sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Um Povo Acossado




BRANDOS COSTUMES EM RISCO?


Frente à televisão, a assistir à retransmissão de um programa semanal de debate, encontrei-me, de repente, a repetir uma frase de Camões: «Amo tanto a minha Pátria que não me contento em morrer nela, mas com ela!»

 Foi aí que me zanguei comigo própria e me decidi vir sentar-me ao computador e retomar esta conversa. Não! Vou morrer, sim, qualquer dia, como toda a gente, mas não calada, não sem luta, não de braços cruzados a assistir à destruição estrutural deste País, por um grupo que ganhou eleições com falinhas mansas e falsas promessas. Por um Partido Político que atraiçoa a sua raiz social democrata e está a vender o País ao desbarato, a destruir as traves mestras de uma sociedade que se pretendeu tanto quanto possível igualitária e onde um Governo, que não foi mandatado para tal, está a fragilizar os pilares da nossa economia, indo sempre além do que é estritamente necessário. E, ao mesmo tempo que ataca os mais fracos e cava o fosso da pobreza, faz subir a lista dos milionários!

Cada um de nós só vê o que quer ver, não é? Será que o Governo ainda não se deu conta de que está a pisar um terreno minado, prestes a explodir? Não vê que os nossos brandos costumes não são o que para aí se diz, num contexto de memória curta?! Há os defenestrados e os atentados, na nossa história antiga e na memória recente. Há, sim, o Povo na rua, pacificamente, como tem sido até agora, mas também tem havido o Povo em fúria, até com Marias da Fonte… E quando uma mãe não tem o que dar a comer a um filho, que se pode esperar? Só a pobreza envergonhada? Os Polícias subiram as escadas do Parlamento, mas voltaram para trás. Voltarão para trás da próxima vez? E, como é? O Governo vai agora a correr devolver-lhes o subsídio para a farda e aumentar-lhes o vencimento? É que, se não vai, que confiança pode o Primeiro Ministro ter naqueles que guardam a sua porta, o seu carro, os seus filhos? Não tem lido nas notícias o que o desespero de alguns pode fazer? E os outros, todos os outros, que chegam a meio do mês sem dinheiro, vão continuar calados? E será que é absolutamente necessário ir tão longe na austeridade quanto está a ir? O Povo sabe que não. Também sabe que está a vender ao desbarato pilares essenciais da nossa estrutura social, como os Correios, por exemplo, deixando populações rurais sem o meio próximo de contactar com o mundo, sem o telefone, por exemplo, para chamar uma ambulância…

Quão longe está tudo isto da Alma de Portugal!

Espero que os governantes dêem um passo atrás, enquanto é tempo, antes que a caldeira acabe por explodir!


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O TEMPO DO CAIR DAS MÁSCARAS


 Este é o tempo de cair das máscaras. Não sei se a frase é do Snowden, mas creio que sim. É um tempo novo este em que vivemos, em que a verdade não se manterá por muito tempo escondida. Um tempo em que a informação corre o Planeta com a rapidez do relâmpago.
 Querer manter as mesmas regras na política, querer manipular os outros povos, como antigamente se poderia fazer, por eles não terem acesso à informação, é pouco inteligente e descabido. Como é descabido e estúpido querer entre nós manipular o Tribunal Constitucional. O «Diário Económico» diz que tem sido uma vergonha. E tem. Tem sido um espectáculo degradante.

 Aconselho as pessoas a estarem atentas à tonalidade das vozes que ouvem. Nelas vibra o diapasão da raiva. Talvez esteja ainda em surdina, contida. «A raiva é a saliva de alma», ouvi hoje ao sociólogo Boaventura Sousa Santos, ao fazer a minha busca matinal na Internet. Durante uma entrevista, muito interessante, o sociólogo afirmou que o rap é como o canto gregoriano, monótomo, mas muito rico nas suas palavras. E afirmaria algo, que me deixou a pensar: «A cultura ocidental, que nos trouxe atá aqui (…), não é capaz de captar a raiva que está nas vozes. Não está a ouvir…»  Registo esta afimação, embora fora do contexto, porque ilustra bem o que se está a passar entre nós. O Poder não está a ouvir o descontentamento, dia a dia mais intenso.

 Será que o vai deixar florir em cravos?



domingo, 10 de novembro de 2013

E Surge uma Nova Etapa…



A VIDA CONTINUA IGUAL E DIFERENTE


Mergulhei no silêncio há quase dois meses, sem vontade de continuar pelo caminho que estava a seguir. Não sei explicar exactamente a força que me fez parar. Sentia que tinha percorrido uma etapa. Estava feita, não valia a pena continuar a pisar os mesmos trilhos. Em resumo, era isso o que sentia, ainda que não quisesse ou soubesse formulá-lo claramente. Algo de novo teria de surgir em mim ou fora de mim, ainda que eu estivesse convicta de que dissera já o essencial da minha vivência que, de alguma forma, admitia, poderia ter sido útil a alguém. Mas estava feito.

A minha gata Xana morreu como eu já esperava e a irmã, a Becas, deixou de comer, emagreceu, e passou a dormir de manhã à noite, como se estivesse a fugir às saudades da irmã.

Sonhei então com uma gatinha branca, com manchas pretas. De manhã, decidi ir a uma loja de produtos para animais, que abrira há pouco tempo no bairro e que, segundo tinha ouvido na veterinária, tinha gatos para dar.

Ainda não tinha dito ao que ia e o dono da loja, que eu já conhecia, perguntou-me se eu não queria uma gatinha… Não esperou resposta. Foi buscá-la e trouxe-me a gata bebé com que eu sonhara, branca e preta, com a única diferença de ter uma manchinha negra no nariz.

Recuei um tanto assustada pela veracidade do meu sonho. Não chorei pela morte da minha Xana e ia chorar pela gatinha bebé que me traziam do sonho para a realidade. Admito que não tenham percebido a minha perturbação. Uma cliente disse qualquer coisa sobre a forma como a gatinha me olhou e que na minha memória ficou registado como se a gata bebé me tivesse adoptada ao primeiro olhar. Peguei nela e, sim, tinha-a aceite. Era o novo membro da família.

O meu neto apaixonou-se por ela e quer que lhe chame Luna. Tentei, mas a gata tornou-se tão irrequieta, que eu acho que é do nome. Ela vive consecutivamente no mesmo dia as diversas fases da lua e eu preferia uma gatinha mais calma. É por isso que ando a pensar chamar-lhe Nina, Nini, qualquer nome sem a deriva lunar no mesmo dia. Para já, Pequenina é o nome mais adequado, embora esteja a crescer aceleradamente.

 A Nina ou Luna, ainda não sei o nome que melhor se lhe adequa, está a destruir-me os cortinados e a correr com toda a alegria do mundo pela casa. E a comer vorazmente… Para já trouxe nova energia à Becas que, por vezes, corre com ela, por vezes lhe dá uma sapatada e se apressa a comer ao ritmo da nova companhia. Quer dizer, a minha Becas está a vencer as saudades da irmã e a retomar a alegria. Já as tenho encontrado no sofá a dormir juntas… E a vida continua.


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DEPOIS DA HISTÓRIA COM GATOS…


…Uma história com ratos ou a doença da solidão. Não torçam o nariz, com repugnância! É uma história que me foi contada pela Paz, a empregada que me faz a limpeza da casa, de voz embargada e lágrimas nos olhos, e que eu ouvi como uma extraordinária história de vida.

A Paz trabalha para vários membros da família e é a discrição em pessoa. Está estabelecido entre nós: eu não pergunto nada, ela não conta nada, mas naquela manhã, com lágrimas nos olhos, ela não conseguiu deixar de me contar.

A Paula, que é médica, contou-lhe a visita que fez a uma doente, uma velha com vários problemas. Durante a consulta reparou num rato que punha a cabeça de fora no lambril de uma das paredes. A doente, que se apercebeu que a médica vira, disse-lhe que muitas vezes de noite se levantava para dar de comer aqueles ratinhos e ficava a vê-los comer.

A Paula ficou compreensivelmente enojada. Relatou o caso no Centro de Saúde e conseguiu que mandassem alguém a casa da doente tapar o buraco na parede.

Quando voltou a visitar a doente, dias depois, esperava-a uma idosa muito zangada. Com que direito é que a doutora mandou tapar o buraco? Aqueles ratos eram a sua companhia. Levantava-se de noite para lhes dar de comer e eles vinham, andavam por ali, não tinham medo dela! Tudo isto entre lágrimas, raiva, dignidade ferida, solidão.

Não sei se a Paula chorou de dor pela solidão sem nome de um ser que confraternizava com ratos e a quem ela, na melhor das intenções, retirara a única companhia!
Quanta dor no mundo!...


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O ESPECTÁCULO DO MUNDO CONTINUA


Nada mudou. O espectáculo do mundo continua igual. O Snowden lá continua pela Rússia, os EUA também continuam a espiar com maior ou menor recato, mas sem vergonha nenhuma, e os outros países espiam o que podem à sua escala. Isto é, tudo continua irremediavelmente igual a si próprio num jogo em que um equilíbrio incerto se mantém. O que, para maior parte de nós, já é uma graça.

Regressei, mas não ainda em pleno. Neste interregno fiz a operação às cataratas. Correu tudo muito bem, mas interiormente ainda não me refiz. Apesar de ter descoberto que os meus quadros têm muito mais luz do que aquilo que eu via e isso foi um deslumbramento! A luminosidade é, para mim, que nada sei de pintura, algo mais extraordinário do que a técnica. Pela primeira vez Vi a luz dos meus quadros e fiquei tão contente como uma criança. Que afinal continuo a gostar de ser.

Como tenho andado na busca da Luz interior pouco tenho a dizer. Este é um período em que verdadeiramente só me interessa sentir. Talvez volte para a semana.