Há cerca de quarenta anos, o meu filho mais velho, então com pouco
mais de dez anos, trouxe-me de presente uma pedra, que encontrara na areia de
uma das praias do Algarve.
Fiquei fascinada, creio que tanto ou mais do que ele. Aquela pedra tinha, em
baixo relevo, o mapa de Portugal. Não fora trabalhada por ninguém. Fora o mar
que a esculpira.
Guardo-a desde então como algo precioso. Foi o mais belo presente que o meu
filho e a natureza me deram. A Pedra de Portugal. E, reparem, do lado direito, ao alto, tem uma pomba!...
PORQUE OS PORTUGUESES
EMIGRAM
Eu amo Portugal. Amo esta terra, este sol, este mar. Não me imagino a viver em
outro país.
É com alegria que me recordo do orgulho que senti, em 1973, na chegada a Lisboa, de regresso de uma viagem aos Estados Unidos da América. O avião sobrevoava a capital, a preparar-se para aterrar. Foi então que se apoderou de mim um profundo deslumbramento.
No jogo suave da luz da manhã, Lisboa surgiu, aos meus olhos maravilhados, como a cidade mais bela do mundo. Durante um mês, nos EUA, a convite do Departamento de Estado, andei frequentemente de avião. Mudei de cidade de três em três em três dias, ou quase. Vi cidades magníficas, mas nenhuma que, do alto, tivesse a magia de Lisboa.
Lembro-me de ver os casebres então existentes perto do aeroporto, já o avião voava baixo, como uma nódoa, uma ferida na paisagem mágica. Existia e tem de ser referido, mas era apenas um pormenor no panorama magnífico do casario espalhado pelas setes colinas, a brilhar na luz límpida e fulgurante da manhã. A existência desses casebres, que não deixou de me magoar, não alterava, porém, o esplendor dessa visão mágica.
Nunca antes tal me acontecera. Nunca antes vira Lisboa na luz límpida da manhã. E foi pela primeira vez que me maravilhei por ter nascido neste chão, com esta luz a iluminar os meus dias.
Este deslumbramento fez-me perceber então a saudade dos portugueses espalhados pelo mundo.
Há semanas, ouvi, na televisão, um membro do Governo a incitar os jovens a emigrar, como forma de combater o desemprego. Foi terrível ouvi-lo. A minha primeira reacção foi desejar que o Governo, ele próprio, emigrasse colectivamente e depressa. Porque um Governo pode reconhecer a necessidade de emigração, mas o seu dever primeiro é o de fazer o seu melhor para que no solo pátrio os portugueses possam realizar todas as suas potencialidades. Terá sido realista, mas foi de muito mau gosto. Os jovens só devem partir quando o solo pátrio se tornou pequeno para o seu sonho. E cabe a eles reconhecer o momento certo. E muitos tinham já tomado essa decisão, sem que os responsáveis pelo destino do País tivessem que lhes dizer para o fazer!
É com alegria que me recordo do orgulho que senti, em 1973, na chegada a Lisboa, de regresso de uma viagem aos Estados Unidos da América. O avião sobrevoava a capital, a preparar-se para aterrar. Foi então que se apoderou de mim um profundo deslumbramento.
No jogo suave da luz da manhã, Lisboa surgiu, aos meus olhos maravilhados, como a cidade mais bela do mundo. Durante um mês, nos EUA, a convite do Departamento de Estado, andei frequentemente de avião. Mudei de cidade de três em três em três dias, ou quase. Vi cidades magníficas, mas nenhuma que, do alto, tivesse a magia de Lisboa.
Lembro-me de ver os casebres então existentes perto do aeroporto, já o avião voava baixo, como uma nódoa, uma ferida na paisagem mágica. Existia e tem de ser referido, mas era apenas um pormenor no panorama magnífico do casario espalhado pelas setes colinas, a brilhar na luz límpida e fulgurante da manhã. A existência desses casebres, que não deixou de me magoar, não alterava, porém, o esplendor dessa visão mágica.
Nunca antes tal me acontecera. Nunca antes vira Lisboa na luz límpida da manhã. E foi pela primeira vez que me maravilhei por ter nascido neste chão, com esta luz a iluminar os meus dias.
Este deslumbramento fez-me perceber então a saudade dos portugueses espalhados pelo mundo.
Há semanas, ouvi, na televisão, um membro do Governo a incitar os jovens a emigrar, como forma de combater o desemprego. Foi terrível ouvi-lo. A minha primeira reacção foi desejar que o Governo, ele próprio, emigrasse colectivamente e depressa. Porque um Governo pode reconhecer a necessidade de emigração, mas o seu dever primeiro é o de fazer o seu melhor para que no solo pátrio os portugueses possam realizar todas as suas potencialidades. Terá sido realista, mas foi de muito mau gosto. Os jovens só devem partir quando o solo pátrio se tornou pequeno para o seu sonho. E cabe a eles reconhecer o momento certo. E muitos tinham já tomado essa decisão, sem que os responsáveis pelo destino do País tivessem que lhes dizer para o fazer!
Na sua grande maioria, os jovens não querem ir-se embora. É legítimo que não queiram sair daqui. Amamos esta terra, este sol e este mar, percebam! São mágicos. Tão mágicos que inventamos a palavra saudade. Nenhum outro povo tem um termo que defina tudo o que abrange esta palavra. Acho que nasce connosco, com todos os portugueses, essa nostalgia de uma pátria plena, com mais do que terra, mar e sol. Partir é, de certa forma, desistir de alcançar o paraíso.
Agora, há que reconhecer que os Portugueses têm o fado de emigrar. Ao longo da nossa história, temos sido empurrados para fora do País. «Quantas viúvas choraram, quantas noivas ficaram por casar para que que fosses nosso ó mar”! – cantou o poeta. Foram os descobrimentos, a ocupação da terras e as persistentes secas, com pouco para comer. Tem sido uma fatalidade histórica esta crise endémica, que agora tem a forma do desemprego, dos mercados e dos especuladores.
Esta crise recorrente ao longo da História parece ter um propósito. Há alguns anos atrás, escrevi um livro em parceria com uma amiga, a biologia e investigadora Fátima Proença, falecida recentemente. Um livro sobre Portugal, ainda não publicado. Demos-lhe o título «Portugal --Templo de Sete Portas».
Foi uma aventura de meses, em que nos reuníamos, semanalmente, para inventar, sonhar, ver meditando a trama que teceu o País chamado Portugal. A efabulação é de ambas. A escrita, substancialmente minha. Coube a Fátima Proença, a quem presto homenagem, o privilégio de descobrir, sonhar, inventar as razões porque os portugueses emigram.
Em homenagem à sua memória, amiga querida, vou recortar do livro essa parte mágica.
ILUMINAR O PASSADO
COM A VISÃO DO FUTURO
OU O SOM DA PALAVRA FALADA EM PORTUGUÊS
«No dia seguinte pela manhã, Sulamita teve uma visão enquanto meditava no recanto da sua cozinha. Primeiro, viu um brilho que a chamava. Então, prestou atenção e viu as portas que encerram as sete virtudes de Portugal. E viu Portugal a elevar-se do chão.
-- Quando Portugal se eleva do chão deixa de ser matéria densa. Eleva-se e expande-se e ao expandir-se cobre o mundo todo. Esse é o Portugal Sol, cheio de luz.
Sulamita conta isto a Flor, mas todo o seu ser está interiorizado. As suas palavras, mais do que narrativa, são evocação.
-- A imagem é lindíssima. Está ligada às Sete Virtudes do Povo Português e às Sete Portas do Templo. O mais bonito de tudo é ver-se Portugal elevar-se do chão e perder a densidade material. Quando isso acontece, Portugal tem então a possibilidade de se expandir.
Calou-se por momentos, a reflectir. Então formula uma pergunta:
-- O que é que se expande? Será a Língua Portuguesa?
--É a Língua Portuguesa, mas não é só a Língua –, respondeu Flor.
Sulamita pareceu não ouvir. Prosseguiu:
-- O som da palavra em português já é algo material. Expande-se e pode cobrir o mundo. Pude ver, mas sei que ainda não está no agora. Está no Eterno.
-- E todavia vai ser agora –, disse Flor.
Sulamita continuou, porém, como se não tivesse ouvido:
-- Serão os meus filhos, os meus netos…
Flor pensa nas virtudes que é preciso recuperar em Portugal. Diz:
-- Chegou a hora de iniciar a abertura das portas. Temos de pensar nas virtudes que os portugueses tiveram no passado. Continuo a achar que a saudade é uma virtude, mas é a saudade do paraíso, não é a saudade lamecha cantada pelo fado.
-- A saudade tem de ser transcendida. Temos de passar do «pobre de mim, coitado» para o querer activo de recuperar as virtudes que se perderam e se reencontram no afã de as desejar –, disse Sulamita.
-- Pela saudade nos vamos transcender?! Perguntou Flor.
Sulamita calou-se para ouvir por dentro e continuou:
-- Já não é a saudade. Essas virtudes já estão a vibrar em nós, como se fosse já um transcender da saudade…
Olhou para a distância e acrescentou:
-- Alegrai-vos, homens! É chegado os tempos de serdes quem sois… O que no fundo é o reencontro connosco próprios.
Suspirou.
-- É como se tivéssemos estado adormecidos!
Enquanto Sulamita fala, Flor desenha o mapa de Portugal e assinala especialmente Lisboa. Depois escreve no papel para não se esquecer:
-- Lisboa é por onde Portugal fala.
Acrescenta uma frase, de que não percebeu a lógica:
«É Preciso Iluminar o Passado com a Visão do Futuro.»
Nessa mesma noite, Sulamita deitou-se a pensar em Portugal a elevar-se do chão. De repente, viu-se suspensa no espaço. Podia ver Portugal demarcado da Península Ibérica. Perguntou a si própria: «Quais são as virtudes que devem ser acordadas nos portugueses para que Portugal se levante do chão?» Então viu Portugal a ser recortado da Península Ibérica. Era como se alguém tivesse utilizado um laser de luz para fazer o recorte. Foi tão intenso que Sulamita foi ter com Flor no dia seguinte para lhe contar o que tinha visto.
-- Ainda estou impressionada. Vi a parte etérea de Portugal ficar mais leve e elevar-se. A seguir vi a própria superfície da crosta terrestre ficar menos densa e também ela se elevar. Então, vi Portugal a elevar-se e a ficar destacado de Espanha. A parte mais etérea, com a forma de Portugal, subiu como se fosse uma nuvem e começou a expandir-se. Eu já tinha visto isto anteriormente, mas não tinha percebido como é que isso acontecia, nem porquê. Foi-me dito agora que o que faz levantar Portugal do chão são as virtudes dos portugueses. Mas eu não sabia de que virtudes se tratavam. A resposta surgiu. Senti algo no cérebro como se alguém dissesse: «presta atenção!» Foi-me dito ou veio-me à cabeça para procurar os defeitos dos portugueses. «Procura os defeitos e, pelo oposto, encontrarás as virtudes.»
Sulamita ouviu isto e começou a ver muitos telemóveis.
-- Eram tantos os telemóveis, que tapavam Portugal por completo! Era como se Portugal fosse todo feito de telemóveis! Comecei então a ouvir um som que foi aumentando, que era a Palavra falada em Português, e cada região tinha a sua entoação que correspondia a uma das sete notas musicais. Havia notas e sub-notas. Não sei música, não posso explicar melhor. A certa altura, a mistura dessas notas passou a ser um som único, que era a Palavra falada em Português. Era como se o som de todos os telemóveis se tivesse fundido num só. O som tinha uma espessura etérea que cobria todo o Portugal, delimitando-lhe as fronteiras. Gradualmente, o som definiu-se numa só nota musical, com eco e vibração e Portugal elevou-se da Península Ibérica e começou a expandir-se como uma nuvem em movimento. As raízes de Portugal continuavam, porém, agarradas ao solo português e bastava olhar para baixo para ver, como num filme, toda a História de Portugal, desde Afonso Henriques, os reis, a implantação da República, Salazar, os cravos vermelhos… tudo em movimento…
Calou-se e, nessa altura, Flor teve a sensação de que Sulamita se tinha ausentado para o Lugar de Ouvir a fim de escutar de novo o Som da Palavra. Depois ouviu-a dizer, tendo na voz a energia da descoberta:
-- Comecei a pensar… é pela fala. É pela Língua!…
Flor ficou suspensa das palavras de Sulamita, enquanto ela contava o que viu nessa esplendorosa visão. Só conseguiu dizer:
-- Que belo! É tão belo… -- E olhou para o lado para que Sulamita não lhe visse os olhos marejados de lágrimas. Sempre o sublime será por ela celebrado com o orvalho da Emoção Pura.
Entretanto, Sulamita retomara a palavra:
-- Depois de ter descoberto que Portugal se elevava do chão pela Língua, percebi que a mistura da diversidade do linguajar das diversas regiões não só se tinha tornado num único som, mas que esse som correspondia a uma nota, que era a nota musical do Português. Então, o som da nota musical em Português começou a expandir-se pela Madeira, Açores, Cabo Verde, S. Tomé e Príncipe, Angola, Moçambique… O som base da Língua era o Português de Portugal, mas ao passar por cada região adquiria cambiantes e ganhava melodia. Era como se eu pegasse numa das cores do arco-íris e lhe fosse adicionando todas as outras cores, mas só até ao ponto de nunca desaparecer a cor utilizada como ponto de partida.
Calou-se, por momentos, para recuperar o fôlego e prosseguiu:
Flor estava suspensa das palavras de Sulamita e desejava, com Vontade, que o que a amiga dizia se estivesse a passar no Agora. O querer faz acontecer e ela quis. Quer. Então Sulamita disse, talvez para tornar mais leve a vibração que ressoava no escritório de Flor:
-- Quando descobri que Macau também tem uma nota, lembro-me de ter pensado: é uma nota de olhos em bico! A mistura das notas do Português falado pelo mundo cria uma sinfonia que, com essas notas, esses cambiantes, esses vários tons cobrem o Mundo. Ouvir os cambiantes das misturas, os intervalos de passagem de um som para o outro, é muito lindo! Sei o que ouvi e o que senti. O cérebro ficou como que suspenso, maravilhado, espantado…
-- A Palavra, dita dessa forma, é o Verbo Criador! – Exclamou Flor.
-- Falta nas Escrituras os cambiantes. O Som é um fazer do não fazer espiritual… Quando uma Língua for utilizada para dizer «faça-se», é um fazer não concreto, é um fazer do Novo Mundo. – E então Sulamita sorriu e disse: -- A minha Pátria é a Língua Portuguesa. Agora compreendo Fernando Pessoa…
Depois acrescentou:
-- Quando estou a Ver Portugal expandir-se, parece que sinto a mesma sensação que senti, em tempos antigos, quando me vinham falar das Descobertas. Isso vai voltar a Portugal!
Sulamita calou-se para poder voltar inteira ao Lugar de Sentir, sem se ter dado conta de que falara das sensações de um Outro Eu em Outro Tempo. E disse:
-- Paz, pão, saúde, vontade, intuição, sabedoria, alegria, serenidade e muito amor… --, mas não explicou a razão das suas palavras.
Inesperadamente, acrescentou:
--Temos de ir a Fátima.
Flor, que só esteve uma vez em Fátima, de passagem, sem ter conseguido apreender a magia que reconhecem ao lugar, disse simplesmente:
-- Vamos, quando quiser!»
Do livro inédito «Portugal - Templo de Sete Portas»
PORTUGUÊS: A NOTA MUSICAL
QUE RESSOA PELO MUNDO,
NO DIAPASÃO DA AFECTIVIDADE

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