TAREJA É A CASA, O INÍCIO, A MÃE

Tareja e
Henrique entenderam-se. Parecem ter sido felizes, segundo as imagens que
desenhei e pintei ao longo dos anos. Foram um casal com interesses e objectivos
comuns.
Ela é bela,
sensual, «salerosa». Repare-se no desenho a tinta-da-china. Os elementos da
feminilidade estão representados: os seios, as pernas ou uma perna, com uma
meia bordada e com folhos. Sexy? Tudo isto misturado com o ter, a posse das
casas, das cidades. O Ter como pano de fundo. Há até um povoado murado, com a
forma de um coração. Invertido. É o jogo do Ter que joga este casal. E parece
ser feliz com isso. Tareja e Henrique estão a lançar os fundamentos de um País
com os primeiros tijolos. Afinal os tijolos com que cada um de nós se faz e
refaz, quando surge na Terra. Mas há um sonho a despontar no rosto de Tareja. E
doçura.
Ela é a
verdadeiramente a Casa, o início, a Mãe.
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A CONDESSA VIÚVA
D. Henrique
foi ferido numa batalha. Na cabeça. Vi-o quando modelei esta escultura, em
2001. Tive de repará-la em 2005. O barro não está cozido, não sei se vai
aguentar muito mais. Começou a abrir fissuras, que estou a tentar reparar.
Mostro-lhes primeiro
as costas da escultura. Está lá tudo. A Taça. O conde morto. A dor de Tareja. A
dor de uma mulher só e a determinação no olhar. O futuro que vai ter de
enfrentar.
Os anos
passam. Os filhos crescem. Afonso Henriques irá fazer porventura 20 anos. Já
não se contenta em assinar documentos com a mãe. Quer o Poder, que ela partilha
com Fernando Peres de Trava.
Uma coisa é
a ideia, o projecto. Outro a realização. Teresa tem dificuldade em ceder. O
condado é seu. Transmitiu-lho o seu pai. Há-de transmiti-lo ao filho. Quando
for tempo. Quem sabe se não conseguirá juntar a Galiza a Portugal?! Afinal, são
a mesma gente! A mesma língua… Só precisa de mais tempo. De mais algum tempo. Tem
Fernando Peres de Trava do seu lado. Tudo se tornou possível com esse aliado,
agora seu marido. Claro que se tiver um filho varão a situação pode
complicar-se, mas já não é uma menina e teve vários filhos e só um varão…
Afonso
conhece a firmeza e determinação da mãe. Com os seus bons modos e fina
delicadeza tem uma vontade de ferro. Nada a detém, quando julga ter razão. Já a
tentou convencer de que é tempo dele assumir a liderança do Condado. A
influência dos Peres de Trava está a tornar-se negativa. Os Nobres de Riba
Douro estão inquietos. Já nem querem contactar com ela. É tempo de ceder…
Ela não
cede. Considera uma afronta a avidez do filho pelo Poder. É uma afronta. Luta.
É vencida, em Guimarães. Presa, com grilhetas nas pernas. Amaldiçoou-o. Dizem
que amaldiçoou. Não sofreremos todos por isso. Por essa maldição transmitida ao
longo dos tempos?
Como
perdoar? Como esquecer? Foi essa a aprendizagem de Teresa ao longo dos séculos.
Como acolher de novo esse filho e amá-lo.
Acho que ela
aprendeu como fazê-lo. É pelo menos o que mostra a escultura vista de frente.
Tareja dança como uma sacerdotisa. Dança recebendo as energias dos Céu e
espalhando-as sobre Portugal. Ela voltou, deu-se a conhecer nas esculturas,
para que Portugal se cumpra. Para que Portugal abrisse e entregasse finalmente
o Graal.
Tudo isto é
um Sonho? Sim, creio que tudo isto é um sonho. Uma imaginação. O importante é
que o Porto do Graal se alargou a todo o Mundo. E o Ser Humano pode
colectivamente renovar-se e viver em plenitude a Idade do Ouro.

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