quinta-feira, 26 de julho de 2012

Clara, Uma Irmã



ISABEL VERSUS CLARA, UM MISTÉRIO A RESOLVER

Encontrei num livro, já lá vão mais de 25 anos, a reprodução de um busto policromado da rainha Santa Isabel, talhado em madeira. Fiz uma fotocópia, que conservo, sem a anotação do título do livro.

A história começa aí. A folha do papel da fotocópia era pouco espessa. A imagem transparecia do outro lado e eu decidi sublinhá-la a lápis. Assim fiz. Ou julguei que fiz. Trabalho feito, quem eu tinha sob os meus olhos era a imagem de Santa Clara! E, à sua volta, outros rostos foram surgindo.

Quando coisas destas me acontecem, a primeira reacção é de surpresa. Depois, tenho palpites. Olha, disse para mim própria: não será que a Rainha Santa é a reencarnação de Santa Clara?

Como ninguém me respondeu, deixo em suspenso a questão. Afinal, somos um contínuo, a matéria é reciclada. E as almas prosseguem ou perseguem elas próprias um contínuo aperfeiçoamento. Então, a hipótese de uma ser a reencarnação da outra é muito possível. Provas? Não há. Não tenho, nem sei de certeza certa. Conto então o que pensei e me pareceu verosímil depois de ter desenhado vendo, à volta da imagem, as figuras que podem observar, uma das quais é a Rainha Santa muito nova. Sabe-se que Isabel tinha, aliás, uma grande admiração e devoção pela Irmã Clara. Adiante.

Pintei a determinada altura Santa Clara e a Rainha Santa no mesmo quadro, aliás um dos primeiros que mostrei. Hoje volto a falar de Clara para contar três sonhos que tive por essa altura e que continuam ainda a intrigar-me.


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UM SOL NA POEIRA DA ESTRADA


Eu estava em Assis e ia à procura de Clara e Francisco. Ia a caminhar por um terreno de terra batida e, de repente, vi um sol a brilhar no chão, sob a poeira que o tapava. Precipitei-me para o apanhar, mas ele desapareceu.

No segundo sonho eu estou de novo em Assis, na cripta de uma capela. Estou num pequeno aposento, deitada de costas. Sei que alguém está do meu lado direito, mas não o vi. Não sei quem era.
Vou receber uma iniciação.

Tenho o rosto voltado para o lado esquerdo. Está lá um frade, muito pequeno e magro. Eu conheço-o desta vida, mas ali ele é muito mais pequeno e curvado. Muito curvado. Tem uma caneca na mão e deixa o quarto para ir buscar água. Reparei que, quando saiu do quarto, desceu três degraus.

Não sei se o sonho parou ali. Não me lembro.

No terceiro sonho eu estou em Itália e quero visitar o convento onde viveu Santa Clara. Estou na entrada e peço para falar com a Irmã Clara. As freiras olham para mim e riem, riem muito. Volto a fazer o pedido e elas voltam a rir, como se eu estivesse a brincar com elas.


    

         

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CLARA E FRANCISCO DESENHADOS EM CARTAS



Comecei  a desenhar Clara com mais insistência em 1989. Numa das vezes, estava a escrever a um amigo. Guardo duas cartas, uma minha, a outra dele, em que Francisco é obviamente mais feliz com o caminho escolhido do que Clara.

Ela é uma menina fascinada pela paixão pelo divino que divisou em Francisco. Apaixonou-se pela capacidade de entrega desse homem, que foi capaz de amar o divino até ao despojamento total, até à nudez em público. Deve tê-lo visto despir-se para devolver as roupas ao pai. Acima de tudo, Clara amou aquela intensidade, aquela paixão. É um amor assim que ela quer para si. Ou pelo menos é um amor assim que ela quer partilhar.

Entretanto, à margem desta labareda de amor, que iria permitir uma renovação na Igreja Católica, ardem as fogueiras do Santo Ofício.

           

Sim, Francisco também ama Clara e admitiu até vir a desposá-la, mas rapidamente percebeu que o encontro entre ambos terá de se dar no divino. Ela poderá pressentir esta luta, mas não a sabe. Deixa-se levar, deixa-se arrastar, mas a escolha de Clara é obviamente Francisco e sofre, sofreu muito tempo sob o seu manto de freira. Sofreu até à transcendência, o que significa que valeu a pena a sua dor!


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A AMOROSA RENUNCIANTE


O que  deixa Clara? O conforto e o aparato de menina rica. Pintei dois quadros em que Clara se veste segundo a sua condição. Foi-me mostrado isso para que pudesse ver o aparato que deixou para trás.

Clara teve saudades da vida que deixou, do cabelo comprido, da pompa dos vestidos bonitos? Estou em crer que isso teria sido mais suportável se tivesse Francisco na proximidade. Tenho a sensação de que Clara gostaria de ter feito uma vida de beguina, gostaria de ter andado de terra em terra a pregar com Francisco, sei lá! Ter ficado encerrada numa cela, acho que não estava nas suas aspirações…

O engraçado é que entre as minhas primeiras esculturas havia uma de Clara com aspecto de menina rica. Um dia quis oferecer uma das estatuetas a um amigo e propus-lhe que escolhesse entre várias. Ele escolheu a de Clara, dizendo: «Esta menina vai gostar muito de ir passear!» Calculem! Nunca mais esqueci.

No seu confinamento, Clara descobriu a transcendência. Doente, sem poder ir assistir à missa, viu a missa na parede da sua cela. É por isso que é a padroeira da televisão. O engraçado é que me sinto muito próximo dela, por ter a possibilidade de ver na parede ou no papel estas imagens que vos mostro.

 A vida é verdadeiramente um grande mistério.


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Nota:
Boas férias. Para todos e para mim também. Em Setembro cá estarei, se o Céu achar por bem. Obrigada por me terem acompanhado estes meses, em que aprofundei e percebi melhor a mensagem recebida. Obrigada.




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