segunda-feira, 28 de julho de 2014

O Sobressalto Que Pode Redimir




Os Governos Passam e o Povo Fica


É uma verdade indesmentível. Os Governos passam e o Povo, os Povos sobrevivem, melhor ou pior, segundo as necessidades de aprendizagem que lhes são próprias. Querer ignorar isto é ser apanhado/a na ratoeira das próprias ilusões. A Humanidade prossegue no ritmo que lhe é próprio e que é, em primeiro lugar, o do seu aperfeiçoamento. Sempre marcado por avanços e retrocessos. Avanços lentos, demasiado lentos. Retrocessos, de que há prenúncios e anúncios, mas que surgem sempre também eles inesperadamente. Pelo menos na aparência. Quem sabe se para dar maior consistência ao caminho percorrido.

Há quem viva do passado. Há quem viva esperançosamente no futuro. E há quem se deixe impregnar do presente, como a única coisa que realmente existe e persiste. Sempre o Presente. O ontem já passou. O amanhã é incerto. A Terra Prometida dos Sonhadores é, porém, sempre projectada no futuro, quando o hoje é a única coisa que verdadeiramente existe para cada um de nós. É no hoje que construímos o amanhã. Não propriamente os amanhãs que cantam, mas os amanhã que melhor correspondam aos sonhos que mais nos realizam.

Tenho estado em silêncio como espectadora de uma realidade que de forma alguma me satisfazia. Volto a escrever no momento em que um «terramoto» destrói a imagem do até há pouco todo poderoso Ricardo Salgado. Um «império económico» está a ruir a uma velocidade que não se previa. Ricardo Salgado, por tanto tempo o homem forte do Banco Espírito Santo (logo este nome!), foi apanhado nas teias da justiça. E tudo se desfaz: o bom nome, as contas bancárias escondidas nos off shores, a liberdade ameaçada. Subir tão alto e tão arrogantemente para se esfarelar numa curva do caminho, perdendo o bom nome e, porventura, a fortuna acumulada… Pelo menos aquela que não está escondida sabe-se lá onde …

De repente, parece que se abriu uma brecha e que a atmosfera em Portugal vai entrar num período de purificação. O silêncio é, muitas vezes, a melhor forma de oração. Esperemos que um silêncio fundo penetre e incomode os corações de todos os «salgados», indiferentes ao sofrimento dos portugueses que perderam os seus empregos, as suas casas e os seus bens nos últimos três anos, enquanto um dos homens fortes da Banca enriquecia e era poupado pela troika, que «atacou» os pequenos, sem ver a «montanha» ignomiosa que se erguia à sua frente. E com isto perdeu a pouca credibilidade que tinha entre o Povo.


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O CORPO É SAGRADO


Quero lembrar aqui, depois deste período de silêncio, que o corpo humano é sagrado. É por ele que podemos chegar ao Divino, mas também à mais profunda degradação. Tudo depende do «uso» que lhe damos, interior e exteriormente.

No corpo existe todo o conhecimento. Ele é o grande mestre do Ser Humano, mas é preciso que cada um de nós o respeite como expressão do divino. E que aprendamos a sua linguagem, os segredos que tem para nos contar.

Não aconselho a repressão, mas a atenção. Atenção á sua linguagem. Há que despertar a mente, toda a gente sabe, mas há também que despertar o corpo, para que ele percorra o caminho que conduz o Ser Humano ao Infinito.

 Cabe a cada um de nós descobrir esse caminho e ser parte consciente do Cosmos.


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É PRECISO DESCRUCIFICAR O HOMEM

Aos vinte anos, no primeiro ano em que trabalhei, escrevi uma crónica a que dei como título «É preciso descrucificar o Homem».

Não sei o que escrevi, nunca fui colecionadora dos meus escritos, mas lembro-me desse título «É Preciso Descrucificar o Homem», porque a necessidade de descrucificar o Homem é ainda hoje, em todas as circunstâncias, a força mais importante que me move.








quarta-feira, 12 de março de 2014

Implodimos Antes de Explodir


A RESPONSABILIDADE DOS GOVERNANTES

Foto de Tiago Machado do jornal Público


Aconteceu a segunda manifestação dos polícias. Desta vez ficaram-se pelos primeiros degraus da Assembleia da República. O seu protesto foi veemente, agora com cerca de 18 ou 20 mil participantes à paisana. Desta vez, esforçaram-se por não ultrapassar as regras, embora se vissem núcleos mais aguerridos, que desejariam ir um pouco mais longe. Quase se pode dizer que correu tudo dentro das regras e que a vida continua. Igual? O seu protesto foi ouvido, as reivindicações vão ser contempladas? A população espera para ver, preparando-se globalmente para a próxima manifestação. Para mim, a manifestação autêntica, a que produzirá realmente efeitos visíveis, será a das próximas eleições. Claro que desejo que o Povo vote em massa, manifestando concretamente o seu descontentamento. Ou seja, diminuindo a participação do PSD no fórum Europeu. Só assim o PSD compreenderá que não pode governar contra o Povo. Entretanto, está a vender tudo o que de melhor tem Portugal. E será que não poderemos fazer nada contra esta razia? Estão a vender as «jóias da coroa». Quando se forem embora não restará nada. Não haverá forma de os responsabilizar? Espero bem que venham a ter de dar contas em Tribunal pelas suas decisões. 


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O SILÊNCIO NEM SEMPRE É BOM MENSAGEIRO


A população em geral parece estranhamente sossegada e contida. Significa isso que foi vencida? Que aceitou ser empobrecida sem protestar? Que, de ânimo leve, aceita ver partir a geração mais qualificada que Portugal alguma vez teve? Uma geração que pode não regressar! Lembramos aqui uma frase de Martin Shultz: «Salvamos os bancos, mas podemos perder uma geração». Uma frase que parece ter sido dita a pensar nos portugueses e em Portugal.

Só pode haver um consolo: o de que esses jovens foram obrigados a espalhar-se pelo mundo para transmitir a alma de Portugal, o que de diferente e profundo existe em nós. A simpatia humana e afectiva que nos distingue e que porventura vai dar um outro tónus aos hospitais ingleses, por exemplo. Ou a nossa capacidade criativa que nos leva, com poucos meios, a encontrar soluções criativas para problemas complicados. Nós temos o que se pode chamar a capacidade de «desenrascanço», que nos permite viver muito melhor do que aparentemente nos permitiriam as nossas possibilidades. E isso é uma característica generalizada. Viveremos sempre melhor do que querem os nossos credores, porque temos imaginação, solidariedade e do pouco sabemos fazer muito. E, como somos leais, não soubemos antecipar que, numa fase, nos empurram para os gastos excessivos, porque é isso que convém aos mercados, para depois nos pedirem contas pelo mais que gastamos e nos queiram então empurrar para a penúria e para a emigração, que é a forma de poderem acolher mão-de-obra barata e muito qualificada, de que não tiveram de subsidiar a formação. Não sejamos ingénuos! Os que movem os cordelinhos da alta finança são tudo menos ingénuos e podem planear crises para num futuro próximo obter maiores dividendos. Foi essa a crise que a Europa criou. A crise de que a alta finança vai sair altamente beneficiada. Os vampiros, como cantou o Zeca Afonso!

Perceber como a alta finança mexe os cordelinhos não nos tem bastado para antecipar as jogadas, mas ajuda para fomentar a nossa revolta. Os portugueses recolheram-se e calaram-se para sentir o Inverno do Seu Descontentamento. Mas a Primavera está à porta e, com ela, a energia da revolta. Será que as novas manifestações terão cem mil pessoas na rua a gritar o seu Descontentamento? Não é isto o que o horizonte prenuncia? Não é isto o que a revolta vivida no silêncio está prestes a fazer explodir?

Sem nenhuma demagogia há que perguntar: quem vai continuar a alimentar esse milhão de desempregados sem trabalho nem subsídio? Isto não preocupa os governantes?

É tão estranho, mas são sempre os pobres que pagam as crises. Podem explicar-me porquê? Será porque o Poder está ao serviço dos ricos? Quem é que sabe a resposta?!...

Implodimos sempre antes de explodir…


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A DESCIDA DA GRANDE MÃE


Quem olhar o planeta globalmente percebe que, de uma forma ou de outra, os países e os mercados entraram num período de desregulação. O grande capital tem a sua própria lógica, que não tem nada a ver com o interesse das pessoas. E a sua lógica é pôr o dinheiro a fazer dinheiro, sem contemplações. Talvez tenha sido sempre assim, mas parece que o Grande Capital foi apanhado na sua própria armadilha e já não haja nada seguro, nem para ele, e que tudo de repente pode ser apanhado num sorvedouro causado por uma guerra ou, simplesmente, por mudança bruscas e definitivas do clima, Nova Iorque sempre coberta de neve, Londres, sob tempestades permanentes.

Ninguém sabe ao certo como o clima vai evoluir, mas ao que parece ele vai ser o factor determinante da mudança, quer do ser humano, quer das sociedades do futuro próximo.

É inevitável que haja em breve mudanças radicais no Planeta. Já se fizeram sentir durante o Inverno que acaba. Talvez nos espere agora um Verão demasiado quente. Como o ser humano não quer mudar, a Natureza vai obriga-lo a essa mudança. A uma adaptação a novas condições, que poderão ser mais radicais e próximas do que o previsto.

Os ciclos sucedem-se. Voltamos de novo ao Tempo da Grande Mãe, à era em que a humanidade vai reencontrar a divindade em si. Não é amanhã. Está a ser. Agora. Vamos ser todos profundamente sacudidos e perceber quão frágil é o modelo em que vivemos, aquilo que somos humanamente e o que projectamos no futuro.

Vamos aprender a humildade e a beleza de viver no Agora, porque só o Agora existe. E vamos de novo reaprender uma nova forma de Ser e estar no Tempo da Grande Mãe.



domingo, 1 de dezembro de 2013

O Jardim das Hespérides


'O jardim das Hespérides' 1892, de Frederic Leighton

OS POMOS DE OURO DO CONHECIMENTO


A visão dos Pomos de Ouro aconteceu, pela primeira vez, na Ericeira, a meio da tarde, quando lia, sentada num dos cadeirões do jardim. A tarde estava amena e eu tinha por hábito ler e parar frequentemente a leitura, descansando os olhos nas árvores do jardim da vizinha. Sei que vivia um momento de paz, dos muitos que me foram dados viver naquele espaço.

Nessa tarde, algo de diferente aconteceu. Parei de ler, fechei os olhos durante momentos e, quando os abri, tinha na minha frente o Jardim das Hespérides, com as árvores carregadas de pomos de oiro. Eu diria que eram laranjas, embora haja uma tradição que diz que são maçãs os pomos do conhecimento.

Estava tudo tão calmo, que o Jardim das Hespérides, que eu via à minha volta, podia ser realmente ali. Fiquei a olhá-lo sem pensamentos, envolvida numa atmosfera mágica.

 Momentos depois a luz dourada começou a dissipar-se, as árvores dos pomos de oiro começaram a desaparecer e eu fiquei, de novo, no lugar de sempre, de livro na mão, a ver as árvores da vizinha, mas com o espírito no lugar mágico que acabara de divisar.

Dias depois, já na minha casa de Lisboa, ao acordar, voltei a ver o Jardim das Hespérides no tecto do meu quarto mas, para meu espanto, as árvores já não tinham fruto. Que acontecera? Como era possível que os pomos do conhecimento tivessem desaparecido?

Passadas semanas encontrei-me com um amigo, com um grande saber de coisas esotéricas, que eu não tinha, nem tenho, e contei-lhe o que me fora dado ver. Quando lhe falei das árvores sem fruto, tive uma resposta surpreendente: «Foi o meu grupo que colheu os frutos. Vêm aí tempos muito complicados e o meu grupo colheu-os para os voltar a distribuir depois de tudo se apaziguar.»

Bem, ele não me respondeu por estas palavras, mas na essência a mensagem foi esta. Fiquei tão admirada e chocada, porque não dizê-lo, que acho que este incidente marcou o início do nosso afastamento. Dias depois deste encontro, ao acordar na minha cama de Lisboa, vi um pomo de oiro a ser atirado pelo tecto do meu quarto, como se fosse para eu apanhar, o que me recusei a fazer. E vi que esse fruto tinha um lado de onde saía uma espuma, podre, como eventualmente estariam já então todos os outros frutos, colhidos abusivamente da Árvore do Conhecimento.

Creio que quem vem ler esta página, sabe deste tema tanto ou mais do que eu. No entanto, fui à Wikipédia e copiei o texto que sucintamente narra a tradição dos pomos de ouro, oferecidos à deusa Hera, por Gaia (a Terra), como presente de casamento:

«A Deusa Hera recebera de Gaia lindas maçãs (pomos) de ouro como presente de seu casamento com Zeus e mandou plantá-las em seu longínquo jardim, no extremo Ocidente. Ela deu às Hespérides, ninfas do entardecer e filhas de Atlas, a função de proteger este jardim. Quando as ninfas começaram a usar os frutos de ouro para próprio benefício, Hera teve de procurar um guardião mais confiável. Assim Ladão, o dragão, com um corpo de serpente e cem cabeças, passou a proteger o jardim.»

Coube a Hércules (nos «Doze Trabalhos de Hércules») a incumbência de trazer a Heristeu alguns desses pomos de ouro mas, para o conseguir, teve de recorrer à ajuda das Hespérides. Isto é: o homem não tem acesso directo aos pomos de ouro, o fruto do conhecimento. Só pode obter esse fruto (colhê-lo) através da mulher. Este é o drama essencial da civilização masculina, que só pode instalar-se e prevalecer através da submissão da mulher. Mesmo actualmente, para colher os frutos do conhecimento, o homem tem de se ligar à mulher e obtê-los através dela. E essa é uma das facetas da beleza da Vida, embora tenha sido muito mal utilizada nos últimos milénios. Mas isso fez e faz parte da caminhada de aperfeiçoamento do casal humano. É por isso que isto não pode ser lido em termos de superioridade ou inferioridade de um ou de outro sexo. Trata-se da sabedoria da criação. Se fosse dado o poder absoluto ao sexo masculino, a Terra voltaria a ser de novo árida. E esse é um dos riscos que a humanidade corre na actualidade, pela prevalência do Poder Masculino, ainda que o poder possa estar, em certos casos, a ser exercido pela Mulher. E isto verifica-se porque o modelo, a matriz do exercício do Poder que a mulher está a receber continua a ser masculina. O que me leva a dizer que a mulher tem de readquirir a sabedoria da Mãe para gerar um novo equilíbrio no Planeta.

Nesta época de mudança cósmica, o meu ponto de partida é que nenhum dos sexos tem hoje a verdade absoluta (se alguma vez teve!) e que cada um daqueles que busca a verdade raramente vai além da via das aproximações. Aliás, creio que deambulamos todos, hoje, por esse espaço, o que não deixa de ser um dos encantos da vida.


E, já agora, admito que haja já um Novo Conhecimento a descer sobre nós e será com ele que vamos iniciar o Novo Ciclo…


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COMO SE CHEGA AO CONHECIMENTO?


Como se chega ao Conhecimento? Pela transmissão directa? Pela informação espalhada em livros? Pela descoberta interior? Pela «escola nocturna»?

Creio que não há um caminho único. Admito que se aprende a caminhar,  caminhando. Que a informação chega de variadas formas quando o discípulo está pronto, não antes. Muitas vezes, de repente, sabe-se algo que não se aprendeu, ou sabe-se porque um anjo nos disse, como gosto de dizer.

O conhecimento obtido através dos livros tem a sua utilidade, mas somente quando a pessoa sabe sabendo, seja lá como for que aí se chega, é que o conhecimento é verdadeiramente válido. Isto é: operante.

E é o conhecimento uma coisa assim tão importante? Para mim, o mais importante é o trabalho interior que a pessoa vai fazendo ao longo da vida, através das escolhas certas ou das erradas e, muitas vezes, aprende-se mais com as escolhas erradas, que fazem sofrer, do que com as escolhas certas. E mais vale errar do que não fazer nada para não errar.

Aliás, ter acumulado muita informação não significa que se tenha chegado ao Conhecimento, ao Saber Sabendo, a que se chega quando, finalmente, acolhemos no coração fogo solar e a nossa cabeça, e o nosso corpo, se abrem à energia cósmica.

'O jardim das Hespérides' 1894, Ricciardo Meacci


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O CONHECIMENTO ESTÁ AÍ

Cada um de nós tem, dentro de si, todo o Conhecimento que há a saber. Pode ser que os livros ajudem, mas também podem baralhar. Há uma frase muito simples e verdadeira: o Caminho faz-se caminhando. Mas as pessoas andam tão entretidas em acumular coisas que se perdem muitas vezes no provisório, esquecendo o essencial. Mas isto são verdades à Monsieur de La Palisse.

O segredo é Amar. Ou mais do que Amar, ser Amor.







sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Um Povo Acossado




BRANDOS COSTUMES EM RISCO?


Frente à televisão, a assistir à retransmissão de um programa semanal de debate, encontrei-me, de repente, a repetir uma frase de Camões: «Amo tanto a minha Pátria que não me contento em morrer nela, mas com ela!»

 Foi aí que me zanguei comigo própria e me decidi vir sentar-me ao computador e retomar esta conversa. Não! Vou morrer, sim, qualquer dia, como toda a gente, mas não calada, não sem luta, não de braços cruzados a assistir à destruição estrutural deste País, por um grupo que ganhou eleições com falinhas mansas e falsas promessas. Por um Partido Político que atraiçoa a sua raiz social democrata e está a vender o País ao desbarato, a destruir as traves mestras de uma sociedade que se pretendeu tanto quanto possível igualitária e onde um Governo, que não foi mandatado para tal, está a fragilizar os pilares da nossa economia, indo sempre além do que é estritamente necessário. E, ao mesmo tempo que ataca os mais fracos e cava o fosso da pobreza, faz subir a lista dos milionários!

Cada um de nós só vê o que quer ver, não é? Será que o Governo ainda não se deu conta de que está a pisar um terreno minado, prestes a explodir? Não vê que os nossos brandos costumes não são o que para aí se diz, num contexto de memória curta?! Há os defenestrados e os atentados, na nossa história antiga e na memória recente. Há, sim, o Povo na rua, pacificamente, como tem sido até agora, mas também tem havido o Povo em fúria, até com Marias da Fonte… E quando uma mãe não tem o que dar a comer a um filho, que se pode esperar? Só a pobreza envergonhada? Os Polícias subiram as escadas do Parlamento, mas voltaram para trás. Voltarão para trás da próxima vez? E, como é? O Governo vai agora a correr devolver-lhes o subsídio para a farda e aumentar-lhes o vencimento? É que, se não vai, que confiança pode o Primeiro Ministro ter naqueles que guardam a sua porta, o seu carro, os seus filhos? Não tem lido nas notícias o que o desespero de alguns pode fazer? E os outros, todos os outros, que chegam a meio do mês sem dinheiro, vão continuar calados? E será que é absolutamente necessário ir tão longe na austeridade quanto está a ir? O Povo sabe que não. Também sabe que está a vender ao desbarato pilares essenciais da nossa estrutura social, como os Correios, por exemplo, deixando populações rurais sem o meio próximo de contactar com o mundo, sem o telefone, por exemplo, para chamar uma ambulância…

Quão longe está tudo isto da Alma de Portugal!

Espero que os governantes dêem um passo atrás, enquanto é tempo, antes que a caldeira acabe por explodir!


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O TEMPO DO CAIR DAS MÁSCARAS


 Este é o tempo de cair das máscaras. Não sei se a frase é do Snowden, mas creio que sim. É um tempo novo este em que vivemos, em que a verdade não se manterá por muito tempo escondida. Um tempo em que a informação corre o Planeta com a rapidez do relâmpago.
 Querer manter as mesmas regras na política, querer manipular os outros povos, como antigamente se poderia fazer, por eles não terem acesso à informação, é pouco inteligente e descabido. Como é descabido e estúpido querer entre nós manipular o Tribunal Constitucional. O «Diário Económico» diz que tem sido uma vergonha. E tem. Tem sido um espectáculo degradante.

 Aconselho as pessoas a estarem atentas à tonalidade das vozes que ouvem. Nelas vibra o diapasão da raiva. Talvez esteja ainda em surdina, contida. «A raiva é a saliva de alma», ouvi hoje ao sociólogo Boaventura Sousa Santos, ao fazer a minha busca matinal na Internet. Durante uma entrevista, muito interessante, o sociólogo afirmou que o rap é como o canto gregoriano, monótomo, mas muito rico nas suas palavras. E afirmaria algo, que me deixou a pensar: «A cultura ocidental, que nos trouxe atá aqui (…), não é capaz de captar a raiva que está nas vozes. Não está a ouvir…»  Registo esta afimação, embora fora do contexto, porque ilustra bem o que se está a passar entre nós. O Poder não está a ouvir o descontentamento, dia a dia mais intenso.

 Será que o vai deixar florir em cravos?



domingo, 10 de novembro de 2013

E Surge uma Nova Etapa…



A VIDA CONTINUA IGUAL E DIFERENTE


Mergulhei no silêncio há quase dois meses, sem vontade de continuar pelo caminho que estava a seguir. Não sei explicar exactamente a força que me fez parar. Sentia que tinha percorrido uma etapa. Estava feita, não valia a pena continuar a pisar os mesmos trilhos. Em resumo, era isso o que sentia, ainda que não quisesse ou soubesse formulá-lo claramente. Algo de novo teria de surgir em mim ou fora de mim, ainda que eu estivesse convicta de que dissera já o essencial da minha vivência que, de alguma forma, admitia, poderia ter sido útil a alguém. Mas estava feito.

A minha gata Xana morreu como eu já esperava e a irmã, a Becas, deixou de comer, emagreceu, e passou a dormir de manhã à noite, como se estivesse a fugir às saudades da irmã.

Sonhei então com uma gatinha branca, com manchas pretas. De manhã, decidi ir a uma loja de produtos para animais, que abrira há pouco tempo no bairro e que, segundo tinha ouvido na veterinária, tinha gatos para dar.

Ainda não tinha dito ao que ia e o dono da loja, que eu já conhecia, perguntou-me se eu não queria uma gatinha… Não esperou resposta. Foi buscá-la e trouxe-me a gata bebé com que eu sonhara, branca e preta, com a única diferença de ter uma manchinha negra no nariz.

Recuei um tanto assustada pela veracidade do meu sonho. Não chorei pela morte da minha Xana e ia chorar pela gatinha bebé que me traziam do sonho para a realidade. Admito que não tenham percebido a minha perturbação. Uma cliente disse qualquer coisa sobre a forma como a gatinha me olhou e que na minha memória ficou registado como se a gata bebé me tivesse adoptada ao primeiro olhar. Peguei nela e, sim, tinha-a aceite. Era o novo membro da família.

O meu neto apaixonou-se por ela e quer que lhe chame Luna. Tentei, mas a gata tornou-se tão irrequieta, que eu acho que é do nome. Ela vive consecutivamente no mesmo dia as diversas fases da lua e eu preferia uma gatinha mais calma. É por isso que ando a pensar chamar-lhe Nina, Nini, qualquer nome sem a deriva lunar no mesmo dia. Para já, Pequenina é o nome mais adequado, embora esteja a crescer aceleradamente.

 A Nina ou Luna, ainda não sei o nome que melhor se lhe adequa, está a destruir-me os cortinados e a correr com toda a alegria do mundo pela casa. E a comer vorazmente… Para já trouxe nova energia à Becas que, por vezes, corre com ela, por vezes lhe dá uma sapatada e se apressa a comer ao ritmo da nova companhia. Quer dizer, a minha Becas está a vencer as saudades da irmã e a retomar a alegria. Já as tenho encontrado no sofá a dormir juntas… E a vida continua.


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DEPOIS DA HISTÓRIA COM GATOS…


…Uma história com ratos ou a doença da solidão. Não torçam o nariz, com repugnância! É uma história que me foi contada pela Paz, a empregada que me faz a limpeza da casa, de voz embargada e lágrimas nos olhos, e que eu ouvi como uma extraordinária história de vida.

A Paz trabalha para vários membros da família e é a discrição em pessoa. Está estabelecido entre nós: eu não pergunto nada, ela não conta nada, mas naquela manhã, com lágrimas nos olhos, ela não conseguiu deixar de me contar.

A Paula, que é médica, contou-lhe a visita que fez a uma doente, uma velha com vários problemas. Durante a consulta reparou num rato que punha a cabeça de fora no lambril de uma das paredes. A doente, que se apercebeu que a médica vira, disse-lhe que muitas vezes de noite se levantava para dar de comer aqueles ratinhos e ficava a vê-los comer.

A Paula ficou compreensivelmente enojada. Relatou o caso no Centro de Saúde e conseguiu que mandassem alguém a casa da doente tapar o buraco na parede.

Quando voltou a visitar a doente, dias depois, esperava-a uma idosa muito zangada. Com que direito é que a doutora mandou tapar o buraco? Aqueles ratos eram a sua companhia. Levantava-se de noite para lhes dar de comer e eles vinham, andavam por ali, não tinham medo dela! Tudo isto entre lágrimas, raiva, dignidade ferida, solidão.

Não sei se a Paula chorou de dor pela solidão sem nome de um ser que confraternizava com ratos e a quem ela, na melhor das intenções, retirara a única companhia!
Quanta dor no mundo!...


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O ESPECTÁCULO DO MUNDO CONTINUA


Nada mudou. O espectáculo do mundo continua igual. O Snowden lá continua pela Rússia, os EUA também continuam a espiar com maior ou menor recato, mas sem vergonha nenhuma, e os outros países espiam o que podem à sua escala. Isto é, tudo continua irremediavelmente igual a si próprio num jogo em que um equilíbrio incerto se mantém. O que, para maior parte de nós, já é uma graça.

Regressei, mas não ainda em pleno. Neste interregno fiz a operação às cataratas. Correu tudo muito bem, mas interiormente ainda não me refiz. Apesar de ter descoberto que os meus quadros têm muito mais luz do que aquilo que eu via e isso foi um deslumbramento! A luminosidade é, para mim, que nada sei de pintura, algo mais extraordinário do que a técnica. Pela primeira vez Vi a luz dos meus quadros e fiquei tão contente como uma criança. Que afinal continuo a gostar de ser.

Como tenho andado na busca da Luz interior pouco tenho a dizer. Este é um período em que verdadeiramente só me interessa sentir. Talvez volte para a semana.









terça-feira, 17 de setembro de 2013

Histórias com Gatos




CABE-NOS REGENERAR O PLANETA


Falei de política a semana passada, mas há vida para além dos jogos de Poder nacionais e internacionais.  Somos inevitavelmente influenciados por esses jogos, mas cada um de nós tem ou deveria ter o seu próprio espaço, muito para lá do exterior que nos condiciona ou pretende condicionar. O espaço que inventamos e onde nos movemos. Um espaço de liberdade, íntimo, que criamos segundo a nossa disponibilidade interior e a nossa alma. Um espaço em que acolhemos os nossos afectos e onde recriamos histórias, que podem ser histórias com gente ou com animais.

Dei-me conta que estava a deixar que a política invadisse este espaço. Não é essa a minha intenção. Também cabe aqui, claro, mas é minha intenção privilegiar sempre as histórias de Vida. Que serão hoje histórias com gatos.

Entretanto, à nossa volta tudo se move, numa crescente incerteza, mas tudo, de uma forma ou de outra, acabará por se orientar no sentido certo. É só uma questão de tempo. Aliás, cada um de nós pode orientar o sentido da vida com a força da própria serenidade. Escolhendo ser parte da energia que regenera o Planeta.

E vamos lá então às histórias com gatos…


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O GATO QUE NÃO PERDOOU


Não sei como chegou lá a casa. Alguém o encontrou na rua, teve pena dele e, como há muito morrera o nosso gato, decidiu levá-lo para junto de nós. Era ainda muito pequeno, teria um mês de vida. Pouco mais. Sei que me apaixonei por ele e resolvi adoptá-lo. Arranjei-lhe caixote, passei a dar-lhe leite num pires e a escolher o que de mais tenrinho havia para que ele pudesse comer. E, sem que ninguém soubesse, passei a dormir com ele.

Foi um amor correspondido. Mais do que dona, rapidamente me tornei numa espécie de mãe. Ele era tão pequenino e tão frágil, que se aninhava na minha cama junto à minha mão esquerda. E o inesperado aconteceu: o gatinho começou a mamar na polpa do meu dedo indicador esquerdo. Tornara-me a sua segunda mãe.

Eu trabalhava então numa revista. Quando eu saía, o gatinho ficava junto à porta, à minha espera. Foi um idílio de meses, interrompido pela possibilidade de trabalhar num jornal diário, numa cidade longe da casa paterna.

Na balança da decisão, o gatinho teve pouco peso. Fui viver para essa outra cidade. De casa davam-me a notícia de que o gato não saía de junto à porta de entrada, à minha espera.
Esperou-me durante dois meses. Tinham de lhe levar a comida à porta. Uma dor de alma. 
Inesperadamente, um dia deixou de me ir esperar. Integrou-se na rotina da casa. Foi adoptado pela minha mãe.

Quando voltei à casa paterna, numa das festas natalícias, quis retomar a minha amizade com o gato, já então adulto. Mas ele mostrou-se indiferente. Não me reconheceu, porventura, ou quis mostrar-me o seu ressentimento, quem sabe? Passava por mim como se eu não existisse.

O mais certo foi não me ter perdoado eu ter-me ido embora…


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«NUNCA NINGUÉM GOSTOU TANTO DE MIM»…


Para introduzir a variedade na narrativa, vou relembrar o amor do Pepe. Pepe era o cão do meu filho mais velho. Embora eu tivesse tido relutância em o aceitar, o cão era-me extremamente dedicado. Seguia-me por todo o lado. Tinha por hábito deitar-se aos meus pés, quando eu me sentava num dos sofás da sala, a ver televisão.

Não haveria história se um dia uma amiga minha, também jornalista, me não  tivesse vindo visitar. Almoçámos juntas. Foi muito agradável, com o Pepe sempre muito próximo de nós.
Até que resolvemos ir à pastelaria tomar um café. Vestimos o casaco e preparávamo-nos para nos dirigirmos para a porta, quando a minha amiga reparou no cão e disse, sobressaltada:

-- Antónia, que é que o cão tem, está a tremer?! Estará doente?
 Sosseguei-a.
-Não. Quando percebe que vou à rua e não o vou levar, o Pepe fica sempre assim a tremer!
 A minha amiga proferiu então uma frase que, por mais anos que viva, nunca poderei esquecer:
-- Ah! Nunca ninguém gostou tanto de mim!...


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A REBELDE E DOCE MIMI


É uma história relevante, no princípio e no fim. Durou doze anos, a partir do dia em que a minha nora trouxe a minúscula gatinha do jardim da sua casa de férias..

O meu cão tinha morrido. Foi um desgosto e eu decidira não ter mais nenhum animal dentro de casa.  Quando a minha nora me telefonou a anunciar que me trouxera uma gatinha, a minha primeira reacção foi dizer-lhe muito obrigada, mas que não estava interessada.

À noite, o meu filho mais velho, a minha nora e os meus netos apareceram-me em casa com a minúscula gatinha. Era um encanto, mas obrigada, repeti, não quero ter cá em casa mais animais!

Insistiram. Se dentro de uma semana eu continuasse a não querer a gata, eles arranjavam-lhe outra dona. Deixei-a ficar, só para não ser indelicada. E porque era só mais uma semana!

Os dias foram passando e eu continuava firme na minha decisão. Não queria mais animais! E a gatinha corria como louca pela casa, sabendo porventura da minha recusa em a aceitar.
Passou a semana e o meu filho telefonou-me para saber da minha decisão. «Mas afinal por que é que não fica com a gata?» -- voltou ele a insistir. Sim, a gata andava pela casa numa correria, mas havia muito espaço, não me incomodava. Foi então que lhe disse que ia pensar.  
Apesar das correrias a gatinha era asseada e já se tornara uma presença. Afinal, por que não havia de ficar com ela? À noite telefonei-lhe a comunicar a minha decisão. «Pronto, fico com a Mimi!» Até já lhe tinha dado um nome.

O extraordinário é que, nessa noite, a gata deixou de correr pela casa. E, pela primeira vez, e sem eu a chamar, veio sentar-se no meu colo. Tinhamo-nos mutuamente adoptado. E foram doze anos de um mútuo amor.


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A ALMA GRUPAL DOS GATOS


A Mimi surgiu na minha vida numa altura em que comecei a desenvolver uma forte reacção alérgica ao tabaco. Eu não fumava. Mas numa redacção onde quase toda a gente fumava e onde às 17 horas havia no ar uma espessa nuvem de fumo, eu tossia continuamente. Face ao meu caso, um conceituado especialista de doenças pulmonares receitara-me como tratamento: «Compre uma bicicleta e vá para a beira-mar.»
Não comprei uma bicicleta, mas aluguei uma pequena casa à beira-mar.

O primeiro dia na casa da Ericeira ficou indelevelmente marcado na minha memória. Já a tinha mobilado. A casa era modesta, mas tinha um quê, e via-se o mar da janela do quarto. Estava ansiosa por estrear a casa, mas ainda não tinha luz, só na segunda-feira a iriam ligar.

Não quis perder o primeiro fim-de-semana junto ao mar. Tinha um candeeiro e muitas velas. Peguei na Mimi e lá fomos nós estrear a casa. Abri o portão, meti o carro dentro do espaço que poderia tornar-se um jardim. Tinha fechado a Mimi dentro de casa, mas depois  de ter arrumado o carro, abri a porta e… a mimi fugiu. Percebem? A Mimi tão pequenina desaparece no grande espaço ao lado e por detrás da casa!...

Já tinha escurecido. Havia uma lâmpada de rua mesmo à porta, que alumiava o espaço, mas se a gata, tão pequena, passasse pela parte debaixo do portão e fosse para a estrada? Tão pequenina… Bem, esta era a minha aflição.  Ainda a fui procurar no terreno atrás, mas não a encontrei.

 Voltei para casa e então tive uma ideia: e se eu pedisse à Alma Grupal dos gatos que ensinasse o caminho de volta à gatinha? Foi uma ideia ingénua, concordo, mas tão inocente!  Não podiam deixar de ouvir-me…
Ouviram! À porta um gato miava. Abri a porta. «Mimi,voltaste…» Foi então que senti um dos grandes sustos da minha vida. À porta estava um gato, sim, mas do tamanho de um cão, com o rabo muito esticado para o ar.

Tive medo, sim. Fechei a porta, sem reflectir, com força. E agora? Aquele gato paranormal iria ficar à minha porta? Com a casa alumiada com velas, senti-me mesmo só e sem defesas.
Depois acalmei. A minha intenção fora pura, o que eu tinha invocado foi para proteger a gatinha, não sabia que estava a fazer mal… Sempre tive a certeza que a intenção pura, mesmo que não seja absolutamente correcta, não pode desencadear o mal. E esta certeza fez-me sentir protegida perante o invisível.

Quando, um quarto de hora depois, ouvi a gatinha a miar à porta, abri sem hesitação nem medo. Era mesmo a Mimi que estava à porta. Entrou e nunca se perdeu nos doze anos de amor perfeito que vivemos juntas.


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UM FUMO BRANCO EVOLOU-SE DA MIMI

Comecei por passar todos os fins de semana na Casa da Ericeira. Chamo-lhe assim, mas a casa não ficava propriamente na Ericeira, mas nas proximidades. Ali também havia cafés, esplanada sobre o mar, mas sem a barafunda da Ericeira. Agora é um espaço que está menos resguardado, por causa dos surfistas.

Entretanto, a minha saúde piorou e o médico aconselhou que me afastasse da Redacção. Aliás, a tempo, porque começaram a surgir outros problemas  de saúde, ainda mais graves do que o meu, entre colegas meus. Entretanto, o cigarro foi proibido na Redacção.

Os anos passaram. Um dia, a Mimi ficou doente. Levei-a à veterinária. Era algo grave, a necessitar de uma operação urgente, mas sem qualquer garantia de sobrevivência.

Disse que ia pensar. E pensei que não ia prolongar o sofrimento da gata, que até já tinha deixado de comer. E então resolvi levá-la para a casa da Ericeira, onde ela tinha um jardim e espaço e podia viver os últimos dias entre as flores.

Como ela não queria comer comprei, na farmácia, uma bisnaga com um alimento completo, que lhe punha várias vezes ao dia na boca e ela lambia. E passamos assim mais de uma semana, perto do mar, à espera que chegasse a sua hora, mas a gata não melhorava, mas também não partia.

Eu tinha um compromisso dois dias depois em Lisboa. E, por ridículo que pareça, eu contei alto, à Mimi, que ia ter que regressar a Lisboa, onde ela ficava confinada à casa e à varanda, mas não podia deixar de ser. Mas voltava no fim de semana…

No dia seguinte de manhã, como sempre, a Mimi foi para o seu ligar habitual no jardim, debaixo de um arbusto. Levei-lhe água e pus-lhe a comida na boca, como se tornara habitual.

Às seis da tarde, a Mimi regressou voluntariamente a casa. Chegou à sala e saltou para a cadeira de verga, junto à janela, mas miou de dor e desceu a seguir. Foi então que peguei numa toalha que estendi no sofá. Peguei na Mimi que coloquei, deitada, no sofá. E, nesse preciso momento, a Mimi teve uma convulsão, estendeu as patas e morreu.
Fiquei a olhá-la. Então vi soltar-se do seu corpo uma espécie de fumo branco, que subiu lentamente no ar e que eu pensei ser a sua força vital, a sua alma, que partia para se reunir à alma grupal dos gatos.

Foi precisamente neste momento que entrou na sala a gata Becas, de quem ainda não falei, e que olhou inquieta para todos os lados, Não viu nada porque, entretanto, eu tinha tapado a Mimi com parte da toalha. Mas ela soube que algo tinha acontecido.

Telefonei depois ao jardineiro que, na manhã seguinte, pelas sete horas, foi abrir uma cova para a enterrar. O local ficou assinalado por um grande pedregulho, a uns dez metros da janela da cozinha.

Pelo tempo que ainda lá fiquei, e foram anos, pude sempre olhar aquele pedregulho sabendo que era ali que ela estava sepultada.  A minha tão doce Mimi, que sempre foi bravia para a maior parte das pessoas.


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COMO A BECAS ENTROU NA MINHA VIDA


Nos 14 ou 15 anos que mantive a casa da Ericeira, foi sempre no mesmo local, mas não na mesma construção. A certa altura vagou uma vivenda e eu mudei-me para lá. Tinha mais espaço, uma zona onde poderia apanhar sol, sem ficar muito exposta aos olhares.

A casa era maior e tinha um jardim à frente da casa. Nas traseiras havia espaço para a mesa, cadeirões, etc e privacidade. Com mais espaço passei a ser mais assediada por gatos.

Apareceu no jardim uma gata prenha e eu passei a dar-lhe de comer uma vez ao dia, mas fora de casa. Depois de ter a ninhada e, como se sentia protegida, levou-a para o meu jardim, resguardada sob um arbusto.

Foi então que descobri que ela tinha abandonado um gato, no local onde teve os filhos, por ele ter os olhos quase colados. Pressenti perfeitamente que ela estava a sacrificar um para defender a ninhada.

Lavei os olhos da gatinha, que era porventura a mais bonita da ninhada. Fui à farmácia e comprei o medicamento aconselhado pelo farmacêutico. Tratei-lhe dos olhos, até ficarem bons. Quando isso aconteceu fui pô-la na ninhada. A mãe aceitou-a e tudo pareceu entrar na normalidade. Eu continuava com a minha Mimi. Havia uma ninhada de gatos no quintal, mas isso não era responsabilidade minha.

Uma tarde, já perto da hora do jantar, ouço miar à porta. Era a gata, mãe da ninhada, com um gatinho preto, com manchas brancas no peito e nas patas. Uma gata não fala, mas eu entendi. Ela vinha oferecer-me aquele gatinho que, soube então, era também uma gata. Achei isto tão extraordinário que deixei a gatinha preta entrar e a mãe foi-se embora, como se tivesse cumprido a sua missão e fosse ali apenas para me entregar a filha.

Tentei arranjar cama para a gatinha, mas desaparecera, não a encontrei. No dia seguinte de manhã, finalmente apareceu. Apareceu e fez xixi no chão da cozinha e é por isso que conto esta história.

Chamei a gata mãe e mostrei-lhe o xixi. Disse-lhe que não podia ficar-lhe com a filha porque ela não sabia ir ao caixote. O espanto de tudo isto é que a gata percebeu o que eu estava a dizer. Virou-se para a parede, que fitou talvez durante dez minutos, como se estivesse a fazer algo para lá do meu discernimento. E eu ali, quieta, espantada, a tentar perceber. Depois olhou para mim, com intensidade, e foi-se embora. O que foi que ela me quis dizer? No dia seguinte percebi. A gata esteve a ensinar mentalmente a gatinha que me  tinha oferecido e que nunca, nunca mais, fez xixi fora do caixote! Também percebi que aquela gatinha era especial, Eu diria que era, é, um animal de poder. Com uma grande personalidade. Acho que ela me guarda. Ou sou eu a imaginar…

Isto que aconteceu com a gata preta é mais uma demonstração da existência de uma consciência superior animal e de que tudo o que nos rodeia é consciente e mágico. Nós é que andamos distraídos e somos uns grandes convencidos da nossa superioridade.

Sabem por que conto tudo isto? Porque a irmã da minha gata pretinha, a quem chamei Becas, aquela muito linda, a quem curei os olhos, está neste momento a tentar sobreviver na minha varanda.

Há uma semana que está doente e os antibióticos não estão a fazer efeito. A eventualidade de ter de a mandar abater causa-me uma grande dor! Quinta-feira vou ouvir o veredicto da veterinária. Não imaginam a lição de ternura, solidariedade, humanidade, sim, que tenho recebido destas duas gatinhas. Duas gatinhas que têm sido muito amadas por toda a minha família.

Xana é o nome da gata que está a morrer e espanta as veterinárias pela sua doçura. É tão doce que a maior parte das vezes lhe chamo Xaninha!


Este texto surgiu em homenagem à Xana, esperando que ainda possa reagir. O certo é que jamais a esquecerei.