VER O
QUE IMAGINAMOS OU O QUE ESTÁ LÁ?
A realidade é o que é ou o que nela projectamos e
queremos ver? Este é o ponto de partida
para a nossa conversa de hoje.
Há muitos anos deixei-me fascinar pelo Cromeleque dos Almendres.
Lembro-me que, uma vez, talvez há mais de 15 anos, fui lá com o meu filho mais
velho e a família. O meu neto, então com cinco ou seis anos, subiu para uma das
rochas, onde o fui encontrar sentado na posição de lótus. O espanto desse dia
foi verificar que o meu neto sabia reconhecer que aquele era um local sagrado.
Foi, porém, na
minha primeira ida ao cromoleque dos Almendres que descobri a Gruta do
Escoural. É aí que hoje vos vou levar, a essa visita feita há mais de uma dúzia
de anos e de que guardo uma incerteza, uma interrogação.
O lugar ainda era pouco conhecido. Havia um guarda, sim,
que nos permitiu a entrada, mas não havia espaços de recepção, guias, nada. Era
tudo ao natural. Aventurei-me com o repórter fotográfico para dentro da gruta.
Eu tirei as minhas fotografias, ele as que achou possível que eu pudesse vir a
precisar, mas são as minhas fotos que guardo e, pelo menos uma delas, me deixou
sempre uma inquietação. Tanto que voltei lá, meses mais tarde para verificar se
era realmente real o que eu tinha fotografado. E como então via muito o
invisível, na altura não quis mostrar as minhas fotos a ninguém. E se eu via e
ninguém mais conseguisse ver o que achava que estava lá?
Um dia, ao falar com outro fotógrafo, referi as imagens
impossíveis que eu tinha captado, sem dizer o quê, e ele, que tinha experiência
de grutas, disse-me que a realidade nas grutas era diferente e eu não perguntei
mais, porque também não queria ir mais longe. Até porque não sabia se os outros
veriam o que eu via na fotografia… Bem, o meu neto vê e isso dá-me a segurança
de eu não estar a projectar ou a imaginar.
Aqui está. A formação da rocha faz uma espécie de altar
branco azulado. Tem formação de rocha até ao chão, vêem? É uma formação muito
bonita, parecem pregas na rocha, que sustem a pedra, a que chamei altar. Agora
avancem até ao fundo dessa «pedra de altar», até à rocha que continua na
vertical. Que vêem na junção das duas rochas? Eu vejo a cabeça de um homem com
barba, morto, com um fato azulado, ali, no espaço entre o altar horizontal e a
rocha vertical, entre as duas rochas.
Voltei lá logo que me foi possível. As primeiras fotos
foram tiradas no Inverno, com a pedra húmida. Viva. Voltei lá no Verão, com a
rocha seca, sem luminosidade. E sem a nitidez da primeira foto, o rosto do
homem continuava lá. Comparem. É uma projecção ou é uma verdade? Seja como for,
ainda que esse homem tenha sido sacrificado naquela pedra, isso foi já há tanto
tantos séculos ou milénios, que não seria caso de polícia. É uma curiosidade,
não um crime a denunciar.
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O GÉNIO DA
GRUTA?
As grutas têm uma realidade fantasmática? Talvez, mas é
porventura repetível, pelo menos na maior parte dos casos. O génio da gruta,
que fotografei, não o vi da primeira vez e não sei se o voltarei jamais a ver.
Digamos, deixou-se ver em determinadas circunstâncias
atmosféricas e pode ser simplesmente uma ilusão de óptica. Não sei se, porventura, voltasse à Gruta do
Escoural, eu poderia encontrar de novo o ângulo propício a fotografar esse rosto
que ri, de boca aberta, a língua rosada, vendo-se na zona onde os dentes nunca
existiram ou terão já existido e caíram. Um rosto de olhos franzidos, que
observam com curiosidade a visitante, que talvez só se tivesse manifestado no
momento em que a máquina fotográfica disparou e a luz se tornou cúmplice de uma
imagem, que será porventura apenas imaginação, resultado do jogo de luz e
sombras. Com existência real ou não, esse rosto deixou-se ver e mostro-o como
coisa concreta, captada pela máquina fotográfica, ainda que tenha sido somente
o resultado do jogo de luz e sombra…
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UMA AVE QUE
TRANSFORMEI EM CAVALO
A imagem é a de uma ave pré-histórica fixada em pedra
numa das paredes da gruta. Fotografei-a, mas, mais tarde, desenhei-a e pintei-a
como cavalo alado. O cavalo que transporta os curandeiros pelos mundos
invisíveis, em busca da cura para os seus doentes. Entretanto, esqueci-me de
que me inspirara numa ave, até que a reencontrei entre as minhas recordações e
é uma majestosa ave que, em tempos pré-históricos poderá ter exercido idêntica
função.
A imaginação não tem limites. A realidade também a ela
própria se pode recriar.
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ALGURES, NO ALENTEJO…
Nunca
até hoje mostrei esta foto. É uma rocha perdida na planície do Alentejo e que
não vou localizar. É um lugar muito especial. Fui lá levada por alguém da
região, que quis mostrar esta rocha como uma formação especial.
Eu fazia parte de um grupo. E as pessoas iam subindo para
a rocha, sem que nos fossem dada explicações específicas. Era uma rocha especial
e isso bastava.
Subiram duas ou três pessoas antes de mim, até que
chegou a minha vez. Subi e uma energia muito forte fez-se sentir no meu
pescoço, a ponto de ter posto imediatamente a mão direita sobre o pescoço. Olho
para trás. A senhora que vinha atrás de mim, também ela tinha a mão no pescoço.
Então verifiquei que, naquela pedra, a energia não subia
do solo, mas descia directamente do céu. A pessoa que nos levou lá, embora
porventura soubesse, não deu qualquer tipo de informação.
Nunca escrevi nada sobre esta pedra, nem falei dela a
ninguém. Não sei porquê, como também não sei porque sou levada, precisamente
agora, a falar dela e a mostrá-la.
Não preciso saber mais. Para mim está tudo bem.
E uma última recordação do cromeleque dos Almendres. A desta rocha que tinha, no dia em que lá fui,
uma formação que parece e quase é o mapa de Portugal. Creio que, entretanto,
desapareceu. A partir de então não mais lá voltei.
Observação: a Natureza só se revela a quem se entrega…







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