TUDO COMEÇA E TUDO ACABA
Uma Civilização
é um organismo vivo. Como todos os organismos vivos cumpre sucessivas etapas de
evolução. Não surge do nada. Algo a faz eclodir no sonho. Tudo é sonhado antes
de aparecer na manifestação. É sonhado por Deus, digamos, ou é sonhado pelo
Homem em determinada etapa da sua evolução. E surge sempre de um par, fruto do
sonho e da acção. Só um desses elementos não chegaria para que, por exemplo, o
sonho tomasse forma. E a forma sem sonho seria descoordenada, sem alicerces,
condenada a esboroar-se rapidamente. A desaparecer.
Vejo uma
civilização como uma dança. Uma dança de pares. E, enquanto o par se mantem,
desencadeando o aparecimento de novos pares, a civilização floresce e
propaga-se. Mas para que tal aconteça tem de ter uma alma, isto é, um sonho. Só
o sonho faz avançar.
O guerreiro
pode conquistar territórios, mas a lei da espada está mais perto da destruição
do que de um novo começo. Só a Lei do Amor fecunda e faz a planta, as pessoas e
as civilizações florescerem.
Como estamos
a atravessar um tempo mágico, o solstício de Verão, em que, segundo a crença
popular, andam ninfas e fadas à solta na noite mais curta do ano, decidi falar
dos ciclos. Quando um ciclo termina outro começa. O que se lhe segue surge com
uma vibração mais elevada. Diria que o fim de um ciclo culmina com a integração
de uma aprendizagem. É a época do exame e da passagem a outro patamar O que vem
a seguir deverá ser de uma oitava mais elevada. É o que espera a humanidade que
vem após o fim deste Kali Yuga, a época que acabamos de terminar.
O novo ciclo começa sempre pela Idade do Ouro
e, ao fim de cerca de 25 800 anos, passa para a Idade da Prata, depois para a
Idade do Cobre, terminando de novo na Idade do Ferro, ou Kali Yuga, aquela que
acabamos de deixar. Entretanto, passaram-se, mais ou menos, cerca de 65 mil
anos. Pelo menos é o que afirmam os gnósticos, na peugada do conhecimento
milenar da Índia,
É estranho,
não é? Em termos humanos, pensamos que caminhamos para a perfeição. Com o
passar do tempo, tal como uma obra de arte, por um cinzelamento contínuo, por
um aperfeiçoamento contínuo, o ser humano acabará por
atingir a perfeição. Creio que há um certo consenso acerca disso.
A TEORIA DAS IDADES DO
MUNDO
A Teoria das
Idades do Mundo defende, porém, uma evolução que passa sempre pela involução. O ser
humano parte de um dado nível de perfeição, como Adão e Eva no Paraíso mas, à
medida que o casal iniciador mergulha na matéria, começa a afastar-se do divino.
Ao experimentar-se, decai, mas essa queda vai permitir-lhe elevar a vibração da
matéria mais densa. No fundo, inicia a matéria no caminho do espírito. É como
um sacrifício, um sacro ofício. Desce para que a matéria densa se
espiritualize. É isso que me leva hoje a pensar que não há pecado algum a
redimir. E que não há castigo, mas uma escolha. A escolha do espírito que se
faz carne para transformar toda a criação em Luz. Poderá ser assim?
Posso dizer
isto de muitas maneiras. Por exemplo, que o ser humano se ofereceu para fazer
uma peregrinação na Terra e que, pela sua caminhada, arrasta consigo toda a criação. Claro que à
medida que se experimenta na matéria vai decaindo e mergulhando na densidade. Isto
é, na imperfeição. Entretanto, acumulou muitas e variadas experiências. Enriqueceu-se
no erro e na dor. Será assim? Eu estou a especular, mas isto é possível, não
acham? Já pensaram que muitos dos santos foram anteriormente grandes pecadores?
Será que a sua perfeição deriva de eles terem visto «a luz na pedra», e o que
aprisionou outros na densidade, permitiu-lhes perceberem, soltarem-se e
adquirirem ou readquirirem a vibração primordial?
Estou em
crer que está ao alcance de todos a memória primordial. E a força para olhar a
luz, ainda que se fique cego, a força para enfrentar a verdade do ser. O que
aconteceu à maior parte de nós é que nos deixamos aprisionar no Ter.
Fascinados, carregamos o fardo do Ter e esquecemo-nos de SER. Esquecemo-nos da
magnificência que cada um de nós é. Esquecemo-nos que somos Deus, filhos de
Deus, partículas vivas da divindade. Esquecemo-nos? Houve tempo que a sensação
de esquecimento caiu sobre mim como uma montanha. Sufocada vivi o drama
horrível do esquecimento. Eu tinha-me esquecido. Tinha-me esquecido do que fui.
Do que sou!
UM DIA ACORDEI NO
SONHO…
Um dia acordei no sonho. Era eu, mas não tinha
corpo. Ou não sentia o corpo. Estava mergulhada no Grande Oceano. Ligamos a ideia
da água ao Oceano. Talvez fosse água. Não tenho a certeza. Era o Grande Oceano
de Energia. O grande Oceano do Conhecimento. Nunca tinha ouvido falar sobre
isso, nem lido. Nesse Oceano do Conhecimento eu era uma partícula. Ao mesmo
tempo que partilhava de todo o conhecimento, eu mantinha o meu sentido de
individualidade. Eu era eu, o nome não tinha importância, era eu plena no Ser e
no Conhecimento.
A minha
amiga Fátima Proença, de quem já uma vez falei e que, há meses, se passou para
o Outro Lado, teve um dia uma experiência semelhante, mas parece ter ido mais
longe. Terá passado por uma fase de integração no Todo, em que a memória do que
se foi, do que se é, deixa de ter importância e o Ser atinge uma indizível plenitude,
em que será Tudo. Ou Nada.
Agora, mais
uma informação. Para quem não sabe, e segundo a Wikipedia, «Kali Yuga é um
termo sânscrito que significa a Idade do Vício. Escrituras como o Mahabharata e o Bhagavata Purana apresentam Kali Yuga como uma
era de crescente degradação humana, cultural, social, ambiental e espiritual,
sendo simbolicamente referida como Idade das Trevas, porque nela as pessoas
estão tão longe quanto possível de Deus».
O Kali Yuga, porém, já terminou, segundo Sri
Aurobindo, um mestre indiano, com vasta bibliografia. Eu li «A Mãe» e outros
pequenos livros da sua autoria. Já os li há muitos anos, mas pareceu-me então verdadeiramente
um sage. Em resumo, e de acordo com outros autores, teremos entrado já na Idade
do Ouro, em que a Terra inicia uma nova era. A ser verdade, a Nova Terra será
habitada somente por homens justos… E, como aparte: não é preciso acreditar,
mas não faz mal nenhum pensar que tal vai acontecer. Segundo o que li, também
há muito tempo, quando se atinge uma massa crítica de pessoas que pensam de
determinada maneira, esse pensamento espalha-se velozmente e passa a ser aceite
pela maioria. Eu acredito profundamente nisto.
O Universo é Mental. É um preceito de
sabedoria. Podemos construí-lo ou destruí-lo pelo pensamento. Não foi pensando
que se chegou à bomba atómica e a esta organização desumana em que vivemos? Um
pensamento de minorias, para favorecer minorias, que levou à delapidação do
Planeta. Ou mudamos o pensamento, o que significa mudar a nossa relação com o
Planeta ou, não tenham dúvidas, estamos na iminência de grandes catástrofes e
não de uma mudança pacífica de civilização. Que, de uma forma drástica ou
gradual, se vai verificar. A decisão pertence ao Planeta Terra, que é um Ser
consciente. É a Mãe Terra quem vai decidir quando e quais serão as mudanças que
vão voltar a construir na Terra o Paraíso.
Seja isto
uma utopia ou não, há o alerta dos Cientistas. A Terra corre perigo. Neste
momento, está a decorrer, no Rio de Janeiro, até dia 22 próximo, a Conferência
das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável. Não se esperam grandes
alterações, porque os interesses instalados são tão poderosos, que não vão
permitir que se vá além das boas intenções. Infelizmente, vai ser o Planeta a
decidir o que convém à sua sobrevivência. Oxalá consigamos aprender. A tempo.
Se ainda estamos a tempo.
Aparte:
posso entregar-me a grandes especulações, mas continuo com os pés bem assentes
na Terra. Que muito amo.
_____
O BARRETE FRÍGIO E UM SORRISO ENIGMÁTICO
Nada de
especial me liga a Cleópatra. Não me lembro de ter qualquer fascinação pela sua
figura. Todavia, considerei que poderia ser Cleópatra uma das primeiras
personagens que surgiram no barro, em 1987, quase em simultâneo com as figuras
da Santa Clara e da Rainha Santa Isabel. É provável que esse busto tenha sido
feito antes, porque o barro é de má qualidade, comprado aqui no bairro, antes
de ter ido a uma das casas da especialidade no Bairro Alto. Não registei a
data.
O
barro era de tão má qualidade que começou a esboroar-se, mesmo depois de cozido
e, para não perder a estatueta, tive de a isolar com tinta de vidro. No mesmo
dia em que a modelei, vi surgir das minhas mãos uma perturbante figura, com um
estranho sorriso e um ainda mais estranho barrete. É uma figura inquietante,
que tem um segredo, que não esconde, mas também não pretende revelar. É
mefistofélica, sem dúvida. Nunca me atrevi a pô-la no meu quarto…
Parei de
escrever, porque me ocorreu que deveria tentar descobrir, na Wikipédia, se existe
alguma informação sobre aquele barrete. Porque sobre o sorriso será mais
complicado…
Eis-me na
busca e… Oh, meus Deus! Acabo de encontrar a explicação de algo que me intriga
há mais de vinte anos! Porque mantive durante tanto tempo este enigma? Talvez porque
só agora merecesse a explicação ou simplesmente porque só agora tive
necessidade dela…
O barrete
existe. É o barrete frígio, considerado o barrete da liberdade, e está ligado
ao deus Mitra, um deus de uma religião de mistérios, solar. O cristianismo terá
recuperado algumas das suas práticas e contribuído para o desaparecimento dessa
religião. Isto, em linhas gerais. Podem fazer a busca na mesma fonte a que
recorri. Há muita informação disponível.
Sinceramente,
estou-vos muito grata por serdes o pretexto que me levou a tentar saber o que
me pretendia dizer esta personagem, que há tantos anos me acompanha e só agora
finalmente se revela! Acho que ela me confirma nas minhas características
solares e me reporta para o mistério que acabara de se abater sobre a minha
vida. Tenho-lhe um certo respeito, mas continuo a mantê-la à distância. Talvez
um dia venha também a ter informação sobre isso.
É curioso que
esta personagem de barrete frígio, com um sorriso que prenuncia o Conhecimento,
tenha surgido ao mesmo tempo que a primeira estatueta de uma mulher de poder.
Tomei-a como a efígie de Cleópatra. Será? Ia escrever que não é, mas pousei-a
na mesa do computador e estou a
senti-la. É Cleópatra, com o barro estalado, mas de uma grande dignidade nas
suas muitas feridas. Olho-a, tem o estigma do Poder, mas não posso deixar de
gostar dela.
_____
A MARCHA DE TRÊS GRANDES
GIGANTES
Um dia
peguei numa cartolina de 67 por 35 centímetros e comecei a desenhar no extremo
do lado esquerdo, em baixo. A desenhar não sabia o quê. Aos poucos, começou a
surgir, ante os meus olhos, a epopeia que é a vida desta rainha, desenhada a
tinta-da-china, como sendo a marcha de três gigantes. Ainda hoje me espanto com
a intrincada teia da vida e morte das três personagens, que continuam a mexer com a nossa imaginação.
Por muito fabulosas que estas personagens tenham sido, francamente, ainda hoje não sei porque as desenhei tão minuciosamente. Vieram dar-me uma mensagem, que ainda não consegui decifrar. Será que me querem dizer que tudo acaba, tanto a máxima grandeza como a mais humilde e ignorada pequenez? Tudo se dilui no tempo. A civilização e os seus protagonistas…Talvez um dia desapareça também a memória de quem foram e do que sonharam.
Não é este,
porém, o desenho da vida de Cleópatra de que mais gosto. Mas um que fiz numa
folha A4, que me fala de Cleópatra, do Nilo, de felicidade. Comecei
a pintá-lo com lápis de cor, mas a meio desisti e senti que era para ficar
assim. A minha mão recusou-se a continuar.
A vida desta
mulher é um drama não essa coisa leve que o lápis de cor poderia transmitir.
Não concordam? É o drama do Poder, o drama de uma civilização vencida, o drama
de uma mulher que se recusa ser passeada em Roma como um troféu e resolve
morrer como rainha e sacerdotisa. O drama do Poder vencido e de um País
subjugado, que vai entrar por um longo caminho de esquecimento de si próprio e
da sua grandeza. O drama da morte cíclica de civilizações, que se renovam em
outros locais, com outros heróis e outros costumes. Mas nenhuma civilização nos
deixou uma memória tão grandiosa como a civilização egípcia, nenhuma teve um
sistema de crenças tão completo e complexo como era o seu sistema religioso.
Ainda hoje deveria ser estudado. Teríamos muito a aprender com ele.
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TRÊS HOMENS E UMA MULHER
Não será
essa a estatueta que mostrarei, pelo menos por agora, mas uma das últimas que
modelei. Nela vemos o imperador Octávio, com o rosto de Cleópatra na sua
túnica, rendida, amorosamente rendida? Não, ele exibe na sua túnica o Egipto
dominado e a morte de Cleópatra como troféu. O que ele certamente não realizou…
Antes de
falar disso, porém, quero mostrar Júlio César com a jovem Cleópatra, ávida e
curiosa, num dos lados e, no outro, já amadurecida e doce. Uma mulher, que é
também rainha, foi confirmada por esse velho guerreiro, a quem chamavam o homem
de todas as mulheres. A frase completa é mais escabrosa, mas não a vou repetir.
Por fim,
mostro Octávio, mas agora visto de costas. Octávio, o vencedor, que
tem no seu manto Cleópatra, como despojo de guerra. Octávio não sabe, talvez
não o chegasse a saber durante a sua vida, mas foi ele que imortalizou Cleópatra,
ele que a sacralizou e legou para a posteridade a sua memória. Foi ele, contra
todas as suas intenções, quem nos legou Cleópatra tal como a conhecemos, a
mulher que se faz morder por uma víbora e morre como rainha, como sacerdotisa e
deusa do seu Povo. Ainda hoje, mais de 2000 anos decorridos, ela continua a ser
a rainha do Egipto que mais gente conhece e admira. A outra é Nefertiti.


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