terça-feira, 17 de setembro de 2013

Histórias com Gatos




CABE-NOS REGENERAR O PLANETA


Falei de política a semana passada, mas há vida para além dos jogos de Poder nacionais e internacionais.  Somos inevitavelmente influenciados por esses jogos, mas cada um de nós tem ou deveria ter o seu próprio espaço, muito para lá do exterior que nos condiciona ou pretende condicionar. O espaço que inventamos e onde nos movemos. Um espaço de liberdade, íntimo, que criamos segundo a nossa disponibilidade interior e a nossa alma. Um espaço em que acolhemos os nossos afectos e onde recriamos histórias, que podem ser histórias com gente ou com animais.

Dei-me conta que estava a deixar que a política invadisse este espaço. Não é essa a minha intenção. Também cabe aqui, claro, mas é minha intenção privilegiar sempre as histórias de Vida. Que serão hoje histórias com gatos.

Entretanto, à nossa volta tudo se move, numa crescente incerteza, mas tudo, de uma forma ou de outra, acabará por se orientar no sentido certo. É só uma questão de tempo. Aliás, cada um de nós pode orientar o sentido da vida com a força da própria serenidade. Escolhendo ser parte da energia que regenera o Planeta.

E vamos lá então às histórias com gatos…


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O GATO QUE NÃO PERDOOU


Não sei como chegou lá a casa. Alguém o encontrou na rua, teve pena dele e, como há muito morrera o nosso gato, decidiu levá-lo para junto de nós. Era ainda muito pequeno, teria um mês de vida. Pouco mais. Sei que me apaixonei por ele e resolvi adoptá-lo. Arranjei-lhe caixote, passei a dar-lhe leite num pires e a escolher o que de mais tenrinho havia para que ele pudesse comer. E, sem que ninguém soubesse, passei a dormir com ele.

Foi um amor correspondido. Mais do que dona, rapidamente me tornei numa espécie de mãe. Ele era tão pequenino e tão frágil, que se aninhava na minha cama junto à minha mão esquerda. E o inesperado aconteceu: o gatinho começou a mamar na polpa do meu dedo indicador esquerdo. Tornara-me a sua segunda mãe.

Eu trabalhava então numa revista. Quando eu saía, o gatinho ficava junto à porta, à minha espera. Foi um idílio de meses, interrompido pela possibilidade de trabalhar num jornal diário, numa cidade longe da casa paterna.

Na balança da decisão, o gatinho teve pouco peso. Fui viver para essa outra cidade. De casa davam-me a notícia de que o gato não saía de junto à porta de entrada, à minha espera.
Esperou-me durante dois meses. Tinham de lhe levar a comida à porta. Uma dor de alma. 
Inesperadamente, um dia deixou de me ir esperar. Integrou-se na rotina da casa. Foi adoptado pela minha mãe.

Quando voltei à casa paterna, numa das festas natalícias, quis retomar a minha amizade com o gato, já então adulto. Mas ele mostrou-se indiferente. Não me reconheceu, porventura, ou quis mostrar-me o seu ressentimento, quem sabe? Passava por mim como se eu não existisse.

O mais certo foi não me ter perdoado eu ter-me ido embora…


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«NUNCA NINGUÉM GOSTOU TANTO DE MIM»…


Para introduzir a variedade na narrativa, vou relembrar o amor do Pepe. Pepe era o cão do meu filho mais velho. Embora eu tivesse tido relutância em o aceitar, o cão era-me extremamente dedicado. Seguia-me por todo o lado. Tinha por hábito deitar-se aos meus pés, quando eu me sentava num dos sofás da sala, a ver televisão.

Não haveria história se um dia uma amiga minha, também jornalista, me não  tivesse vindo visitar. Almoçámos juntas. Foi muito agradável, com o Pepe sempre muito próximo de nós.
Até que resolvemos ir à pastelaria tomar um café. Vestimos o casaco e preparávamo-nos para nos dirigirmos para a porta, quando a minha amiga reparou no cão e disse, sobressaltada:

-- Antónia, que é que o cão tem, está a tremer?! Estará doente?
 Sosseguei-a.
-Não. Quando percebe que vou à rua e não o vou levar, o Pepe fica sempre assim a tremer!
 A minha amiga proferiu então uma frase que, por mais anos que viva, nunca poderei esquecer:
-- Ah! Nunca ninguém gostou tanto de mim!...


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A REBELDE E DOCE MIMI


É uma história relevante, no princípio e no fim. Durou doze anos, a partir do dia em que a minha nora trouxe a minúscula gatinha do jardim da sua casa de férias..

O meu cão tinha morrido. Foi um desgosto e eu decidira não ter mais nenhum animal dentro de casa.  Quando a minha nora me telefonou a anunciar que me trouxera uma gatinha, a minha primeira reacção foi dizer-lhe muito obrigada, mas que não estava interessada.

À noite, o meu filho mais velho, a minha nora e os meus netos apareceram-me em casa com a minúscula gatinha. Era um encanto, mas obrigada, repeti, não quero ter cá em casa mais animais!

Insistiram. Se dentro de uma semana eu continuasse a não querer a gata, eles arranjavam-lhe outra dona. Deixei-a ficar, só para não ser indelicada. E porque era só mais uma semana!

Os dias foram passando e eu continuava firme na minha decisão. Não queria mais animais! E a gatinha corria como louca pela casa, sabendo porventura da minha recusa em a aceitar.
Passou a semana e o meu filho telefonou-me para saber da minha decisão. «Mas afinal por que é que não fica com a gata?» -- voltou ele a insistir. Sim, a gata andava pela casa numa correria, mas havia muito espaço, não me incomodava. Foi então que lhe disse que ia pensar.  
Apesar das correrias a gatinha era asseada e já se tornara uma presença. Afinal, por que não havia de ficar com ela? À noite telefonei-lhe a comunicar a minha decisão. «Pronto, fico com a Mimi!» Até já lhe tinha dado um nome.

O extraordinário é que, nessa noite, a gata deixou de correr pela casa. E, pela primeira vez, e sem eu a chamar, veio sentar-se no meu colo. Tinhamo-nos mutuamente adoptado. E foram doze anos de um mútuo amor.


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A ALMA GRUPAL DOS GATOS


A Mimi surgiu na minha vida numa altura em que comecei a desenvolver uma forte reacção alérgica ao tabaco. Eu não fumava. Mas numa redacção onde quase toda a gente fumava e onde às 17 horas havia no ar uma espessa nuvem de fumo, eu tossia continuamente. Face ao meu caso, um conceituado especialista de doenças pulmonares receitara-me como tratamento: «Compre uma bicicleta e vá para a beira-mar.»
Não comprei uma bicicleta, mas aluguei uma pequena casa à beira-mar.

O primeiro dia na casa da Ericeira ficou indelevelmente marcado na minha memória. Já a tinha mobilado. A casa era modesta, mas tinha um quê, e via-se o mar da janela do quarto. Estava ansiosa por estrear a casa, mas ainda não tinha luz, só na segunda-feira a iriam ligar.

Não quis perder o primeiro fim-de-semana junto ao mar. Tinha um candeeiro e muitas velas. Peguei na Mimi e lá fomos nós estrear a casa. Abri o portão, meti o carro dentro do espaço que poderia tornar-se um jardim. Tinha fechado a Mimi dentro de casa, mas depois  de ter arrumado o carro, abri a porta e… a mimi fugiu. Percebem? A Mimi tão pequenina desaparece no grande espaço ao lado e por detrás da casa!...

Já tinha escurecido. Havia uma lâmpada de rua mesmo à porta, que alumiava o espaço, mas se a gata, tão pequena, passasse pela parte debaixo do portão e fosse para a estrada? Tão pequenina… Bem, esta era a minha aflição.  Ainda a fui procurar no terreno atrás, mas não a encontrei.

 Voltei para casa e então tive uma ideia: e se eu pedisse à Alma Grupal dos gatos que ensinasse o caminho de volta à gatinha? Foi uma ideia ingénua, concordo, mas tão inocente!  Não podiam deixar de ouvir-me…
Ouviram! À porta um gato miava. Abri a porta. «Mimi,voltaste…» Foi então que senti um dos grandes sustos da minha vida. À porta estava um gato, sim, mas do tamanho de um cão, com o rabo muito esticado para o ar.

Tive medo, sim. Fechei a porta, sem reflectir, com força. E agora? Aquele gato paranormal iria ficar à minha porta? Com a casa alumiada com velas, senti-me mesmo só e sem defesas.
Depois acalmei. A minha intenção fora pura, o que eu tinha invocado foi para proteger a gatinha, não sabia que estava a fazer mal… Sempre tive a certeza que a intenção pura, mesmo que não seja absolutamente correcta, não pode desencadear o mal. E esta certeza fez-me sentir protegida perante o invisível.

Quando, um quarto de hora depois, ouvi a gatinha a miar à porta, abri sem hesitação nem medo. Era mesmo a Mimi que estava à porta. Entrou e nunca se perdeu nos doze anos de amor perfeito que vivemos juntas.


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UM FUMO BRANCO EVOLOU-SE DA MIMI

Comecei por passar todos os fins de semana na Casa da Ericeira. Chamo-lhe assim, mas a casa não ficava propriamente na Ericeira, mas nas proximidades. Ali também havia cafés, esplanada sobre o mar, mas sem a barafunda da Ericeira. Agora é um espaço que está menos resguardado, por causa dos surfistas.

Entretanto, a minha saúde piorou e o médico aconselhou que me afastasse da Redacção. Aliás, a tempo, porque começaram a surgir outros problemas  de saúde, ainda mais graves do que o meu, entre colegas meus. Entretanto, o cigarro foi proibido na Redacção.

Os anos passaram. Um dia, a Mimi ficou doente. Levei-a à veterinária. Era algo grave, a necessitar de uma operação urgente, mas sem qualquer garantia de sobrevivência.

Disse que ia pensar. E pensei que não ia prolongar o sofrimento da gata, que até já tinha deixado de comer. E então resolvi levá-la para a casa da Ericeira, onde ela tinha um jardim e espaço e podia viver os últimos dias entre as flores.

Como ela não queria comer comprei, na farmácia, uma bisnaga com um alimento completo, que lhe punha várias vezes ao dia na boca e ela lambia. E passamos assim mais de uma semana, perto do mar, à espera que chegasse a sua hora, mas a gata não melhorava, mas também não partia.

Eu tinha um compromisso dois dias depois em Lisboa. E, por ridículo que pareça, eu contei alto, à Mimi, que ia ter que regressar a Lisboa, onde ela ficava confinada à casa e à varanda, mas não podia deixar de ser. Mas voltava no fim de semana…

No dia seguinte de manhã, como sempre, a Mimi foi para o seu ligar habitual no jardim, debaixo de um arbusto. Levei-lhe água e pus-lhe a comida na boca, como se tornara habitual.

Às seis da tarde, a Mimi regressou voluntariamente a casa. Chegou à sala e saltou para a cadeira de verga, junto à janela, mas miou de dor e desceu a seguir. Foi então que peguei numa toalha que estendi no sofá. Peguei na Mimi que coloquei, deitada, no sofá. E, nesse preciso momento, a Mimi teve uma convulsão, estendeu as patas e morreu.
Fiquei a olhá-la. Então vi soltar-se do seu corpo uma espécie de fumo branco, que subiu lentamente no ar e que eu pensei ser a sua força vital, a sua alma, que partia para se reunir à alma grupal dos gatos.

Foi precisamente neste momento que entrou na sala a gata Becas, de quem ainda não falei, e que olhou inquieta para todos os lados, Não viu nada porque, entretanto, eu tinha tapado a Mimi com parte da toalha. Mas ela soube que algo tinha acontecido.

Telefonei depois ao jardineiro que, na manhã seguinte, pelas sete horas, foi abrir uma cova para a enterrar. O local ficou assinalado por um grande pedregulho, a uns dez metros da janela da cozinha.

Pelo tempo que ainda lá fiquei, e foram anos, pude sempre olhar aquele pedregulho sabendo que era ali que ela estava sepultada.  A minha tão doce Mimi, que sempre foi bravia para a maior parte das pessoas.


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COMO A BECAS ENTROU NA MINHA VIDA


Nos 14 ou 15 anos que mantive a casa da Ericeira, foi sempre no mesmo local, mas não na mesma construção. A certa altura vagou uma vivenda e eu mudei-me para lá. Tinha mais espaço, uma zona onde poderia apanhar sol, sem ficar muito exposta aos olhares.

A casa era maior e tinha um jardim à frente da casa. Nas traseiras havia espaço para a mesa, cadeirões, etc e privacidade. Com mais espaço passei a ser mais assediada por gatos.

Apareceu no jardim uma gata prenha e eu passei a dar-lhe de comer uma vez ao dia, mas fora de casa. Depois de ter a ninhada e, como se sentia protegida, levou-a para o meu jardim, resguardada sob um arbusto.

Foi então que descobri que ela tinha abandonado um gato, no local onde teve os filhos, por ele ter os olhos quase colados. Pressenti perfeitamente que ela estava a sacrificar um para defender a ninhada.

Lavei os olhos da gatinha, que era porventura a mais bonita da ninhada. Fui à farmácia e comprei o medicamento aconselhado pelo farmacêutico. Tratei-lhe dos olhos, até ficarem bons. Quando isso aconteceu fui pô-la na ninhada. A mãe aceitou-a e tudo pareceu entrar na normalidade. Eu continuava com a minha Mimi. Havia uma ninhada de gatos no quintal, mas isso não era responsabilidade minha.

Uma tarde, já perto da hora do jantar, ouço miar à porta. Era a gata, mãe da ninhada, com um gatinho preto, com manchas brancas no peito e nas patas. Uma gata não fala, mas eu entendi. Ela vinha oferecer-me aquele gatinho que, soube então, era também uma gata. Achei isto tão extraordinário que deixei a gatinha preta entrar e a mãe foi-se embora, como se tivesse cumprido a sua missão e fosse ali apenas para me entregar a filha.

Tentei arranjar cama para a gatinha, mas desaparecera, não a encontrei. No dia seguinte de manhã, finalmente apareceu. Apareceu e fez xixi no chão da cozinha e é por isso que conto esta história.

Chamei a gata mãe e mostrei-lhe o xixi. Disse-lhe que não podia ficar-lhe com a filha porque ela não sabia ir ao caixote. O espanto de tudo isto é que a gata percebeu o que eu estava a dizer. Virou-se para a parede, que fitou talvez durante dez minutos, como se estivesse a fazer algo para lá do meu discernimento. E eu ali, quieta, espantada, a tentar perceber. Depois olhou para mim, com intensidade, e foi-se embora. O que foi que ela me quis dizer? No dia seguinte percebi. A gata esteve a ensinar mentalmente a gatinha que me  tinha oferecido e que nunca, nunca mais, fez xixi fora do caixote! Também percebi que aquela gatinha era especial, Eu diria que era, é, um animal de poder. Com uma grande personalidade. Acho que ela me guarda. Ou sou eu a imaginar…

Isto que aconteceu com a gata preta é mais uma demonstração da existência de uma consciência superior animal e de que tudo o que nos rodeia é consciente e mágico. Nós é que andamos distraídos e somos uns grandes convencidos da nossa superioridade.

Sabem por que conto tudo isto? Porque a irmã da minha gata pretinha, a quem chamei Becas, aquela muito linda, a quem curei os olhos, está neste momento a tentar sobreviver na minha varanda.

Há uma semana que está doente e os antibióticos não estão a fazer efeito. A eventualidade de ter de a mandar abater causa-me uma grande dor! Quinta-feira vou ouvir o veredicto da veterinária. Não imaginam a lição de ternura, solidariedade, humanidade, sim, que tenho recebido destas duas gatinhas. Duas gatinhas que têm sido muito amadas por toda a minha família.

Xana é o nome da gata que está a morrer e espanta as veterinárias pela sua doçura. É tão doce que a maior parte das vezes lhe chamo Xaninha!


Este texto surgiu em homenagem à Xana, esperando que ainda possa reagir. O certo é que jamais a esquecerei.  



quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Os Jogos do Poder


UMA DEVOTADA  APRENDIZ DA ESCOLA DA VIDA



Durante o mês de Julho perguntei-me algumas vezes se devia ou não continuar este blog. Senti, aliás, a necessidade de fazer uma avaliação distanciada do que escrevi até agora. Valeria a pena continuar? Até onde poderia ou queria ir?

Considerei também, algumas vezes, que já tinha transmitido o essencial da minha aprendizagem e que cada um dos possíveis leitores poderia tirar as suas próprias conclusões e, eventualmente, aproveitar o que de melhor nelas pudesse servir à sua evolução.

 Não consegui por muito tempo tomar uma decisão clara. Cada um de nós faz o seu caminho caminhando e o bom e o mau que vai acontecendo são elementos essenciais à própria evolução. É a maneira de encararmos ou resolvermos as situações que se nos deparam que, ao fim e ao cabo, nos apura e nos faz avançar.

A certa altura, senti que algo se está a alterar em mim. Será porque estou mais velha? Não me pareceu que seja isso. É outra coisa. É mais uma espera de que algo se transforme em mim. Ou no mundo. Acho que as incertezas deste mês de disponibilidade foram ou são reflexo de tudo o que acontece no Planeta. Algo parece estar a fermentar e a eclodir e poderá ter aspectos não muito agradáveis. Foi como se tivesse deparado à minha frente com o futuro, um futuro ainda a definir-se, incerto, enquanto o «recado» que tenho andado a tentar passar tenha surgido da parte luminosa da experiência dos meus últimos vinte anos.

Sou por gosto uma devotada aprendiz da escola da vida. Acho, aliás, que todos somos isso e que a vida dá a cada um de nós a possibilidade de ter as experiências que nos permitem avançar. Algumas vezes, a experiência é tão dolorosa ou é-nos tão difícil apreender-lhe o sentido, que temos de repeti-la, em situações diferentes, até que tenhamos percebido o que estamos a tentar demonstrar a nós próprios. Ou ensinar.

As situações repetem-se, não exactamente iguais, mas tão semelhante que, se todos estivéssemos atentos ao percurso interior, acabaríamos por perceber que, com nuançes, vivenciamos repetidamente a mesma experiência, enquanto não aprendemos que não é por ali.

Aliás, no essencial, as nossas vidas não são muito diferentes umas das outras. Aparentemente diversas, as provas são sempre muito semelhantes. Tudo o que fazemos a nós mesmos e aos outros fica a trabalhar-nos e a condicionar a nossa evolução.

Nada é gratuito. Tudo o que nos acontece e acontece à nossa volta tem uma função, mas somos nós que vamos influir na forma como isso vai condicionar as nossas vidas, as nossas relações com os outros e a nossa evolução. Aquilo em que nos tornamos dia a dia. Sempre diferentes, embora aparentemente iguais. E isto ao nível individual e colectivo, ao nível dos grupos, das sociedades e das Nações.


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NOBEL DA PAZ QUER FAZER A GUERRA



 Uma das questões em que tenho andado a pensar é o que pode vir a acontecer após a eventual  intervenção dos EUA na Síria. Que pretende o Presidente Obama?Admito que ele está a repetir a estratégia de Bush a quando da intervenção no Iraque. Isto é, ao dirigir o foco das atenções para a Síria, fá-lo-à para ter mais liberdade de acção em outros planos. Será?
Admito que Obama, como aconteceu com Bush, está a focalizar a atenção na Síria, por razões internas. De que está ele a defender-se? De que pretende desviar as atenções, ao focalizar a nação na problemática da Síria?

Recorde-se o que aconteceu no Iraque. Ao decidir a intervenção no Iraque, Bush consolidou a sua posição internamente. Mas será que a ocupação e a morte de Saddam Hussain prestigiou a América ou beneficiou a população iraquiana? Não, nem uma coisa nem outra. Basta ver o nível de destruição do Iraque e do sofrimento do Povo iraquiano, sabendo-se que o que estava verdadeiramente em causa era o petróleo…

Aparentemente, Bush terá na altura consolidado a sua posição internamente, mas será que os EUA ficaram mais fortes? Com maior prestígio?Pelo contrário. E quantos soldados morreram ou ficaram estropiados, americanos e iraquianos? E o sofrimento e a morte causadas à população, não ficarão a pesar no karma dos americanos? 

E agora a Síria. Qual vai ser a retaliação, directa ou indirecta, da Síria aos EUA se Obama levar avante a intervenção que tem planeada?  Estará o Presidente Obama a precisar de um inimigo externo para consolidar (também ele) internamente a sua posição? E como é que Obama vai resolver a contradição de ter sido Prémio Nobel da Paz, revelando-se agora, por bons ou maus motivos, um Nobel da Paz a mandatar a guerra!

 Ah, os jogos do Poder!… E os presidentes, ainda que de origens e ideologias diferentes, acabam por ser na acção perigosamente iguais.


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O CAIR DAS MÁSCARAS



Penso que já disse aqui, não sei quando, que chegamos a um tempo em que nos vamos definir colectivamente pelos actos e não mais pelo subterfúgio das palavras. Chegamos ao tempo do cair das máscaras.

 De uma maneira ou de outra, a verdade chega às televisões e às páginas dos jornais. A abastança e a riqueza que entra nas nossas casas através dos filmes passados pelas televisões são a realidade a que também temos direito. Esta é a revolução dos nossos dias, a grande revolução. Uma revolução pela informação. Pelo conhecimento.

 A realidade de uns é a realidade possível de todos os outros, se não houver a apropriação indevida da maior fatia do bolo por uns poucos. Tem sido esse o verdadeiro trabalho informativo da televisão, ainda que não tivesse sido essa a intenção. Ou seja: a denúncia das obscenas desigualdades entre ricos e pobres, que continuam a prevalecer no mundo.

 É extraordinário que o sentimento igualitário tenha chegado ao conhecimento de todos não pelos grandes ideólogos, marxistas e outros, não pelos partidos políticos e suas doutrinas, mas através da imagem, da vivência possível revelada através do cinema e da televisão. Já não é possível esconder. Há muita miséria no mundo e muita riqueza ostensivamente esbanjada por uma minoria. E isso não é ética nem socialmente comportável, numa sociedade em que, felizmente, a educação chegou à maioria.


 Está em curso um movimento de regeneração do Planeta, que vai porventura provocar algumas catástrofes, mas cujos resultados vão ser colectivamente positivos.  A regeneração da Terra e do seu humus é coincidente com um movimento colectivo de regeneração da humanidade. A informação circula. A riqueza já não pode ser globalmente retida por uma minoria. E isso é altamente positivo. O que vai permitir o desenvolvimento de uma nova sociedade e de uma humanidade mais evoluída e mais feliz. Mas ainda não é para amanhã.