O GRANDE MISTÉRIO DA VIDA
Debrucei-me, a semana passada, sobre as três etapas do
percurso pela Árvore da Vida. Deixei, porém, para hoje, a referência ao que nos
espera, a cada um de nós quando, finalmente, conseguirmos atingir a meta. Tenho
para mim que a meta a que podemos chegar enquanto portadores de um corpo físico
não é a meta final e não é a mesma para todos ao mesmo tempo. Isto é, existem
imensas metas a alcançar ao longo da vida, num progressivo aperfeiçoamento.
O corpo
permite-nos uma grande variedade de experiências no decorrer do percurso
espiritual. Experiências na vigília, em que a mente pode ter ou não um papel
determinante e experiências durante o sono, quando o espírito se liberta do
corpo e pode ascender a outros níveis vibracionais. Lembro-me de uma manhã em
que, ao acordar, tive de lutar para recuperar o meu corpo, que parecia ocupado
por um outro locatário. Isto que conto terá sido real? Para mim foi, mas não
tenho nenhuma informação quanto a essa possibilidade. Não voltou a acontecer.
Entretanto, aprendi a proteger o meu sono ou tornei-me mais forte.
Complicado, não é? Eu acho, mas não sei dizer mais sobre
isto, nem melhor. Mas recordo a aflição e o esforço que fiz para entrar no
corpo. Parece loucura. Sou demasiado
ignorante para saber o que se passou realmente, mas que foi uma experiência
traumática foi!
Recordo-me agora de outra experiência acontecida ao
acordar. Despertei deitada de costas, barriga para cima. Não me podia mexer. Ao
mesmo tempo sentia que a minha cabeça era enorme. Tentei chamar a empregada,
que já tinha chegado e fazia barulho na cozinha, mas da minha boca não saiu
nenhum som. Foi então que pensei que deveria ter tido um AVC. Não podia fazer
nada a não ser esperar. É estranho, mas não senti nenhuma angústia. E a minha
curiosidade profunda por todos os fenómenos, levou-me a concentrar a minha
mente na observação do que me estava a acontecer.
Passou muito tempo. Eu estava presa no corpo sem poder
reagir. E não havia em mim aflição alguma, o que me parece estranho. Ou não
será. Talvez o essencial em mim soubesse o que estava a acontecer. A minha
atenção estava concentrada no cérebro enorme, que parecia ser o meu.
Apercebi-me então que, lentamente, muito lentamente, o cérebro ou talvez com
mais propriedade a energia cerebral começou a diminuir e a encaixar-se dentro
da cabeça.
Sentir que a consciência, o quer que me fazia pensar fora
do cérebro, entrava lentamente na cabeça, ocupava-me tanto que não me permitia
sentir nenhum tipo de aflição. Era o que era e a que eu assistia, serenamente,
como o meu treino de jornalismo me preparara para observar os acontecimentos
sem me envolver. Por fim, a minha consciência encaixou dentro do cérebro e eu
verifiquei que passara a poder mexer-me e me podia levantar.
Resolvi não contar a ninguém o que me tinha acontecido.
Para que é que eu ia preocupar os meus familiares?! Nunca mais voltou a
acontecer. Acho que me foi mostrado como funciona o mecanismo da consciência,
entre a vigília e o sono. Afinal, da Vida!
A Vida na sua totalidade e o ser humano em particular
são, na realidade, um profundo mistério. Desenhar o que se desconhece e
aprender com os próprios desenhos acaba por ser uma pequena amostra do grande
mistério que é a manifestação de que fazemos parte, ou simplesmente a Vida, o
simples acto de respirar e a possibilidade de sentir amor por um ser em
concreto ou um amor difuso que abrange tudo e não privilegia nada.
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A
PONTE ENTRE A TERRA E O CÉU
Neste lado do Véu, a que chamamos Vida, temos uma longa e
variada aprendizagem a fazer, ficando-nos sempre a sensação de que há mais a
descobrir, que o conhecimento que possamos ter divisado é mínimo, é sempre
mínimo para o que há a saber. Entretanto, se alguma vez tivermos o privilégio
de despertar conscientemente no Grande Oceano da Vida aí, sem espanto, automaticamente,
partilhamos de todo o conhecimento, sabendo tudo e sendo tudo, sem deixar de
sermos o que ainda somos, simplesmente humanos. Mas a experiência, que é
Infinita, é sempre breve, por mais tempo que tenhamos sido ali acolhidos, por
mais tempo que tenhamos partilhado simultâneamente o Todo e a Parte, em plena
consciência. Sem espanto! Sem espanto, porque sempre fomos isso.
Tive o raro privilégio de me ter sido permitida a vivência
desse estado. Nesse Oceano, onde uma noite acordei no sonho, e de que já falei,
Ser é Saber, não há diferença nenhuma. E Saber é Ser. Consciencializo isso como
nunca o tinha feito antes. Quer dizer: enquanto me esforço por transmitir a
mensagem, eu própria estou a aprofundar em mim o Saber e o Ser.
Antes de continuar, quero lembrar que o ponto de partida
de todos nós é o da perfeição. Éramos perfeitos e inteiros, completos, quando
nos disponibilizamos a trazer o Espírito à matéria. Isto é, todos nós nos
disponibilizamos a nascer no Planeta Terra com uma missão. Há uma descida e só
quando se bate no fundo é que, de novo se começa a subir. Entretanto, o ser
humano cumpriu parte da sua missão. Isto é, impregnou o Espírito na matéria,
com a sublime renúncia de esquecer quem era, quem é. Creio que esta aceitação
do esquecimento foi, é, continua a ser uma acto sublime, um acto de abnegação. Um
acto de renúncia, extraordinário! Neste esquecimento ao longo de séculos, ao
longo de milénios, andamos a viver múltiplos papeis, em que fomos sendo algo e
o seu contrário, tantos vezes vividos num terrível complexo de culpa.
Depois de ter percorrido a Árvore da Vida e de ter
vivenciado os seus ensinamentos, o Ser Humano volta a readquirir as qualidades e potencialidades que lhe são próprias. Conscientemente volta a estar conectado
ao Todo. Volta a ter a sua «moleirinha» aberta, como os bebés. Talvez consiga
ver os anjos, como eles, e sorrir-lhes, com esse sorriso que as mães tanto
gostam de ver, mas que é o sorriso destinado ao anjo, que também lhes sorri.
O rosto de mulher que pintei tendo na cabeça um ninho de
pombas, que representa a abertura ao Cosmos, ao Espírito. Abertura que trazemos
à nascença com a moleirinha aberta. Com o tempo a moleirinha fecha, mas podemos
ter o privilégio de a voltar a abrir e de nos conectarmos com o Todo. Veja-se
que a mulher integra em si o seu par. Dois em um, ou seja, o Andrógino
Primordial.
A segunda imagem, em que a poalha dourada do Céu entra no
cântaro em que se transformou a cabeça da mulher, representa o mesmo que a
imagem anterior, porventura num estadio mais avançado.
Repare-se, por fim, que o dragão é o único animal que
permanece nesta última etapa. Por quê? Porque ele representa a Kundalini, um
elemento essencial da abertura do ser humano ao Cosmos, tornando-o a ponte
entre a Terra e o Céu.
Desenhei e pintei este quadro em 1984, sem saber o que
significava, mas isso não foi obstáculo à minha entrega total. Guardei-o até
agora, num dos sítios mais recatados da casa, agora, que julgo ser o tempo
certo para o mostrar.
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TAMBÉM SOMOS OS OUTROS
A tragédia na maratona de Boston, nos EUA, leva-me a chamar
a atenção para a tragédia da ignorância e do ódio, que estão na base de toda a
violência. Ainda se desconhece o que ou quem esteve por detrás do atentado. Foram
os dois irmãos sozinhos que conceberam e realizaram o atentado na maratona, ou haverá
alguma força política ou religiosa por trás?
Não é isso, porém, o que me leva a referir esta tragédia.
Mas o que há de irracional, sem consistência lógica, nas tragédias deste tipo.
O ódio ao outro é antes do mais uma manifestação de ódio por si próprio. É
desconhecer que o carrasco é também a vítima.
Pintei um dia um quadro em que a figura principal é um
árabe, com a sua família e o seu grupo. Noutra ocasião desenhei um jovem
ocidental, com a força de um conquistador, de um guerreiro. E, sabem? Essas duas
figuras, nascidas em civilizações opostas, eram a mesma entidade, para não
dizer a mesma pessoa, nascendo ora num povo ora no seu rival, talvez ambos com
o mesmo ímpeto guerreiro, para aprender porventura o respeito pelo outro, o
oposto, que não terá de ser inexoravelmente adversário.
Pode ser que, cosmicamente, nada disto tenha importância.
Que no momento em que alguém é árabe ou alguém é ocidental e cristão assume os
ódios e a índole do seu povo, atacando hoje o que irá defender amanhã, com
outra alma, outra índole e outro corpo. O inimigo de hoje será sempre o irmão
de ontem? Será que é mesmo assim? Será que a ignorância de quem somos, do que
somos, nos atira uns contra os outros, seja qual for o lado em que estejamos?
A ser assim é tão estúpido, tão limitado, tão pouco
avançado espiritual e civilizacionalmente, não acham? Não acham? Quando
aprenderemos realmente que somos todos irmãos, que somos todos um?
Quando sairemos desta barbárie?





