sábado, 7 de abril de 2012

A Descoberta



DA TERRA AS ESTRELAS ILUMINARAM  O CÉU





Durante mais de quarenta anos escrevi prosa de «embrulhar castanhas», como sabiamente a qualificou, o então meu camarada de Redacção, José Carlos de Vasconcelos, numa crónica sobre  jornalismo.

Prosa efémera, com a utilidade última de forrar caixotes ou mais emblematicamente de «embrulhar castanhas», o jornalismo foi para mim um meio de intervenção, mas sobretudo, reconheço-o agora, uma forma de me conhecer melhor ao tentar perceber o ser humano, a sociedade, o País, o Mundo em que vivia. 

Afastei-me ao 60 anos por alergia à nuvem de fumo dos cigarros, que empestava então as Redações . Mas havia outra razão.

Quinze anos antes eu descobrira novas linguagens. O desenho e depois a pintura e a escultura. Só que eu não sabia pintar, nem desenhar, nem esculpir. Simplesmente, eu via no papel, traço a traço, o que havia a desenhar, a cor era encontrada por tentativa e erro, daí não ser obra perfeita, mas isso nunca me preocupou, porque conseguia exprimir o que precisava dizer. Quanto ao barro, esse ganhava forma na carícia das minhas mãos. Quer dizer: uma loucura, que eu não tinha coragem de assumir.

Afastei-me, desapareci. Talvez alguém ainda se lembre de mim, não tem importância nenhuma, Sou outra. Continuo jornalista. Jornalista dos Novos Tempos. Aquilo que aprendi com os meus desenhos talvez me permita fazer interpretações que escapem a outras análises.

Foi assim que pintei este quadro. O primeiro que pintei, Nada vale como pintura, não importa. Importa aquilo de que fala. De Portugal. É o retrato de uma mulher, repare-se. Repare-se ainda que a linha do perfil  é a linha da costa de Portugal, que se prolonga pelo rosto. Pela mente de Portugal.

A primeira figura dessa mente é a Rainha D. Teresa,  logo a seguir, de manto verde, surge a Rainha Santa Isabel, com D. Sebastião e a rainha D. Catarina, Depois o conde D. Henrique e D. Afonso Henriques. E, como eixo central, Luís de Camões, sendo arrastado pela Infanta D. Maria...
Há outras personagens que não descodifiquei. Talvez desse lado, alguém complete a leitura.
Para já há só a acrescentar a frase que acompanhou a pintura do quadro: «DA TERRA AS ESTRELAS ILUMINARAM O CÉU».


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E O CÉU FLORIU




Três mulheres foram surgindo, traço a traço, na folha de cartolina. A figura central parece de certa forma divertida por se ver rodeada por duas santas. Santa Clara e a rainha Santa Isabel.


Poderá eventualmente dizer-se: o centro é ocupado pela mulher de hoje, guiada e tutelada por duas figuras femininas, que marcaram e marcam ainda a alma do Povo Português? Será ela um arquétipo da mulher portuguesa, a figura que reúne, simultaneamente, Clara, a amorosa que segue o amado na busca do divino e por ele vive o amor renunciando à liberdade, à riqueza e à felicidade humana? E Isabel, a rainha que amou os pobres muito mais do que a riqueza, o poder e o seu Rei? Poderá a figura central gerar o equilíbrio entre as duas santas e ser o cânone da nova mulher?

 Tudo especulações. Só me chegou uma frase, «e o céu floriu». E a minha incumbência, ao que admitia, era a de a pintar um Céu a florir. Mas eu não sabia desenhar nem pintar flores. Não sabia.  Vejam à esquerda a rosa vermelha que tentei desenhar e pintar e verão o que quero dizer.

De repente, porém, o lápis de cera amarelo começou a desenhar botões de rosa, com toda a facilidade, que se manifestavam em cor para meu espanto e começaram a descer sobre a freira do quadro, a minha Santa Clara.

E o Céu floriu nessas rosas! O engraçado é que foi só ao começar a escrever esta prosa que consciencializei que o céu floriu também nessas três mulheres.



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A REFUNDAÇÃO DE PORTUGAL




A figura da rainha D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, foi quase postergada da história de Portugal. E, todavia, ela teve um papel essencial na defesa do condado Portucalense. Depois da morte do conde D. Henrique foi ela quem manteve a coesão e a independência possível do território.

A sua figura foi de certa forma diabolizada para exaltar o valor e prestígio do nosso primeiro rei, mas é ela que está no impulso de independência. Diria que a ambição de D. Teresa era ligar o condado Portucalense à Galiza. Pelo menos é o que me diz o conde D. Henrique quando aponta, com o seu dedo indicador, a figura de D. Teresa. Ela é que está na génese de todo o movimento de expansão e conquista. Claro que isto é uma interpretação. Eu desenhei e pintei o que vi na tela. Será que tresli? Será que projectei a realidade que desejava? Francamente, francamente, eu estava à época profundamente empenhada no Portugal de então e aceitava como boas, fiáveis, as informações dos historiadores que chegaram até nós.

A informação que me chegava através do desenho era de um casal enamorado ou pelo menos de um homem enamorado e de uma mulher terna que se rendia à situação. E veja-se que Teresa era a mão esquerda de Henrique. A mão do coração. No lado oposto, vê-se uma barca, de céu azul e sonho. Tareja está grávida. Henrique envelheceu. O futuro vai chegar.

O Futuro ocupa a parte central com a figura da rainha Santa Isabel e do Conde D. Henrique, cada um a ocupar uma das faces de um cubo. A pedra da nossa fundação. Isabel entronca numa outra personagem, a Infanta D. Maria, que haveria de nascer no século XVI. E agora atrevo-me a dizer esta coisa louca, magnífica, fundadora, refundadora. A refundação de Portugal assenta em três personagens: a Rainha Santa Isabel, o conde D. Henrique e D. Maria, a filha de D. Manuel I. Uma trindade composta por uma santa, um guerreiro e uma mulher que ao reino de Portugal sacrificou o seu amor.


NOTA: Tudo isto vai ser considerado uma grande loucura. Eu também acho que é. A divina loucura. Não inventei nada. Recebi a mensagem. Estou a passá-la. Se não a aceitaram como possível, não faz mal. Fui eu que a inventei.

HOMENAGEM : Ao meu neto Francisco, a quem devo o impulso e o «know how» necessário para iniciar este blogue. 







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