A PORTADORA DO
GRAAL
Na adolescência desejei desenhar, mas rapidamente me deixei
absorver pela paixão da leitura e pus de lado o desenho. Por volta dos 35 anos,
voltei a querer desenhar, mas estava demasiada ocupada com o jornalismo e os
filhos para arranjar tempo disponível. Finalmente, em 1987, essa inclinação
reprimida impôs-se com toda a veemência.
Foi nesse ano que
comecei a ver no papel o que devia desenhar. Não se tratou do desejo vago das
duas etapas anteriores. O que em mim me comandava sabia que não poderia ser de
novo da mesma maneira. Tinha algo a transmitir e não o sabia. Então, usaram
comigo (ou fui eu que usei?), a forma infalível de me prender, estimulando a
minha curiosidade, o desejo de saber mais e a descoberta cuidadosamente doseada,
com a expectativa contínua do que viria a seguir.
Dão-se rebuçados às crianças para fazerem algo que
desejamos. A mim, davam-me uma história traço a traço, formando um todo
coerente, que acabou por me introduzir numa aprendizagem que ultrapassava ou
confirmava os meus conhecimentos. Foi uma aventura maravilhosa. Dela trago uma proposta
diferente de contar a forma como surgiu Portugal.
Era um terreno desconhecido o que então pisava. Não sabia o
que estava a desenhar nem se, o que desenhava, tinha algum sentido, mas estava
tão entusiasmada, tinha tanta confiança no que iria sair dali que, poucos dias
ou semanas depois, não sei ao certo, porque não anotei a data, desenhei uma
bela representação dos protagonistas da fundação de Portugal: D. Teresa, D.
Henrique e D. Afonso Henriques.
Quando gosto de um
desenho não tenho vergonha de o assumir… Claro, o aparte é um pedido de
desculpa pela manifestação da minha alegria infantil!
Foi esse o desenho que
introduzi no início desta prosa. E nele vê-se que é D. Teresa, sem sombra de
dúvida, o elemento que detém o Poder. Ela é a Senhora. A Grande Mãe a reunir a
família (o futuro) no espaço do seu ventre. A
PORTADOrA DO gRAAL.
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Foi muito impressionante a minúcia com que desenhei o que,
então, não percebia o sentido. Que significado tinha aquele amontoado de
rostos minúsculos, dentro de certos limites, com um ou outro rosto a
destacar-se, sobretudo um rosto de mulher? Quem seria aquele par, de ar
arrogante, numa atitude de poder?
Não percebia, mas não desisti, e isso hoje parece-me
exemplar e quase inadmissível no contexto da minha personalidade. Como é que eu
me esqueci de mim, da minha vontade, dos meus quereres para seguir esse fio
condutor que me levava não sabia para onde? Não percebia o significado desses
sucessivos desenhos que saíam do meu lápis e que, depois, laboriosamente sublinhava
a tinta da china. Estava verdadeiramente fascinada com essa margem do real de
que não suspeitara e que me disponibilizava a recolher, ainda que não
percebesse o significado, o sentido e a utilidade. Nunca me passou pela ideia
desistir, porque sempre soube que a explicação viria aos poucos, conforme precisasse
ou fosse altura de saber.
Os desenhos dos meses seguintes vieram dar significado ao que
algo em mim estava a querer transmitir. Rapidamente, deixei de ter dúvidas. Eu
estava a descrever a lógica do aparecimento do Condado Portucalense, a partir
do Reino de Leão.
O condado é ainda e só um pequeno aglomerado de gente num
território limitado. Mas logo a seguir ampliou-se, vai já até Coimbra e há já
um projecto de conquista sublinhado pelas duas linhas ondulatórias que descem
dos extremos do território, por um espaço que haveria de ser preenchido, tempo
depois, por D. Afonso Henriques. Dois nobres, porventura os pais de D.Teresa,
vigiam…
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DOIS SONHOS SIGNIFICATIVOS
Por essa altura tive dois sonhos muito significativos. Eu
era Teresa e ia-me casar. Estava muito assustada e aflita. Talvez não fosse
aquele o destino que escolheria para mim própria.
Responderam-me que ele tinha partido para a caça. Deixara o recado de que
talvez demorasse dias…
Tareja, deixem-me denominá-la assim, porque é o nome de que
gosto, teve então uma atitude que não mais esqueci. Vestiu-se e pôs as chaves à
cintura. Tinha-se tornado uma mulher, uma castelã, sem queixas nem perguntas
desnecessárias.
O sonho terminou assim, com Tareja, menina de 14 anos, de
repente mulher, profundamente só.
Ainda às voltas com os desenhos de Tareja, voltei a sonhar
de novo com ela. E ela era eu. Estava em fuga, perseguida por um exército,
quase a ser descoberta. Cheguei junto de uma ribeira e tomei uma decisão.
Entrei na água e escondi-me entre a vegetação, numa das margens.
Passei ali toda uma noite. De manhã, o exército tinha
desaparecido e eu pude sair da água. Eu, na pele de Tareja, para perceber a
dureza daqueles tempos.
Havia uma aldeia próxima, Toda molhada, dirigi-me para a
povoação. Quando encontrei gente disse: «Eu sou a mulher do conde D. Henrique!...»
Acordei com estas palavras e fiquei a pensar: «estou a ser
induzida em erro. Então ela não se denominava Rainha?» Depois fui fazer as
minhas costumadas investigações e descobri que Tareja, a D. Teresa, enquanto o
marido foi vivo, se denominou sempre por
«mulher do conde D. Henrique», ao contrário do que eu julgava saber.
Estes dois sonhos
permitiram-me ganhar uma consideração especial por Tareja, uma mulher de rara
formusura e inteligência, segundo as crónicas da época, teve o sonho de
construir um país, em que o condado ficaria ligado à Galiza. Santiago de Compostela
era uma, e talvez a mais importante, das razões.
Lembrei-me agora de que, numa das viagens que fiz a Santiago
de Compostela, no livro que estava a ler fiz desenhos num livro de Tareja e a
irmã e de Isabel de Aragão. O problema vai ser encontrar o livro. Vou tentar .
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UM REINO PARA ACOLHER O GRAAL
Tareja, que tão mal tratada tem sido por alguns
historiadores, é parte fundamental do sonho da fundação de Portugal. Um reino
criado para acolher o Graal. Portu Gral.
Como pano de fundo de
tudo o que então aconteceu na Península Ibérica, há com certeza a ambição
pessoal, que é quase sempre a primeira motivação de todas as acções humanas.
Mas há também uma acção concertada, que a certa altura foi a componente mais
forte, de construir, neste fim de mundo, que era então o território junto ao
Oceano Atlântico, um nicho que pudesse acolher e insuspeitadamente preservar o
Graal, Dois séculos depois, o mesmo território serviria para, com outro nome,
manter a Ordem do Templo, que sobreviveria, sob a protecção de D. Dinis, com a
designação de Ordem de Cristo.
Portugal foi o primeiro país a acolher os Templários e a
oferecer-lhes território e bens. D. Teresa, em 1126, ofereceu-lhes, em
Penafiel, a povoação da Fonte de Arcada e, dois anos depois, o Castelo de
Soure, na condição pública de colaborarem na conquista de terras aos mouros. Isto
é de uma rara prodigalidade, quando só nesse mesmo ano, o Papa aprovaria a
Ordem do Templo. Aliás, D. Afonso Henriques entrou para a Ordem do Tempo, em
1129.
Dito isto, pergunto: como posso afirmar que D. Teresa foi,
no seu tempo, a portadora do Graal? Verdadeiramente, como jornalista, não
posso. Não tenho provas. Documentos. Embora os documentos também possam ser falsificados.
Como cheguei a esta certeza? Pela única forma que nunca terei a possibilidade de provar. Cheguei lá, vendo e desenhando o
que vi.
Podem rir, se
quiserem. Se eu estivesse do vosso lado de certeza que compartilharia da vossa
incredulidade. Talvez até dissesse: «É uma lunática!» Mas não estou do vosso
lado e não vou continuar a esconder, a sonegar toda a informação que recebi.
Não tenho esse direito.
Não me faz mossa nenhuma o quer que pensem de mim.
Antigamente, cortavam a cabeça ao mensageiro, não é?! Pronto, posso reconhecer
que, como testemunho, o que acabo de dizer não vale nada. É como se fosse uma
linda história da carochinha… D. Teresa, a Tareja, enquanto no seu ventre faz a
gestação de um País, é a guardiã do Graal. Que ficou no território mais de oito
séculos. Um território que se manteve quase sempre em paz, enquanto a Europa
viveu consecutivas convulsões. Não foi um privilégio? Essa Paz dever-se-ia
acaso à presença do Graal?...
Portanto, é como tudo se passasse ao nível do sonho. A
expressão artística surge quase sempre do mundo onírico, não é? Mas,
verdadeiramente, tudo é um sonho. A vida que vivemos. A personalidade que
temos. Os amores que amamos. As personagens que pintei, os desenhos, as
esculturas, como testemunho real, nada valem. São expressões da criatividade
humana. Acreditem somente no que lhes diz o coração.

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