A MINHA FAMÍLIA EGÍPCIA...
Já falei da
Escola Nocturna, que ainda frequento, mas agora raramente me lembro das lições.
Não acho que isso seja muito relevante. O importante é que, na vida quotidiana,
se acabe por pensar ou proceder segundo as lições aprendidas no sonho.
Houve tempo,
porém, em que os sonhos eram muito importantes e alguns deles foram
especialmente marcantes. Vou contar um, que me chocou muito na altura, e se
mantém ainda muito vivo em mim.
Eu tinha uma
instrutora. Não me recordo como ela era. Se calhar nunca a vi. Recordo a sua
voz e os seus modos, que colidiram com a minha sensibilidade. Sempre pensei
que, do Outro Lado, tinham mais tolerância com as nossas fraquezas. Mas não, a
senhora era sabedora, eficiente, mas tinha pouca paciência com as minhas
sensibilidades.
No primeiro
sonho fui colocada em frente de uma chapa de metal, podia ser alumínio ou algo
parecido. Tinha a função de uma televisão, sem o aparato. Então, estando eu em
frente desse «espelho», vi começarem a correr imagens de crianças a brincar.
Nessa altura, uma voz começou a dizer:
«Quando na
XXX havia crianças…»
(Desculpem, não vou dizer o nome da região. Já
lá vão mais de 20 anos, não aconteceu nada, sinto que não devo lançar a inquietação
dizendo o local).
Ao ouvir
aquela frase entrei em choque, porque a ideia de não haver crianças em
determinada região só poderia resultar de um grande cataclismo. Comecei a
chorar. A minha instrutora parou imediatamente a lição, dizendo, indignada, e
talvez também com algum desprezo: «Estes intelectuais são impossíveis!» E
terminou a lição.
Supliquei-lhe
que continuasse e ela, perante as minhas súplicas, ao fim de algum tempo
decidiu recomeçar a lição, mas com outro tema: o Ka. A explicação tinha como
suporte uma múmia.
Actualmente,
nós, ocidentais, consideramos que o ser humano tem alma, corpo e espírito. No
antigo Egipto, chamavam a esses elementos respectivamente ba, ka e akh. Mas o
ka não pode ser identificado simplesmente com o corpo. A Wikipédia diz que o
«ka pode ser definido como um princípio ou elemento metafísico, imaterial,
invisível e volátil e de certa forma metafórico»…
Eu li
bastante sobre o assunto há muito tempo e, na altura, julgava saber o que esses
conceitos significavam, mas o que a instrutora me ensinou era totalmente
diferente. Não tinha nada a ver com o que eu tinha aprendido.
Eu estava
muito interessada na lição, de que não recordo nada mas, de repente, ao fundo,
vejo sentados, como se estivessem a assistir, um faraó, a mulher e as filhas,
que reconheci como sendo família. A minha família. Fiquei tão alvoroçada por
esse reencontro que corri para eles, esquecendo a lição e a instrutora. Desta
vez, ela não disse nada. Simplesmente acabou a lição e acho que desistiu de mim.
Seja como
for, desse sonho ou dessas lições trouxe recordações, que acabei por desenhar e
esculpir e agora vou mostrar.
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A CABEÇA DE ÍSIS É UM TRONO VAZIO
Vi a
belíssima cabeça de Nefertiti no Museu de Berlim, alguns anos depois deste
sonho. «A mulher mais bela de Berlim», foi assim que a apresentou, ao grupo em
que eu estava integrada, a intérprete-guia que nos acompanhava. Gostei tanto de
ver essa escultura que lhe dei destaque na reportagem que então escrevi.
Modelei, mais tarde, em 1989, um rosto de
mulher que, no lugar da cabeça, tinha um trono. Um trono vazio. Dei-lhe o nome
de Nefertiti, ainda que não tenha nem a beleza, nem o encanto da rainha egípcia.
Nem seja nada parecida. O estranho é que aquele trono tem a sugestão de dois
homens, um em cada lado. E ao esculpir a cabeça, uma frase surgiu repetidamente
no meu cérebro.
«A cabeça de
Nefertiti é um trono vazio. A cabeça de Nefertiti é um trono vazio…».
Esta frase
tinha uma ressonância profunda em mim. Mais tarde, numa série sobre a religião
egípcia, que está na Internet, «O OLHO DE HÓRUS», fui encontrar finalmente a
frase. É difícil saber em que episódio foi e são talvez doze, mas essa frase
continua a ressoar em mim, tendo eu a convicção de que não atinjo todo o seu significado.
Esqueci a explicação, que deve ter sido divulgada na série. Mas acho que
esqueci de propósito, porque o importante é que as nossas cabeças sejam eventualmente,
tronos vazios, até que finalmente nos recordemos. Então teremos a resposta.
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Andei dois
dias sem ter nada para acrescentar, o que não é habitual em mim. Ontem, fui
sair. Levava umas sandálias e… caí. Há muitos anos que não caio. Tenho uns
leves arranhões no braço direito, dores nos joelhos e… uma grande nódoa negra à
volta do olho direito, sem que o derrame tenha afectado a vista. Dói-me o
corpo, mas não é nada de cuidado.
Considerei
isto como uma chamada de atenção. Que é que eu não estou a ver? Que estou a
deixar escapar? Ou: o que é que eu não quero saber? Depois do pequeno-almoço,
voltei para a cama para pensar sossegadamente. Foi interessante recordar todas
as memórias que me ocorreram, ligadas às personagens de que me propus falar.
Memórias da minha história pessoal de agora ligadas a memórias vivenciadas no
Egipto por duas amigas minhas… Precisava de encontrar todos estes fios que
interligam os desenhos e as esculturas, que me foram dadas certamente para isso…
Comecei por
ir à Wikipédia para tentar encontrar a explicação para a frase «a cabeça de
Nefertiti é um trono vazio». E não encontrei nada que se adequasse. Então
lembrei-me de que o rosto não é parecido com o de Nefertiti e fiz a busca só
com a frase «a cabeça é um trono vazio». E a resposta apareceu no artigo «A
arte funerária do Antigo Egipto».
Não se trata
de Nefertiti, mas de Isis, que «usa na cabeça um assento com espaldar (trono),
que é um hieróglifo do seu nome». Os dois homens insculpidos nos dois lados do
trono serão então, eventualmente, Osíris e Hórus. O marido morto e o filho. Serão?
A minha
mente sabe muito mais do que eu.
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UM ROSTO QUE QUASE DESAPARECEU
O primeiro
desenho que fiz, a lápis de cores, foi a 21 de Julho de 1988. Acho que dei nome
desde logo a algumas das personagens. Outras continuam por identificar. Mas são
todas egípcias e viveram sob os desígnios do Espírito, como revela a pomba
pousada numa das personagens. Reconheço Nefertiti, Akhenaton, Cleópatra, bela
apesar do seu grande nariz, três casais que ainda não identifico e, do lado
esquerdo, em baixo, uma jovem muito bela, que será uma das filhas de Nefertiti,
a que casou com o pai.
Essa jovem
apareceu, em outra pintura, à esquerda de Nefertiti, ao alto, de novo muito
bela. O estranho é que, pintada com verniz das unhas, na mesma altura que o
resto do quadro, o seu rosto quase desapareceu. Pode haver uma explicação
racional?
Um dia
convidei uma amiga para almoçar e mostrei-lhe esse quadro. «Repare!», disse-lhe,
apontando para a figura hoje quase desaparecida. Eu não tinha nenhuma segunda
intenção.
Foi
para mim uma surpresa, um choque, uma coisa hoje engraçada, ela ter começado a desculpar-se,
explicando como aquilo acontecera. «Sabe, muitas vezes as miúdas apaixonam-se
pelo pai.» E quase pediu desculpa. Fiquei tão estupefacta que não reagi, ao
mesmo tempo que tudo aquilo me parecia verosímil e com sentido. Ela era ou
seria a filha de Akhenaton e Nefertiti, a que casou com o pai. Eu tê-la
convidado para almoçar também foi estranho. Era a primeira vez que o fazia. O
ter-lhe mostrado precisamente aquela pintura, porquê? E porque não outras? O
certo, certo, é que a imagem quase desapareceu e não me decidi reavivá-la.
Agora
reparem, este quadro foi pintado mais ou menos na mesma altura e com os mesmos
materiais, representando o que parecem ser Nefertiti, Akhenaton e outros
elementos da família. Que aconteceu? Nada. A pintura contínua intacta! Os
deuses lá sabem porquê.
Só mais um desenho, em que se repetem as
mesmas personagens, com a serpente e o maço. Não vou fazer especulações. Se chegaram
até aqui é porque têm alguma coisa a ver com esta realidade.
desenho a
tinta da china
Por fim,
quero mostrar a escultura de uma esfinge que, nas costas, tem o casal real já
referido e a mãe de Akhenaton…
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FOSTE MINHA FILHA NO EGIPTO
Tive uma
outra amiga que, quando ela surgiu na minha vida, lhe disse inopinadamente, no
terceiro ou quarto encontro: «Foste minha filha no Egipto!» Não sei porque lho
disse. Saiu. Nunca me tinha saído nada de semelhante, nem voltou a sair. Ela
não reagiu, só me disse que eu podia tratá-la por tu, mas ela não se sentia capaz
de o fazer.
Passaram-se
anos até que a minha amiga finalmente me falou da sua vida no Egipto. Contou-me
que se recordava de viver num palácio, mas não se lembrava quem eram os pais. O
importante é que, a partir de determinada altura, começou a sentir o apelo
irresistível do deserto, que a chamava. Um dia, conseguiu escapar-se sozinha e caminhar
para o deserto. Sabia que ia à procura de uma pirâmide. Uma pirâmide cujo topo
era revestido a ouro. Uma força atraía-a para lá. Aproximou-se e ficou parada a
olhar.
Então, uma
luz entrou na sua cabeça, iluminou-a. Por dentro era toda luz e via, via por
dentro, o indizível, mas deixou de poder ver o exterior… Alguém a reconduziu ao
palácio, mas o que lhe aconteceu mudou irremediavelmente a sua vida. E a vida
dos pais. Não se lembrava de mais nada.
É esta
história que me leva a especular se foi este incidente com uma das filhas que mudou
irremediavelmente a vida de Akhenaton e terminou com a «aventura» de Armana, pondo
fim à religião do Deus Único, que o casal real tentara implantar?
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MEMÓRIA COLECTIVA?
Estas coisas
passaram por mim, marcaram-me, mas deixaram-me sempre disponível para ser quem
sou, quotidiana e vulgar. É meu privilégio não ter uma vida monótona e
aborrecida. Estou muito grata por isso.
O que eu
aprendi com os segredos dos meus desenhos! Dou graças por todo este desafio e
afirmo-lhes que é possível, a todos nós, chegar à franja do nosso cérebro onde
está registada a história do mundo. Talvez nos sejam dados determinados
acessos. Talvez possamos escolher. Não sei como funciona. Acho que uma das
condições é a intenção firme de servir. Servir o outro revelando que a Vida é
muito mais larga e interessante do que aquilo que nos condicionaram a crer.
Agora, uma
observação: é possível que estas histórias façam parte do mundo onírico e que
haja muita mais gente no Planeta que tenha acesso a essa informação,
considerando-a como sua. Tratar-se-á da memória colectiva, que é também
património da Humanidade. Cada um vivê-la-á, segundo a grandeza da sua alma.
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