A VIDA
CONTINUA IGUAL E DIFERENTE
Mergulhei no silêncio há quase
dois meses, sem vontade de continuar pelo caminho que estava a seguir. Não sei
explicar exactamente a força que me fez parar. Sentia que tinha percorrido uma
etapa. Estava feita, não valia a pena continuar a pisar os mesmos trilhos. Em
resumo, era isso o que sentia, ainda que não quisesse ou soubesse formulá-lo
claramente. Algo de novo teria de surgir em mim ou fora de mim, ainda que eu
estivesse convicta de que dissera já o essencial da minha vivência que, de
alguma forma, admitia, poderia ter sido útil a alguém. Mas estava feito.
A minha gata Xana morreu como
eu já esperava e a irmã, a Becas, deixou de comer, emagreceu, e passou a dormir
de manhã à noite, como se estivesse a fugir às saudades da irmã.
Sonhei então com uma gatinha
branca, com manchas pretas. De manhã, decidi ir a uma loja de produtos para
animais, que abrira há pouco tempo no bairro e que, segundo tinha ouvido na
veterinária, tinha gatos para dar.
Ainda não tinha dito ao que ia e o dono da
loja, que eu já conhecia, perguntou-me se eu não queria uma gatinha… Não
esperou resposta. Foi buscá-la e trouxe-me a gata bebé com que eu sonhara, branca
e preta, com a única diferença de ter uma manchinha negra no nariz.
Recuei um tanto assustada
pela veracidade do meu sonho. Não chorei pela morte da minha Xana e ia chorar
pela gatinha bebé que me traziam do sonho para a realidade. Admito que não
tenham percebido a minha perturbação. Uma cliente disse qualquer coisa sobre a
forma como a gatinha me olhou e que na minha memória ficou registado como se a
gata bebé me tivesse adoptada ao primeiro olhar. Peguei nela e, sim, tinha-a
aceite. Era o novo membro da família.
O meu neto apaixonou-se por
ela e quer que lhe chame Luna. Tentei, mas a gata tornou-se tão irrequieta, que
eu acho que é do nome. Ela vive consecutivamente no mesmo dia as diversas fases
da lua e eu preferia uma gatinha mais calma. É por isso que ando a pensar
chamar-lhe Nina, Nini, qualquer nome sem a deriva lunar no mesmo dia. Para já,
Pequenina é o nome mais adequado, embora esteja a crescer aceleradamente.
A Nina ou Luna, ainda não sei o nome que
melhor se lhe adequa, está a destruir-me os cortinados e a correr com toda a
alegria do mundo pela casa. E a comer vorazmente… Para já trouxe nova energia à
Becas que, por vezes, corre com ela, por vezes lhe dá uma sapatada e se apressa
a comer ao ritmo da nova companhia. Quer dizer, a minha Becas está a vencer as
saudades da irmã e a retomar a alegria. Já as tenho encontrado no sofá a dormir
juntas… E a vida continua.
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DEPOIS DA HISTÓRIA COM
GATOS…
…Uma história com ratos ou a
doença da solidão. Não torçam o nariz, com repugnância! É uma história que me
foi contada pela Paz, a empregada que me faz a limpeza da casa, de voz
embargada e lágrimas nos olhos, e que eu ouvi como uma extraordinária história
de vida.
A Paz trabalha para vários
membros da família e é a discrição em pessoa. Está estabelecido entre nós: eu
não pergunto nada, ela não conta nada, mas naquela manhã, com lágrimas nos
olhos, ela não conseguiu deixar de me contar.
A Paula, que é médica,
contou-lhe a visita que fez a uma doente, uma velha com vários problemas.
Durante a consulta reparou num rato que punha a cabeça de fora no lambril de
uma das paredes. A doente, que se apercebeu que a médica vira, disse-lhe que
muitas vezes de noite se levantava para dar de comer aqueles ratinhos e ficava
a vê-los comer.
A Paula ficou
compreensivelmente enojada. Relatou o caso no Centro de Saúde e conseguiu que
mandassem alguém a casa da doente tapar o buraco na parede.
Quando voltou a visitar a
doente, dias depois, esperava-a uma idosa muito zangada. Com que direito é que
a doutora mandou tapar o buraco? Aqueles ratos eram a sua companhia.
Levantava-se de noite para lhes dar de comer e eles vinham, andavam por ali,
não tinham medo dela! Tudo isto entre lágrimas, raiva, dignidade ferida,
solidão.
Não sei se a Paula chorou de
dor pela solidão sem nome de um ser que confraternizava com ratos e a quem ela,
na melhor das intenções, retirara a única companhia!
Quanta dor no mundo!...
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O ESPECTÁCULO DO MUNDO CONTINUA
Nada mudou. O espectáculo do
mundo continua igual. O Snowden lá continua pela Rússia, os EUA também continuam
a espiar com maior ou menor recato, mas sem vergonha nenhuma, e os outros
países espiam o que podem à sua escala. Isto é, tudo continua irremediavelmente
igual a si próprio num jogo em que um equilíbrio incerto se mantém. O que, para
maior parte de nós, já é uma graça.
Regressei, mas não ainda em
pleno. Neste interregno fiz a operação às cataratas. Correu tudo muito bem, mas
interiormente ainda não me refiz. Apesar de ter descoberto que os meus quadros
têm muito mais luz do que aquilo que eu via e isso foi um deslumbramento! A luminosidade
é, para mim, que nada sei de pintura, algo mais extraordinário do que a técnica.
Pela primeira vez Vi a luz dos meus quadros e fiquei tão contente como uma
criança. Que afinal continuo a gostar de ser.
Como tenho andado na busca
da Luz interior pouco tenho a dizer. Este é um período em que verdadeiramente
só me interessa sentir. Talvez volte para a semana.

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