CABE-NOS REGENERAR O PLANETA
Falei de política a semana passada, mas há vida para além
dos jogos de Poder nacionais e internacionais.
Somos inevitavelmente influenciados por esses jogos, mas cada um de nós
tem ou deveria ter o seu próprio espaço, muito para lá do exterior que nos
condiciona ou pretende condicionar. O espaço que inventamos e onde nos movemos.
Um espaço de liberdade, íntimo, que criamos segundo a nossa disponibilidade
interior e a nossa alma. Um espaço em que acolhemos os nossos afectos e onde recriamos
histórias, que podem ser histórias com gente ou com animais.
Dei-me conta que estava a deixar que a política invadisse
este espaço. Não é essa a minha intenção. Também cabe aqui, claro, mas é minha
intenção privilegiar sempre as histórias de Vida. Que serão hoje histórias com
gatos.
Entretanto, à nossa volta tudo se move, numa crescente
incerteza, mas tudo, de uma forma ou de outra, acabará por se orientar no
sentido certo. É só uma questão de tempo. Aliás, cada um de nós pode orientar o
sentido da vida com a força da própria serenidade. Escolhendo ser parte da
energia que regenera o Planeta.
E vamos lá então às histórias com gatos…
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O GATO QUE
NÃO PERDOOU
Não sei como chegou lá a casa. Alguém o encontrou na rua,
teve pena dele e, como há muito morrera o nosso gato, decidiu levá-lo para
junto de nós. Era ainda muito pequeno, teria um mês de vida. Pouco mais. Sei
que me apaixonei por ele e resolvi adoptá-lo. Arranjei-lhe caixote, passei a
dar-lhe leite num pires e a escolher o que de mais tenrinho havia para que ele
pudesse comer. E, sem que ninguém soubesse, passei a dormir com ele.
Foi um amor correspondido. Mais do que dona, rapidamente
me tornei numa espécie de mãe. Ele era tão pequenino e tão frágil, que se
aninhava na minha cama junto à minha mão esquerda. E o inesperado aconteceu: o
gatinho começou a mamar na polpa do meu dedo indicador esquerdo. Tornara-me a
sua segunda mãe.
Eu trabalhava então numa revista. Quando eu saía, o
gatinho ficava junto à porta, à minha espera. Foi um idílio de meses,
interrompido pela possibilidade de trabalhar num jornal diário, numa cidade
longe da casa paterna.
Na balança da decisão, o gatinho teve pouco peso. Fui
viver para essa outra cidade. De casa davam-me a notícia de que o gato não saía
de junto à porta de entrada, à minha espera.
Esperou-me durante dois meses.
Tinham de lhe levar a comida à porta. Uma dor de alma.
Inesperadamente, um dia
deixou de me ir esperar. Integrou-se na rotina da casa. Foi adoptado pela minha
mãe.
Quando voltei à casa paterna, numa das festas natalícias,
quis retomar a minha amizade com o gato, já então adulto. Mas ele mostrou-se
indiferente. Não me reconheceu, porventura, ou quis mostrar-me o seu
ressentimento, quem sabe? Passava por mim como se eu não existisse.
O mais certo foi não me ter perdoado eu ter-me ido
embora…
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«NUNCA
NINGUÉM GOSTOU TANTO DE MIM»…
Para introduzir a variedade na narrativa, vou relembrar o
amor do Pepe. Pepe era o cão do meu filho mais velho. Embora eu tivesse tido
relutância em o aceitar, o cão era-me extremamente dedicado. Seguia-me por todo
o lado. Tinha por hábito deitar-se aos meus pés, quando eu me sentava num dos
sofás da sala, a ver televisão.
Não haveria história se um dia uma amiga minha, também
jornalista, me não tivesse vindo
visitar. Almoçámos juntas. Foi muito agradável, com o Pepe sempre muito próximo de
nós.
Até que resolvemos ir à pastelaria tomar um café. Vestimos o casaco e
preparávamo-nos para nos dirigirmos para a porta, quando a minha amiga reparou
no cão e disse, sobressaltada:
-- Antónia, que é que o cão tem, está a tremer?! Estará
doente?
Sosseguei-a.
-Não. Quando percebe que vou à rua e não o vou levar, o Pepe
fica sempre assim a tremer!
A minha amiga
proferiu então uma frase que, por mais anos que viva, nunca poderei esquecer:
-- Ah! Nunca ninguém gostou tanto de mim!...
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A REBELDE E DOCE MIMI
É uma história relevante, no princípio e no fim. Durou
doze anos, a partir do dia em que a minha nora trouxe a minúscula gatinha do
jardim da sua casa de férias..
O meu cão tinha morrido. Foi um desgosto e eu decidira
não ter mais nenhum animal dentro de casa.
Quando a minha nora me telefonou a anunciar que me trouxera uma gatinha,
a minha primeira reacção foi dizer-lhe muito obrigada, mas que não estava
interessada.
À noite, o meu filho mais velho, a minha nora e os meus
netos apareceram-me em casa com a minúscula gatinha. Era um encanto, mas
obrigada, repeti, não quero ter cá em casa mais animais!
Insistiram. Se dentro de uma semana eu continuasse a não
querer a gata, eles arranjavam-lhe outra dona. Deixei-a ficar, só para não ser
indelicada. E porque era só mais uma semana!
Os dias foram passando e eu continuava firme na minha
decisão. Não queria mais animais! E a gatinha corria como louca pela casa,
sabendo porventura da minha recusa em a aceitar.
Passou a semana e o meu filho telefonou-me para saber da
minha decisão. «Mas afinal por que é que não fica com a gata?» -- voltou ele a
insistir. Sim, a gata andava pela casa numa correria, mas havia muito espaço, não
me incomodava. Foi então que lhe disse que ia pensar.
Apesar das correrias a gatinha era asseada e já se
tornara uma presença. Afinal, por que não havia de ficar com ela? À noite
telefonei-lhe a comunicar a minha decisão. «Pronto, fico com a Mimi!» Até já
lhe tinha dado um nome.
O extraordinário é que, nessa noite, a gata deixou de
correr pela casa. E, pela primeira vez, e sem eu a chamar, veio sentar-se no
meu colo. Tinhamo-nos mutuamente adoptado. E foram doze anos de um mútuo amor.
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A ALMA GRUPAL
DOS GATOS
A Mimi surgiu na minha vida numa altura em que comecei a desenvolver
uma forte reacção alérgica ao tabaco. Eu não fumava. Mas numa redacção onde
quase toda a gente fumava e onde às 17 horas havia no ar uma espessa nuvem de
fumo, eu tossia continuamente. Face ao meu caso, um conceituado especialista de
doenças pulmonares receitara-me como tratamento: «Compre uma bicicleta e vá
para a beira-mar.»
Não comprei uma bicicleta, mas aluguei uma pequena casa à
beira-mar.
O primeiro dia na casa da Ericeira ficou indelevelmente
marcado na minha memória. Já a tinha mobilado. A casa era modesta, mas tinha um
quê, e via-se o mar da janela do quarto. Estava ansiosa por estrear a casa, mas
ainda não tinha luz, só na segunda-feira a iriam ligar.
Não quis perder o
primeiro fim-de-semana junto ao mar. Tinha um candeeiro e muitas velas. Peguei
na Mimi e lá fomos nós estrear a casa. Abri o portão, meti o carro dentro do
espaço que poderia tornar-se um jardim. Tinha fechado a Mimi dentro de casa,
mas depois de ter arrumado o carro, abri
a porta e… a mimi fugiu. Percebem? A Mimi tão pequenina desaparece no grande
espaço ao lado e por detrás da casa!...
Já tinha escurecido. Havia uma lâmpada de rua mesmo à
porta, que alumiava o espaço, mas se a gata, tão pequena, passasse pela parte
debaixo do portão e fosse para a estrada? Tão pequenina… Bem, esta era a minha
aflição. Ainda a fui procurar no terreno
atrás, mas não a encontrei.
Voltei para casa
e então tive uma ideia: e se eu pedisse à Alma Grupal dos gatos que ensinasse o
caminho de volta à gatinha? Foi uma ideia ingénua, concordo, mas tão
inocente! Não podiam deixar de ouvir-me…
Ouviram! À porta um gato miava. Abri a porta.
«Mimi,voltaste…» Foi então que senti um dos grandes sustos da minha vida. À
porta estava um gato, sim, mas do tamanho de um cão, com o rabo muito esticado
para o ar.
Tive medo, sim. Fechei a porta, sem reflectir, com força.
E agora? Aquele gato paranormal iria ficar à minha porta? Com a casa alumiada
com velas, senti-me mesmo só e sem defesas.
Depois acalmei. A minha intenção fora pura, o que eu
tinha invocado foi para proteger a gatinha, não sabia que estava a fazer mal…
Sempre tive a certeza que a intenção pura, mesmo que não seja absolutamente
correcta, não pode desencadear o mal. E esta certeza fez-me sentir protegida
perante o invisível.
Quando, um quarto de hora depois, ouvi a gatinha a miar à
porta, abri sem hesitação nem medo. Era mesmo a Mimi que estava à porta. Entrou
e nunca se perdeu nos doze anos de amor
perfeito que vivemos juntas.
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UM
FUMO BRANCO EVOLOU-SE DA MIMI
Comecei por passar todos os fins de semana na Casa da
Ericeira. Chamo-lhe assim, mas a casa não ficava propriamente na Ericeira, mas
nas proximidades. Ali também havia cafés, esplanada sobre o mar, mas sem a
barafunda da Ericeira. Agora é um espaço que está menos resguardado, por causa
dos surfistas.
Entretanto, a minha saúde piorou e o médico aconselhou que me afastasse da Redacção. Aliás, a tempo,
porque começaram a surgir outros problemas de saúde, ainda mais graves do que o meu, entre colegas meus. Entretanto, o cigarro foi proibido na Redacção.
Os anos passaram. Um dia, a Mimi ficou doente. Levei-a à
veterinária. Era algo grave, a necessitar de uma operação urgente, mas sem
qualquer garantia de sobrevivência.
Disse que ia pensar. E pensei que não ia prolongar o sofrimento da gata, que até já
tinha deixado de comer. E então resolvi levá-la para a casa da Ericeira, onde
ela tinha um jardim e espaço e podia viver os últimos dias entre as flores.
Como ela não queria comer comprei, na farmácia, uma bisnaga
com um alimento completo, que lhe punha várias vezes ao dia na boca e ela
lambia. E passamos assim mais de uma semana, perto do mar, à espera que
chegasse a sua hora, mas a gata não melhorava, mas também não partia.
Eu tinha um compromisso dois dias depois em Lisboa. E,
por ridículo que pareça, eu contei alto, à Mimi, que ia ter que regressar a
Lisboa, onde ela ficava confinada à casa e à varanda, mas não podia deixar de
ser. Mas voltava no fim de semana…
No dia seguinte de manhã, como sempre, a Mimi foi para o
seu ligar habitual no jardim, debaixo de um arbusto. Levei-lhe água e pus-lhe a
comida na boca, como se tornara habitual.
Às seis da tarde, a Mimi regressou voluntariamente a
casa. Chegou à sala e saltou para a cadeira de verga, junto à janela, mas miou
de dor e desceu a seguir. Foi então que peguei numa toalha que estendi no sofá.
Peguei na Mimi que coloquei, deitada, no sofá. E, nesse preciso momento, a Mimi
teve uma convulsão, estendeu as patas e morreu.
Fiquei a olhá-la. Então vi soltar-se do seu corpo uma
espécie de fumo branco, que subiu lentamente no ar e que eu pensei ser a sua
força vital, a sua alma, que partia para se reunir à alma grupal dos gatos.
Foi precisamente neste momento que entrou na sala a gata
Becas, de quem ainda não falei, e que olhou inquieta para todos os lados, Não
viu nada porque, entretanto, eu tinha tapado a Mimi com parte da toalha. Mas
ela soube que algo tinha acontecido.
Telefonei depois ao jardineiro que, na manhã seguinte,
pelas sete horas, foi abrir uma cova para a enterrar. O local ficou assinalado
por um grande pedregulho, a uns dez metros da janela da cozinha.
Pelo tempo que ainda lá fiquei, e foram anos, pude sempre
olhar aquele pedregulho sabendo que era ali que ela estava sepultada. A minha tão doce Mimi, que sempre foi bravia
para a maior parte das pessoas.
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COMO A BECAS ENTROU NA MINHA VIDA
Nos 14 ou 15 anos que mantive a casa da Ericeira, foi sempre
no mesmo local, mas não na mesma construção. A certa altura vagou uma vivenda e
eu mudei-me para lá. Tinha mais espaço, uma zona onde poderia apanhar sol, sem
ficar muito exposta aos olhares.
A casa era maior e tinha um jardim à frente da casa. Nas
traseiras havia espaço para a mesa, cadeirões, etc e privacidade. Com mais
espaço passei a ser mais assediada por gatos.
Apareceu no jardim uma gata
prenha e eu passei a dar-lhe de comer uma vez ao dia, mas fora de casa. Depois de
ter a ninhada e, como se sentia protegida, levou-a para o meu jardim,
resguardada sob um arbusto.
Foi então que descobri que ela tinha abandonado um gato,
no local onde teve os filhos, por ele ter os olhos quase colados. Pressenti
perfeitamente que ela estava a sacrificar um para defender a ninhada.
Lavei os olhos da gatinha, que era porventura a mais
bonita da ninhada. Fui à farmácia e comprei o medicamento aconselhado pelo
farmacêutico. Tratei-lhe dos olhos, até ficarem bons. Quando isso aconteceu fui
pô-la na ninhada. A mãe aceitou-a e tudo pareceu entrar na normalidade. Eu
continuava com a minha Mimi. Havia uma ninhada de gatos no quintal, mas isso
não era responsabilidade minha.
Uma tarde, já perto da hora do jantar, ouço miar à porta.
Era a gata, mãe da ninhada, com um gatinho preto, com manchas brancas no peito
e nas patas. Uma gata não fala, mas eu entendi. Ela vinha oferecer-me aquele
gatinho que, soube então, era também uma gata. Achei isto tão extraordinário
que deixei a gatinha preta entrar e a mãe foi-se embora, como se tivesse
cumprido a sua missão e fosse ali apenas para me entregar a filha.
Tentei arranjar cama para a gatinha, mas desaparecera,
não a encontrei. No dia seguinte de manhã, finalmente apareceu. Apareceu e fez
xixi no chão da cozinha e é por isso que conto esta história.
Chamei a gata mãe e mostrei-lhe o xixi. Disse-lhe que não
podia ficar-lhe com a filha porque ela não sabia ir ao caixote. O espanto de
tudo isto é que a gata percebeu o que eu estava a dizer. Virou-se para a
parede, que fitou talvez durante dez minutos, como se estivesse a fazer algo
para lá do meu discernimento. E eu ali, quieta, espantada, a tentar perceber.
Depois olhou para mim, com intensidade, e foi-se embora. O que foi que ela me
quis dizer? No dia seguinte percebi. A gata esteve a ensinar mentalmente a
gatinha que me tinha oferecido e que
nunca, nunca mais, fez xixi fora do caixote! Também percebi que aquela gatinha
era especial, Eu diria que era, é, um animal de poder. Com uma grande
personalidade. Acho que ela me guarda. Ou sou eu a imaginar…
Isto que aconteceu com a gata preta é mais uma demonstração
da existência de uma consciência superior animal e de que tudo o que nos rodeia
é consciente e mágico. Nós é que andamos distraídos e somos uns grandes
convencidos da nossa superioridade.
Sabem por que conto tudo isto? Porque a irmã da minha gata
pretinha, a quem chamei Becas, aquela muito linda, a quem curei os olhos, está
neste momento a tentar sobreviver na minha varanda.
Há uma semana que
está doente e os antibióticos não estão a fazer efeito. A eventualidade de ter de
a mandar abater causa-me uma grande dor! Quinta-feira vou ouvir o veredicto da
veterinária. Não imaginam a lição de ternura, solidariedade, humanidade, sim,
que tenho recebido destas duas gatinhas. Duas gatinhas que têm sido muito amadas
por toda a minha família.
Xana é o nome da gata que está a morrer e espanta as
veterinárias pela sua doçura. É tão doce que a maior parte das vezes lhe chamo Xaninha!
Este texto surgiu em homenagem à Xana, esperando que
ainda possa reagir. O certo é que jamais a esquecerei.