sexta-feira, 20 de julho de 2012

Um Trono Vazio



A MINHA FAMÍLIA EGÍPCIA...


Já falei da Escola Nocturna, que ainda frequento, mas agora raramente me lembro das lições. Não acho que isso seja muito relevante. O importante é que, na vida quotidiana, se acabe por pensar ou proceder segundo as lições aprendidas no sonho.

Houve tempo, porém, em que os sonhos eram muito importantes e alguns deles foram especialmente marcantes. Vou contar um, que me chocou muito na altura, e se mantém ainda muito vivo em mim.
Eu tinha uma instrutora. Não me recordo como ela era. Se calhar nunca a vi. Recordo a sua voz e os seus modos, que colidiram com a minha sensibilidade. Sempre pensei que, do Outro Lado, tinham mais tolerância com as nossas fraquezas. Mas não, a senhora era sabedora, eficiente, mas tinha pouca paciência com as minhas sensibilidades.

No primeiro sonho fui colocada em frente de uma chapa de metal, podia ser alumínio ou algo parecido. Tinha a função de uma televisão, sem o aparato. Então, estando eu em frente desse «espelho», vi começarem a correr imagens de crianças a brincar. Nessa altura, uma voz começou a dizer:
«Quando na XXX  havia crianças…»

 (Desculpem, não vou dizer o nome da região. Já lá vão mais de 20 anos, não aconteceu nada, sinto que não devo lançar a inquietação dizendo o local).

Ao ouvir aquela frase entrei em choque, porque a ideia de não haver crianças em determinada região só poderia resultar de um grande cataclismo. Comecei a chorar. A minha instrutora parou imediatamente a lição, dizendo, indignada, e talvez também com algum desprezo: «Estes intelectuais são impossíveis!» E terminou a lição.

Supliquei-lhe que continuasse e ela, perante as minhas súplicas, ao fim de algum tempo decidiu recomeçar a lição, mas com outro tema: o Ka. A explicação tinha como suporte uma múmia.

Actualmente, nós, ocidentais, consideramos que o ser humano tem alma, corpo e espírito. No antigo Egipto, chamavam a esses elementos respectivamente ba, ka e akh. Mas o ka não pode ser identificado simplesmente com o corpo. A Wikipédia diz que o «ka pode ser definido como um princípio ou elemento metafísico, imaterial, invisível e volátil e de certa forma metafórico»…

Eu li bastante sobre o assunto há muito tempo e, na altura, julgava saber o que esses conceitos significavam, mas o que a instrutora me ensinou era totalmente diferente. Não tinha nada a ver com o que eu tinha aprendido.
Eu estava muito interessada na lição, de que não recordo nada mas, de repente, ao fundo, vejo sentados, como se estivessem a assistir, um faraó, a mulher e as filhas, que reconheci como sendo família. A minha família. Fiquei tão alvoroçada por esse reencontro que corri para eles, esquecendo a lição e a instrutora. Desta vez, ela não disse nada. Simplesmente acabou a lição e acho que desistiu de mim.

Seja como for, desse sonho ou dessas lições trouxe recordações, que acabei por desenhar e esculpir e agora vou mostrar.



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A CABEÇA DE ÍSIS É UM TRONO VAZIO


Vi a belíssima cabeça de Nefertiti no Museu de Berlim, alguns anos depois deste sonho. «A mulher mais bela de Berlim», foi assim que a apresentou, ao grupo em que eu estava integrada, a intérprete-guia que nos acompanhava. Gostei tanto de ver essa escultura que lhe dei destaque na reportagem que então escrevi.


 Modelei, mais tarde, em 1989, um rosto de mulher que, no lugar da cabeça, tinha um trono. Um trono vazio. Dei-lhe o nome de Nefertiti, ainda que não tenha nem a beleza, nem o encanto da rainha egípcia. Nem seja nada parecida. O estranho é que aquele trono tem a sugestão de dois homens, um em cada lado. E ao esculpir a cabeça, uma frase surgiu repetidamente no meu cérebro.

«A cabeça de Nefertiti é um trono vazio. A cabeça de Nefertiti é um trono vazio…».

Esta frase tinha uma ressonância profunda em mim. Mais tarde, numa série sobre a religião egípcia, que está na Internet, «O OLHO DE HÓRUS», fui encontrar finalmente a frase. É difícil saber em que episódio foi e são talvez doze, mas essa frase continua a ressoar em mim, tendo eu a convicção de que não atinjo todo o seu significado. Esqueci a explicação, que deve ter sido divulgada na série. Mas acho que esqueci de propósito, porque o importante é que as nossas cabeças sejam eventualmente, tronos vazios, até que finalmente nos recordemos. Então teremos a resposta.

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Andei dois dias sem ter nada para acrescentar, o que não é habitual em mim. Ontem, fui sair. Levava umas sandálias e… caí. Há muitos anos que não caio. Tenho uns leves arranhões no braço direito, dores nos joelhos e… uma grande nódoa negra à volta do olho direito, sem que o derrame tenha afectado a vista. Dói-me o corpo, mas não é nada de cuidado.

Considerei isto como uma chamada de atenção. Que é que eu não estou a ver? Que estou a deixar escapar? Ou: o que é que eu não quero saber? Depois do pequeno-almoço, voltei para a cama para pensar sossegadamente. Foi interessante recordar todas as memórias que me ocorreram, ligadas às personagens de que me propus falar. Memórias da minha história pessoal de agora ligadas a memórias vivenciadas no Egipto por duas amigas minhas… Precisava de encontrar todos estes fios que interligam os desenhos e as esculturas, que me foram dadas certamente para isso…

Comecei por ir à Wikipédia para tentar encontrar a explicação para a frase «a cabeça de Nefertiti é um trono vazio». E não encontrei nada que se adequasse. Então lembrei-me de que o rosto não é parecido com o de Nefertiti e fiz a busca só com a frase «a cabeça é um trono vazio». E a resposta apareceu no artigo «A arte funerária do Antigo Egipto».




Não se trata de Nefertiti, mas de Isis, que «usa na cabeça um assento com espaldar (trono), que é um hieróglifo do seu nome». Os dois homens insculpidos nos dois lados do trono serão então, eventualmente, Osíris e Hórus. O marido morto e o filho. Serão?
A minha mente sabe muito mais do que eu.



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UM ROSTO QUE QUASE DESAPARECEU


O primeiro desenho que fiz, a lápis de cores, foi a 21 de Julho de 1988. Acho que dei nome desde logo a algumas das personagens. Outras continuam por identificar. Mas são todas egípcias e viveram sob os desígnios do Espírito, como revela a pomba pousada numa das personagens. Reconheço Nefertiti, Akhenaton, Cleópatra, bela apesar do seu grande nariz, três casais que ainda não identifico e, do lado esquerdo, em baixo, uma jovem muito bela, que será uma das filhas de Nefertiti, a que casou com o pai.

Essa jovem apareceu, em outra pintura, à esquerda de Nefertiti, ao alto, de novo muito bela. O estranho é que, pintada com verniz das unhas, na mesma altura que o resto do quadro, o seu rosto quase desapareceu. Pode haver uma explicação racional?


Um dia convidei uma amiga para almoçar e mostrei-lhe esse quadro. «Repare!», disse-lhe, apontando para a figura hoje quase desaparecida. Eu não tinha nenhuma segunda intenção. 

Foi para mim uma surpresa, um choque, uma coisa hoje engraçada, ela ter começado a desculpar-se, explicando como aquilo acontecera. «Sabe, muitas vezes as miúdas apaixonam-se pelo pai.» E quase pediu desculpa. Fiquei tão estupefacta que não reagi, ao mesmo tempo que tudo aquilo me parecia verosímil e com sentido. Ela era ou seria a filha de Akhenaton e Nefertiti, a que casou com o pai. Eu tê-la convidado para almoçar também foi estranho. Era a primeira vez que o fazia. O ter-lhe mostrado precisamente aquela pintura, porquê? E porque não outras? O certo, certo, é que a imagem quase desapareceu e não me decidi reavivá-la. 


Agora reparem, este quadro foi pintado mais ou menos na mesma altura e com os mesmos materiais, representando o que parecem ser Nefertiti, Akhenaton e outros elementos da família. Que aconteceu? Nada. A pintura contínua intacta! Os deuses lá sabem porquê.

 Só mais um desenho, em que se repetem as mesmas personagens, com a serpente e o maço. Não vou fazer especulações. Se chegaram até aqui é porque têm alguma coisa a ver com esta realidade.
desenho a tinta da china


Por fim, quero mostrar a escultura de uma esfinge que, nas costas, tem o casal real já referido e a mãe de Akhenaton…



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FOSTE MINHA FILHA NO EGIPTO



Tive uma outra amiga que, quando ela surgiu na minha vida, lhe disse inopinadamente, no terceiro ou quarto encontro: «Foste minha filha no Egipto!» Não sei porque lho disse. Saiu. Nunca me tinha saído nada de semelhante, nem voltou a sair. Ela não reagiu, só me disse que eu podia tratá-la por tu, mas ela não se sentia capaz de o fazer.

Passaram-se anos até que a minha amiga finalmente me falou da sua vida no Egipto. Contou-me que se recordava de viver num palácio, mas não se lembrava quem eram os pais. O importante é que, a partir de determinada altura, começou a sentir o apelo irresistível do deserto, que a chamava. Um dia, conseguiu escapar-se sozinha e caminhar para o deserto. Sabia que ia à procura de uma pirâmide. Uma pirâmide cujo topo era revestido a ouro. Uma força atraía-a para lá. Aproximou-se e ficou parada a olhar.

Então, uma luz entrou na sua cabeça, iluminou-a. Por dentro era toda luz e via, via por dentro, o indizível, mas deixou de poder ver o exterior… Alguém a reconduziu ao palácio, mas o que lhe aconteceu mudou irremediavelmente a sua vida. E a vida dos pais. Não se lembrava de mais nada.

É esta história que me leva a especular se foi este incidente com uma das filhas que mudou irremediavelmente a vida de Akhenaton e terminou com a «aventura» de Armana, pondo fim à religião do Deus Único, que o casal real tentara implantar?


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MEMÓRIA COLECTIVA? 


Estas coisas passaram por mim, marcaram-me, mas deixaram-me sempre disponível para ser quem sou, quotidiana e vulgar. É meu privilégio não ter uma vida monótona e aborrecida. Estou muito grata por isso.

O que eu aprendi com os segredos dos meus desenhos! Dou graças por todo este desafio e afirmo-lhes que é possível, a todos nós, chegar à franja do nosso cérebro onde está registada a história do mundo. Talvez nos sejam dados determinados acessos. Talvez possamos escolher. Não sei como funciona. Acho que uma das condições é a intenção firme de servir. Servir o outro revelando que a Vida é muito mais larga e interessante do que aquilo que nos condicionaram a crer.

Agora, uma observação: é possível que estas histórias façam parte do mundo onírico e que haja muita mais gente no Planeta que tenha acesso a essa informação, considerando-a como sua. Tratar-se-á da memória colectiva, que é também património da Humanidade. Cada um vivê-la-á, segundo a grandeza da sua alma.

Tendo sido ou não as personagens que recorda. Não tem importância. Somos quem somos, com toda a vida e sonho do Mundo nas nossas células. Há que ter a coragem de abrir o coração e a mente ao Universo.   

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