O ESPECTÁCULO SEGUE DENTRO DE MOMENTOS
Nunca simpatizei com o jornalista Paulo Portas, não
propriamente pelo que escrevia, mas pela sua capacidade de não estar nunca no
sítio onde os agentes judiciais o procuravam, para o convocar para o Tribunal,
por delitos de imprensa. Na minha perspectiva, isso pressupunha uma rede de
informadores que lhe permitiam escapar sempre às consecutivas notificações, até
que os processos prescrevessem… Considerei sempre isso como uma fuga à
responsabilidade. Ou o jornalista tinha a certeza do que noticiara, ou não tinha
e prejudicara terceiros sem provas. A fuga à responsabilidade foi a saída mais
fácil..
Ganhei alergia ao Primeiro Ministro quando o vi seguir
para o Teatro, com a mulher, onde cantou e riu, na noite em que, pela primeira
vez, anunciou ao País a mais dura das austeridades. Foi nessa noite que
descobri, pela primeira vez, que Passos Coelho era um político sem sensibilidade
humana nem social, com uma parcela acentuada de autismo.
Há dois anos que observo estas duas personagens nas
reportagens televisivas. Se lhes for possível revisitar as gravações das idas
semanais do Executivo ao Parlamento, reparem no tipo de relacionamento entre o
Primeiro Ministro e Portas, que sempre senti como um espectáculo confrangedor, em
que Portas era olhado com um misto de desprezo e ironia, a lembrar um
espectáculo de circo de facas afiadas. Metafóricas, claro! E nunca percebi como
Portas aguentava aquilo, nem exactamente porquê. Pelo gosto do Poder? Não me
constava que ele fosse tão masoquista. Sempre admiti que ele acabaria por
reagir.
Neste momento, os jornalistas estão a contestar a
demissão de Portas. Para mim, a surpresa é que a demissão só se tenha
verificado agora. E por quê? Porque nunca vi ninguém que tenha sido tão
humilhado em público como Portas foi pelo Primeiro Ministro. Humilhado,
desprezado, ironizado pelo jogo facial de Passos Coelho. Foi preciso ter uma grande
capacidade de encaixe para fingir que não se passava nada, para aguentar o
clamoroso desprezo evidenciado pelo Primeiro Ministro. A ideia que dava era que
Passos Coelho tinha Paulo Portas na mão, por alguma razão obscura. Passou a
constar depois que teria outras personalidades controladas, fosse isso verdade
ou não. A sua proximidade com espiões ter-lhe-à permitido conhecer alguns dos podres de certas individualidades?! Mas isto
são as borbulhas da má língua, a que tem de se dar o devido desconto.
Finalmente, Portas reagiu! Mais vale tarde do que nunca.
Talvez tenha percebido que o dossier que lhe fora encomendado não fora nunca
para ser aplicado, mas uma forma de o comprometer com o que corresse mal. Claro
que a tomada de posse da nova ministra das Finanças foi a gota de água que fez
transbordar uma vasilha demasiado cheia.
Com o pedido de demissão na mão, o Primeiro Ministro
resolveu declarar que não aceitava o pedido, como se isso fosse verdadeiramente
exequível. Entretanto, foi espairecer para Berlim. A continuação da comédia
bufa segue dentro de momentos. O pior é que os juros subiram, o Povo sofre e
Portugal continua parado. Esperemos que o programa mude dentro de momentos.
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OU CARDOS OU ROSAS, A ESCOLHA É NOSSA
Os Pobres voltaram a estender a mão nas ruas, como não
acontecia desde a minha infância. É horrível termos de nos confrontar com esta
calamidade.
Há um movimento em Portugal que se auto-denomina de «Os
Indignados». Hoje, quero juntar a minha à sua voz para dizer que não podemos
aceitar isto. Há suficiente riqueza na Europa para que possamos admitir que haja
fome nas ruas, porventura na casa ao lado. Há suficiente riqueza em Portugal
para que possamos aceitar que crianças se deitem de barriga vazia. Temos que
evitar que tal aconteça. Temos de despertar a nossa consciência social e
encontrar soluções. Porque há soluções e há trabalho para todos, se finalmente
se instalar uma revolução de mentalidades.
Ao contrário da política do horário de trabalho alargado,
o que é necessário é que a Europa defenda e aplique horários de trabalho de
cinco horas diárias, no máximo. Ou, como vi defendido em tempos, quando parecia
que avançávamos para uma sociedade mais justa, o estabelecimento de um programa
semanal de trabalho de três dias por semana. Esta era a forma encontrada, há 20
ou 30 anos, por alguns ideólogos, de uma sociedade futura onde haveria trabalho
e lazer para todos, e onde se promoveria sem açambarcamento a riqueza e
felicidade humana.
O egoísmo de alguns promoveu a concentração da riqueza em
10 por centro da Humanidade. Será que em consciência poderemos aceitar e
sancionar isso? Será que teremos de assistir aos desmoronar das sociedades para
que finalmente possa eclodir uma forma mais justa de viver?
Portugal, ao longo dos tempos, tem sido um cadinho onde o
futuro se experimenta. Não foi por acaso que abrimos o mar à Europa e
realizamos a viagem até ao extremo do mundo, como finalmente há pouco tempo foi
confirmado.
O que surgir agora aqui vai moldar o mundo dos próximos
séculos. Cuidado com o que permitimos que aqui floresça. Tanto poderemos
espalhar cardos como rosas pelo mundo. A Europa vai escolher. E nós com ela.
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