O SONHO DE ALGUÉM QUE ME SONHA
E se eu
fosse apenas o sonho
de alguém
que me sonha
sonhando
o meu
próprio sonho?
A ideia não
é minha. A forma e o ritmo são!
Agostinho da
Silva disse-me uma vez que o ser humano poderá ser apenas o sonho de alguém que
o sonha a sonhar o seu próprio sonho.
A ideia
pareceu-me genial. Registei-a em ritmo na minha memória: «Eu sou apenas o sonho
de alguém que me sonha sonhando o meu próprio sonho.» E se isto é verdade?
Porque possível é.
Creio que já
quase todos nós sonhámos que estávamos a sonhar, vivendo assim um sonho dentro
do sonho. Às vezes até acontece que uma parte da pessoa acorda dentro do sonho
e que a outra parte continua a sonhar, sabendo que sonha, numa ambivalência
estranha e, para mim, fascinante. Acreditem, isto é mesmo verdade, já aconteceu
comigo. A pessoa é ao mesmo tempo actor e espectador. Sabe que está a sonhar,
mas há uma parte de si que é capaz de observar o que sonha. Chegado aí, torna-se
possível orientar o sentido do sonho, aprofundando algo que se pretenda
conhecer melhor.
Há um
exercício que vem indicado em alguns livros: o da observação das mãos. Quando
uma pessoa vê as suas mãos no sonho, há a possibilidade de fixar nelas a atenção.
Conseguido isso pode, a partir das mãos, orientar o sonho para algo que deseje
saber.
Francamente,
não sou perita neste exercício. Muitas vezes vi as mãos no sonho sabendo que
poderia através delas «levantar voo», mas nunca consegui. Talvez me tenha
sempre deixado entusiasmar demais pela possibilidade e acabe sempre por
acordar.
Somos um
grande mistério! Deuses que, deliberadamente, esqueceram a origem, para melhor
vivenciarem o inesperado? Deuses apaixonados pelo Teatro da Vida, dispostos a
aceitar as contingências e dificuldades do acto de viver pelo gosto do
imprevisto? Imaginem-se ouvindo constantemente o coro dos anjos e a eterna
harmonia da música das esferas! Será isso o bastante para preencher a
eternidade?
Quem sabe se
o Ser Humano está tão apaixonado pela Vida, que até se deixe fascinar pela barbaridade
da dor! Não se diz que os Povos felizes não têm história? E não é que quando
tudo está a correr bem, de repente cometemos uma qualquer proeza que vai agitar
as águas da nossa vida e pôr tudo em questão?!
Porquê esta ânsia de algo
diferente, de algo maior, de algo que ainda não temos, não vivemos, não somos,
não amamos?
Somos todos
aventureiros do Espírito, não há dúvida! E quando dizem que poderá vir a dar-se
em breve grandes transformações no planeta, porventura cataclismos – que os há
sempre, com certa regularidade –, não é precisamente nesta altura que a
população mundial atinge o seu record máximo?! Porquê? Que paroxismos de
sensação procura o ser humano? E porquê a busca de sensações limite neste
esquecimento paradoxal? Ou será que só o esquecimento nos permite o livre
arbítrio? Se é que há livre arbítrio, digno verdadeiramente desse nome… Como
ouvi há muito anos, se estamos em Coimbra e queremos vir para Lisboa de
automóvel, podemos optar pela auto-estrada ou pela nacional, mas o ponto de
partida e de chegada são sempre os mesmos. É nestes parâmetros que se joga
aquilo que tanto apreciamos: a nossa liberdade?
Não será que
a liberdade não existe ou está comprometida à partida? Se nascemos com
determinado objectivo de vida, como podemos falar de liberdade se a força
interior que nos determina nos levará, com maior ou menor facilidade, pelos
trilhos que planeáramos seguir? E não será que a nossa felicidade ou bem-estar é
tanto maior quanto mais fiéis nos mantivermos ao propósito pré-estabelecido?
xxx
As
congeminações acima levaram-me ontem a pôr em questão o prosseguimento deste
blog. Com que direito levo até aos outros as inquietações e interrogações que
me restam? Em que medida isso pode prejudicar ou ajudar os que me lêem?
Adormeci tarde e acordei inclinada a prosseguir, sabendo que o leitor tem a
liberdade de não voltar a este espaço.
Entretanto,
apesar das minha interrogações, quero dar o testemunho de que a Vida é muito
mais vasta e rica do que o quotidiano das nossas histórias pessoais, entre
casa, afectos e trabalho e que, sim, é possível acordar de noite ouvindo a
música das esferas ou o ressoar dos sinos cósmicos. Só não sei porque me é dado
isto, quando apesar da idade contínuo rebelde e exigente?!
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UM SONHO TRÁGICO
Tive o
privilégio de visitar o Languedoc, de pisar a terra que outrora foi cenário da
epopeia trágica dos Cátaros. Os rostos que podem ver neste desenho recordam
alguns dos cátaros que morreram queimados, como heréticos, à ordem do Papa
Inocêncio III. O delegado papal, Arnold de Citeaux, deu a ordem: «Matem-nos a
todos. Deus saberá reconhecer os seus.»
Mostrei esse
desenho a um amigo. Disse-lhe: «Veja, está aí!» Ele olhou atentamente e depois
disse: «Há mais gente aqui, que também anda por aí…» Não perguntei quem.
A catedral
da cidade de Albi, onde se jogou muita da tragédia Cátara, tem o aspecto
exterior de uma fortaleza, mas no interior é, sem dúvida, uma das mais belas
catedrais que visitei. Tem dois extraordinários murais, já não me recordo se em
azulejo ou pintados.
Disseram-me nessa
altura que, depois da exterminação dos cátaros, a disposição interior da catedral
foi invertida. O altar-mor foi, a partir de então, instalado no lado oposto da
Igreja. Lembro-me que fiquei muito chocada, como se tivesse sido ali praticado
um acto de magia ou o exorcismo da antiga crença cátara.
O que mais recordo, porém, da cidade de Albi,
foi um episódio que se passou comigo e com a amiga que me acompanhava. Naturalmente,
passeávamos falando em Português.
A certa
altura, passou por nós um grupo de adolescentes, que pararam e nos perguntaram:
«Estão a falar Languedoc?» Reparem, o português pode ser confundido com a
língua antiga do Languedoc, a Língua dos Pássaros». Isto é: a Língua dos
Iniciados.
É esta a
razão porque, por muito que nos custe, os portugueses têm que se espalhar pelo
mundo. A razão próxima são as dificuldades do País, que existem, claro, mas que
poderiam ser superadas de uma forma mais rápida, sem esta sangria de jovens,
inteligentes, cultos, preparados, que estão a sair para o mundo, levando a
melodia da língua, com um poder que não adivinham, mas tem.
No princípio
deste monólogo, a 29 de Abril, sob o título «A Magia de Lisboa», reproduzi um
texto, (que retirei de um livro, possivelmente a publicar, não sei bem) que
fala da dimensão espiritual da nossa Língua. Peço-lhes que o releiam, se
tiverem tempo, e o tomem a sério. Trata-se de «iluminar o passado com a visão
do futuro ou o som da palavra falada em português.»
Um dia, ouvi
um brasileiro (descendente de portugueses) lamentar que o Brasil não tivesse
sido descoberto pela Alemanha! Nem lhe respondi, porque não merecia. Como é que
o Brasil teria aquela música e aquela doçura da língua, se tivesse sido
descoberto pela Alemanha? Os brasileiros seriam porventura mais eficientes, mas
menos amorosos e felizes, da felicidade que o dinheiro não pode comprar!
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O SONHO DO
ESPLENDOR
Deixo-vos
com o sonho do esplendor, esta visão de mundos que se interpenetram e
coexistem. A possível realidade de amanhã.


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