via a Lua. Até que uma noite no firmamento, estavam
do lado esquerdo o Sol e do lado direito a Lua, e o Sol lançava raios sobre a
Lua. E eu acordei sabendo que o Sol tinha fecundado a Lua e fiquei com este
conhecimento, sem me levantar questões, mas pensando que eu própria fora, de
certa forma, fecundada na Luz.
Mais tarde
pintei um quadro que mostram as três faces da Lua, a Velha, a Mãe, e a
Adolescente, no grande mistério que é a Lua.
O sonho
levou-me então à descoberta de outros planetas. Lembro-me especialmente de
Saturno e do seu anel dourado. E de um Planeta que toda a sua aura era uma
vibração de amor. Ali eu quis ficar ou voltar, mas só me deixaram ir lá uma
vez. Talvez houvesse o risco de, na próxima, eu não querer mesmo regressar.
Então
comecei a ver não só este Sol que nos ilumina e aquece, mas outros sóis. Até
que me mostraram sóis em prateleiras. Aí eu fiquei zangada, porque achei que
algum espírito zombeteiro estava a brincar comigo… E, durante muito tempo, o
Sol deixou de iluminar as minhas noites.
O tempo
passou e encontrei uma outra chave. Era de ouro e prata. Trouxe-a comigo
durante cerca de vinte anos, sem saber para que servia. Até que um dia,
inesperadamente, soube. E, como sempre acontece, quando se tem a chave e se
encontra a porta, ou o que a chave abre, a porta ou o quer que a chave abre já
está aberta…
Este é um
dos segredos do caminho espiritual. Primeiro, tem de se encontrar a chave.
Depois, tem que se encontrar a porta. E, quando se tem a chave, a porta já está
aberta… Pode-se entrar.










