UMA
ROSA VERMELHA AO ACORDAR
Durante dez
anos, ao acordar, no tecto do meu quarto, havia sempre uma lindíssima rosa
vermelha.
Das
primeiras vezes que isso aconteceu, vivi o deslumbramento total. Fiquei a olhar
a rosa o tempo em que me foi possível olhar, sem fechar os olhos. Quando não
aguentei manter mais tempo o olhar fixo, fechei as pálpebras e, quando as reabri,
a rosa já não estava lá. Mas no dia seguinte, ao acordar, a cena repetiu-se e
no outro, no outro, durante dez anos recebi todos os dias uma rosa vermelha,
sempre a mesma, sempre diferente… Foi sempre assim e sempre desejei que pudesse
pestanejar, fechar os olhos e, quando os reabrisse, a rosa continuasse lá.
Lembro-me de
que, numa das primeiras vezes, o Ser que colocava a rosa no tecto, e que nunca
soube quem era, quis avançar com a mão e o braço para além do tecto, mas algo
deve ter falhado e a imagem desapareceu com estalidos muito fortes, como se a
energia que fora disponibilizada para o aparecimento daquela forma tivesse
rebentado, por qualquer razão. Talvez o ser, anjo ou alma desencarnada, não
tivesse experiência daquela situação de contacto entre mundos.
Nunca mais
vi a mão nem o braço do ser que me oferecia a rosa mas, anos mais tarde, estava
eu na minha casa perto do mar a fazer meditação, na salinha de estar, que dava
directamente para o meu quarto, quando abri os olhos vi a umbreira da porta,
que estava aberta, engalanada com rosas chá cor-de-rosa. A imagem manteve-se o
bastante para que eu a pudesse admirar. Não voltou a repetir-se.
Um dia
contei à minha amiga Fátima e ela disse-me que eu devia ter um namorado do
outro lado. Rimo-nos ambas, não tomando a observação a sério, mas agora, que
penso nisso, veio-me à ideia de que quem me oferecia as rosas deveria ser o meu
duplo, mas nessa altura ainda não considerava a hipótese do duplo,
Vai parecer
uma enormidade, mas fui eu que pedi para não receber rosas diariamente, tinha-me
habituado. A certa altura deixou de haver surpresa. Era certo. De manhã a rosa
lá estava no tecto. E eu deixei de sentir o sobressalto. Então pedi que só me
dessem a rosa quando eu tivesse feito algo de assinalável, para que pudesse
voltar a sentir esse êxtase. Essa alegria no iniciar do dia.
Assim passou
a ser. Assim é. Quando faço ou penso, ou descubro algo de novo, ainda que não
me tenha dado conta da importância, volto a receber uma rosa vermelha pela
manhã. E é muito bom. Aliás, confesso, há já algum tempo que comecei a sentir
saudades dessa rosa que me esperava sempre ao acordar… Descubro que era como se
fosse uma bênção. Que enormidades cometemos!
_____
UM BURACO NO TECTO DO MEU QUARTO
A certa
altura, comecei a ver, também ao acordar, um buraco redondo no tecto do meu
quarto. Perguntei a um amigo o que isso poderia querer dizer, mas ele não
respondeu ou não respondeu com clareza. Também já não era preciso. Era como se
eu estivesse a escavar esse buraco, para sair por ele.
De tempos a
tempos, por vezes meses, lá voltava eu a ver o buraco no tecto, que se ia
aprofundando.
Poderia ser para a minha alma subir directamente para o céu,
quando eu morresse… Não era relevante.
Passaram
anos. Um dia vi que o buraco redondo no tecto do meu quarto estava cheio de
luz. Pareceu-me óptimo. Enquanto estava em construção estava do meu lado
esquerdo. Agora está do meu lado direito, visto da cama.
Continuo sem
saber o que me pretende dizer, mas sei que está tudo bem. Poderei porventura
subir por toda aquela luz, quando chegar a hora…
_____
A ROSA MÍSTICA OU A
VIRGEM SOLAR
Sou mais de
«saber» do que de «ver». Os desenhos que fiz são projecções, não são visões.
Projecto no papel o que devo desenhar. Posso ver a imagem completa, mas a maior
parte das vezes vejo linha a linha ou sector a sector. Por exemplo, posso ver
um olho ou uma linha, um nariz ou uma cara. Nunca é igual e nunca sei ao certo
o que estou a desenhar nem o que o desenho me vai revelar. Isto para falar do
quadro em que pintei a Virgem Solar e porquê.
Há já
bastante mais de 10 anos, num exame de rotina, o médico descobriu que um dos meus
filhos tinha um nódulo num pulmão. Consultou vários especialistas e todos lhe
disseram que seria de vigiar, mas que para já não tinha importância.
A minha
nora, porém, insistiu que ele fosse operado. Os meus netos eram pequenos e ela
não queria correr riscos futuros. Marcaram a operação e eu soube que, naquela
data, o acto cirúrgico ia correr mal. Nenhum deles me quis ouvir e eu tive de
aceitar a sua decisão.
Então,
aconteceu:
O meu filho ia
ser operado no dia seguinte. Deitei-me, adormeci, o dia seguinte ia ser difícil
e eu tinha de estar com força para o que pudesse acontecer. Então, às duas
horas da manhã, fui acordada por um ruído insólito. Alguém serrava madeira!
Inimaginável. Levantei-me, com a sensação horrível de que estavam a serrar a
urna do meu filho. Nunca senti um pânico semelhante.
Andei corredor
sala, sala corredor, a tentar dominar a minha aflição. Sentei-me depois num sofá
para pensar e tentar controlar-me. Reconheci que não podia fazer nada. Tinha
que aceitar o que pudesse acontecer. Era minha obrigação tentar dormir, para
ter forças para enfrentar o dia seguinte.
Deitei-me
disposta a dormir. Mas, antes de adormecer, pedi que me fosse dado um sinal, se
tudo fosse correr bem. Fiquei a meditar, ainda deitada de costas, talvez
tivesse adormecido, mas despertei de repente, abri os olhos e, no meu quarto,
aos pés da minha cama, estava a Virgem Maria no meio de um Sol, a ocupar grande
parte do quarto, a olhar para mim. E eu, nesse momento, soube que tudo ia
correr bem. Não vou falar do que então pensei ou senti. São momentos demasiado
intensos e íntimos, que não comportam palavras.
No dia
seguinte, telefonei ao meu filho a dizer-lhe que tudo ia correr bem. E que era
provável que a operação fosse adiada.
A meio da
tarde, estava eu no jornal, recebo um telefonema do meu filho a dizer que a
operação fora adiada…
Anos mais
tarde, pintei este quadro em que tentei representar a Virgem Solar, como forma
de demonstrar a minha gratidão.
Esta a
história do quadro que hoje vos mostro.
Não tenham
dúvidas: o Universo é Mágico.
Esta é para
mim a imagem da MÃE.
A VIRGEM
SOLAR.
Ámen.
À MÃE!
Obrigada.
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