sexta-feira, 29 de junho de 2012

A Escola do Sonho



FREQUENTAR A ESCOLA DO SONHO


Francamente, não sei como se é admitido na Escola do Sonho. Sei que um dia me encontrei lá. Subi três degraus e ofereceram-me um vestido azul com grandes flores, um bocado espampanante…

O meu traquejo jornalístico levou-me a escrever uma entrada com todos os ingredientes capazes de prender a atenção. É uma técnica, que tem vantagens e inconvenientes. Por exemplo, como é que se é admitido/a na Escola do Sonho? Uma pessoa candidata-se? Que qualificações são necessárias? É exigido algum tipo de qualificações académicas? Deixei tudo isso de lado, porque eu própria não sei.

Admito, porém, que embora não sendo essencial, alguma formação escolar seja necessária, pela parte que o conhecimento académico possa ter na modelação do Ser. Estou em crer, porém, que não é determinante. Não são os diplomas que habilitam para a Escola do Sonho, mas o que cada um faz em si próprio com aquilo que aprendeu. E não se alvorocem, porque não há candidaturas conscientes. Acho que ninguém pode chegar lá, em vigília, e dizer: «Eu quero frequentar a Escola do Sonho».

Fui, portanto, uma noite, admitida na Escola do Sonho. Dormia, porventura sonhava, mas estava consciente. Subi três degraus. Sei que a subida desses três degraus é uma condição indispensável. Não se entra sem os subir. E como é que se chega a esses três degraus? Não sei.

 Ali estava eu, sozinha, disposta a entrar. Devia ter consciência do que estava a fazer. Não sei ao certo. Sei que subi três degraus e fiquei num grande espaço aberto. Não me recordo do mobiliário, se é que havia.
Então apareceu alguém. Não recordo traços, não recordo vestuário, nem recordo género, mas estou em crer que seria do sexo feminino. Esse alguém estava ali para me receber e para me dar as boas vindas, creio eu. O que efectivamente fez foi dar-me a roupa que eu deveria usar. Não era propriamente uma farda, mas algo personalizado, percebi mais tarde. Um vestido, azul forte, com grandes flores. Espampanante!

Achei o vestido horroroso e como, desde criança, sempre me deixaram escolher o que vestia, perguntei se poderia usar outro vestido. Aquele não me agradava! Disseram-me logo que sim. A minha anfitriã, com toda a boa vontade e gentileza levou-me junto de uma grande mesa, pejada de vestidos. E disse-me para eu escolher o que eu quisesse…

Quando a fartura é muita, a dificuldade na escolha é maior. Ninguém me apressou e eu lá fiquei, face a todos aqueles vestidos, atrapalhada com a dificuldade da escolha. Eu tinha uma ideia do que queria, ou mais precisamente, o que a circunstância exigiria que eu usasse. Um vestido discreto, de cores sóbrias, pensava eu, era o mais adequado à situação e à minha personalidade. Já não me recordo bem, foi há mais de 25 anos, mas acho que escolhi um vestido bege ou cinzento, ou castanho, e fui experimentá-lo. Ficava horrorosa!

Tentei outros e era a mesma tristeza, até que, finalmente, voltei ao vestido azul com flores, que era afinal o que me ficava melhor. E pronto, foi assim que, de vestido berrante, mas adequado à que eu era então, que dei entrada na escola do sonho para uma longa, muito longa aprendizagem, que talvez nunca tenha fim.


ENTÃO, ENCONTREI UMA CHAVE...


Tempos depois encontrei uma chave. No chão, na terra. Grande. De ferro. Parecia a chave da porta de uma igreja. Cismei algum tempo de que igreja seria, até que senti que era perseguida no sonho, que havia qualquer coisa que tentava desviar-me, mas passou.

Um dia, encontrei uma casa. A casa de que eu tinha a chave, soube ao vê-la. Eu faço muita cerimónia com as pessoas. Seria incapaz de entrar na casa de quem quer que seja, sem ter sido convidada. Eu tinha a chave daquela casa, onde poderia ir ler, descansar, estudar, o que quisesse, segundo me disseram, mas não tinha coragem de entrar lá, porque os donos não estavam. Não havia lá ninguém para me receber.

Eu ia até junto da casa, um palacete grande, com um lago e um repuxo! Ouvia-se a água a correr… Era muito convidativo, mas sem os donos presentes, que não me tinham convidado pessoalmente, eu não me sentia autorizada a entrar. Apesar do meu grande desejo, não fui capaz de entrar!

Então, após a cena se ter repetido várias vezes, um dia, parte dos muros que isolavam o palacete caíram, e eu passei a poder ver o jardim, a água a correr para um lago. O desejo de entrar era cada vez mais forte, mas sem os donos estarem lá era um abuso, eu não entrava. E não entrei.

Numa das noites seguintes, levaram-me a uma biblioteca. Mostraram-me especialmente uma estante, convidando-me a ir ali, sempre que quisesse, buscar livros para ler. Fiquei com o título de um livro, com vários volumes, que me interessou especialmente. Um dia passei por uma livraria e encontrei lá os livros. Comprei-os. Não necessitaria de esperar pelo sonho. Podia lê-los sempre que tivesse tempos livres.
O engraçado é que não cheguei a ler os livros, porque uma amiga pediu-mos emprestado e nunca mos devolveu. Não me importei porque, entretanto, soube que, ou já os tinha lido, ou já passara a fase em que era importante eu lê-los.

Acabei por arranjar uma casa. Naquele dia, ia ser a inauguração. Convidei uma determinada amiga para estar presente e fui esperá-la à entrada. A casa tinha um grande jardim, que terminava numa piscina. Para se chegar ao portão tinha, forçosamente, de se entrar na piscina e molhar os pés.

A minha amiga não quis molhar os pés. Disse-me que ia de volta e que mais adiante nos encontraríamos. Comecei a subir o jardim, que ocupava uma pequena encosta, à espera de encontrar a minha amiga mais acima, mas ela não apareceu.

Quando se inicia uma viagem iniciática, que, sei hoje, era o que eu estava a fazer, há sempre alguém que surge a nosso lado para nos apoiar, esclarecer quando fosse preciso, emprestar o livro adequado ao momento. Aliás, não tive um, mas dois amigos, o que, segundo um deles me disse, é raro isso acontecer.

 Então, o amigo a quem contei o episódio, esclareceu-me que era preciso molhar os pés para se poder entrar no Outro Lado. Disse-me até que há pessoas que têm de atravessar rios e águas caudalosas para poder chegar à outra margem. Não sabia nada disso. Já estava do outro lado, alguma preparação anterior teria tido para me deixarem entrar sem problemas.

Subi a encosta que levava à minha casa. Era uma espécie de capela, que teria sido porventura um lugar de culto. Eu gostava muito dela, mas lembro-me da minha indecisão quanto ao sítio onde ia colocar a minha cama.

Entrei e, então, de repente, na parece do lado esquerdo, um bocado acima do solo, vi uma porta. E soube que aquela era a porta que a minha chave abria! A indecisão de antes desapareceu completamente. Aproximei-me da porta, que já estava aberta. Levava a chave de ferro pousada nas minhas mãos abertas, levantadas à minha frente. E entrei.

Uma série de homens, sentados numa mesa em U, iam julgar-me. Julgar-me, porquê? Eu estava ali de direito. Tinha sido convidada! Não tinha dúvida nenhuma de que tinha o direito de estar ali. E sorri para eles!

O meu sorriso aboliu qualquer hipótese de julgamento. Os homens sentados sorriram para mim, abandonaram os lugares da mesa e vieram receber-me, acho que com alegria.

Creio que eram mais de doze, talvez vinte, ou vinte e dois homens vestidos com um estranho e, de certa forma, pomposo vestuário. Pareceu-me um vestuário ritual. Já foi há tantos anos que esqueci.

 Um desses homens de balandrau comprido era-me estranhamente familiar. Sentia que ele me conhecia muito bem e isso incomodava-me, porque conhecia-o, mas não me lembrava… Conhecia-o e ele conhecia-me, mas incomodava-me, porque senti que eu não tinha segredos para ele...

Lembro-me que fui depois introduzida numa outra sala. Duas mulheres vestiram-me um lindo vestido comprido, cor-de-rosa, de seda. E eu ficava muito bonita e elegante com ele. Quiseram então fazer-me um toucado com uma planta de cor branca, semelhante na forma à que tem a mulher de joelhos nos painéis de S. Vicente. Mas a planta movia-se, estava viva e era lindíssima e eu recusei, porque não quis que a cortassem, que ela morresse por minha causa. Então, uma das mulheres, inesperadamente, disse: «Está bem. Vais tê-la quando a mereceres!» Na altura não percebi a lógica, mas talvez tivesse recusado a oferta, porque não estava preparada para ela. Será?

A seguir foi-me mostrado o homem novo em construção. O corpo estava pronto, era muito belo, talvez mais alto do que é actualmente, de uma cor dourada. E de seguida levaram-me a uma sala, mais interior, e mostraram-me o futuro. Felizmente, esta parte esqueci, completamente. Seria talvez um fardo pesado demais!

Então desci, levitando, na capela que era a minha casa, e os meus amigos fizeram-me uma grande festa. E um deles disse-me:

«A partir de agora só está do lado do bem!»

E eu respondi, mais ou menos o seguinte: «Não. Eu aprendi que o mal é só o atrito que nos faz avançar!»

Tenho este episódio descrito com mais rigor, em outro local, mas não vou agora procurá-lo. Acho que o que descrevi dá em síntese tudo o que se passou.


A FECUNDAÇÃO DA LUA



Parei para me perguntar porque estou a contar isto. Será que a Humanidade no seu todo vai passar por este processo? Que sou uma das pessoas a quem cabe a obrigação de abrir caminho para que tudo seja mais fácil e simples? Será muito redutor dizer isto assim, porque cada um de nós no seu percurso está a abrir caminhos de luz, mesmo, ou sobretudo, quando atravessa a noite escura da alma.

Por essa altura, acordava de noite a ver o Sol. E trazer o Sol do sonho era sempre uma experiência que me parecia dilatar a alma. O Sol alternava com a Lua. Por vezes via o Sol. De outras vezes, via a Lua. Até que uma noite no firmamento, estavam do lado esquerdo o Sol e do lado direito a Lua, e o Sol lançava raios sobre a Lua. E eu acordei sabendo que o Sol tinha fecundado a Lua e fiquei com este conhecimento, sem me levantar questões, mas pensando que eu própria fora, de certa forma, fecundada na Luz.

Mais tarde pintei um quadro que mostram as três faces da Lua, a Velha, a Mãe, e a Adolescente, no grande mistério que é a Lua.

O sonho levou-me então à descoberta de outros planetas. Lembro-me especialmente de Saturno e do seu anel dourado. E de um Planeta que toda a sua aura era uma vibração de amor. Ali eu quis ficar ou voltar, mas só me deixaram ir lá uma vez. Talvez houvesse o risco de, na próxima, eu não querer mesmo regressar.

Então comecei a ver não só este Sol que nos ilumina e aquece, mas outros sóis. Até que me mostraram sóis em prateleiras. Aí eu fiquei zangada, porque achei que algum espírito zombeteiro estava a brincar comigo… E, durante muito tempo, o Sol deixou de iluminar as minhas noites.

O tempo passou e encontrei uma outra chave. Era de ouro e prata. Trouxe-a comigo durante cerca de vinte anos, sem saber para que servia. Até que um dia, inesperadamente, soube. E, como sempre acontece, quando se tem a chave e se encontra a porta, ou o que a chave abre, a porta ou o quer que a chave abre já está aberta…

Este é um dos segredos do caminho espiritual. Primeiro, tem de se encontrar a chave. Depois, tem que se encontrar a porta. E, quando se tem a chave, a porta já está aberta… Pode-se entrar.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

A Senhora do Graal




A PORTADORA DO GRAAL

Na adolescência desejei desenhar, mas rapidamente me deixei absorver pela paixão da leitura e pus de lado o desenho. Por volta dos 35 anos, voltei a querer desenhar, mas estava demasiada ocupada com o jornalismo e os filhos para arranjar tempo disponível. Finalmente, em 1987, essa inclinação reprimida impôs-se com toda a veemência.

 Foi nesse ano que comecei a ver no papel o que devia desenhar. Não se tratou do desejo vago das duas etapas anteriores. O que em mim me comandava sabia que não poderia ser de novo da mesma maneira. Tinha algo a transmitir e não o sabia. Então, usaram comigo (ou fui eu que usei?), a forma infalível de me prender, estimulando a minha curiosidade, o desejo de saber mais e a descoberta cuidadosamente doseada, com a expectativa contínua do que viria a seguir.

Dão-se rebuçados às crianças para fazerem algo que desejamos. A mim, davam-me uma história traço a traço, formando um todo coerente, que acabou por me introduzir numa aprendizagem que ultrapassava ou confirmava os meus conhecimentos. Foi uma aventura maravilhosa. Dela trago uma proposta diferente de contar a forma como surgiu Portugal.

Desenhei, projectando, pela primeira vez, a 12 de Maio de 1987. Talvez um dia recupere esses desenhos. Hoje quero falar, sobretudo, dos desenhos que me levaram a percorrer, pelo traço a lápis, no papel, os passos que destacaram o condado Portucalense da Galiza e reino de Leão, delimitando o espaço, ainda por preencher, como promessa de conquistas futuras…

Era um terreno desconhecido o que então pisava. Não sabia o que estava a desenhar nem se, o que desenhava, tinha algum sentido, mas estava tão entusiasmada, tinha tanta confiança no que iria sair dali que, poucos dias ou semanas depois, não sei ao certo, porque não anotei a data, desenhei uma bela representação dos protagonistas da fundação de Portugal: D. Teresa, D. Henrique e D. Afonso Henriques.
 Quando gosto de um desenho não tenho vergonha de o assumir… Claro, o aparte é um pedido de desculpa pela manifestação da minha alegria infantil!

 Foi esse o desenho que introduzi no início desta prosa. E nele vê-se que é D. Teresa, sem sombra de dúvida, o elemento que detém o Poder. Ela é a Senhora. A Grande Mãe a reunir a família (o futuro) no espaço do seu ventre. A PORTADOrA DO gRAAL.


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UM PROJECTO A GANHAR FORMA

Foi muito impressionante a minúcia com que desenhei o que, então, não percebia o sentido. Que significado tinha aquele amontoado de rostos minúsculos, dentro de certos limites, com um ou outro rosto a destacar-se, sobretudo um rosto de mulher? Quem seria aquele par, de ar arrogante, numa atitude de poder?
Não percebia, mas não desisti, e isso hoje parece-me exemplar e quase inadmissível no contexto da minha personalidade. Como é que eu me esqueci de mim, da minha vontade, dos meus quereres para seguir esse fio condutor que me levava não sabia para onde? Não percebia o significado desses sucessivos desenhos que saíam do meu lápis e que, depois, laboriosamente sublinhava a tinta da china. Estava verdadeiramente fascinada com essa margem do real de que não suspeitara e que me disponibilizava a recolher, ainda que não percebesse o significado, o sentido e a utilidade. Nunca me passou pela ideia desistir, porque sempre soube que a explicação viria aos poucos, conforme precisasse ou fosse altura de saber.

Os desenhos dos meses seguintes vieram dar significado ao que algo em mim estava a querer transmitir. Rapidamente, deixei de ter dúvidas. Eu estava a descrever a lógica do aparecimento do Condado Portucalense, a partir do Reino de Leão.

O condado é ainda e só um pequeno aglomerado de gente num território limitado. Mas logo a seguir ampliou-se, vai já até Coimbra e há já um projecto de conquista sublinhado pelas duas linhas ondulatórias que descem dos extremos do território, por um espaço que haveria de ser preenchido, tempo depois, por D. Afonso Henriques. Dois nobres, porventura os pais de D.Teresa, vigiam…


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DOIS SONHOS SIGNIFICATIVOS

Por essa altura tive dois sonhos muito significativos. Eu era Teresa e ia-me casar. Estava muito assustada e aflita. Talvez não fosse aquele o destino que escolheria para mim própria.
A noite de núpcias não foi tão terrível como temia. Adormeci. Acordei de madrugada com uma sensação de confiança e de esperança. Talvez o casamento não viesse a ser tão mau como temia. Depois senti que estava sozinha na cama. Levantei-me. Fui perguntar pelo conde D. Henrique.
Responderam-me que ele tinha partido para a caça. Deixara o recado de que talvez demorasse dias…

Tareja, deixem-me denominá-la assim, porque é o nome de que gosto, teve então uma atitude que não mais esqueci. Vestiu-se e pôs as chaves à cintura. Tinha-se tornado uma mulher, uma castelã, sem queixas nem perguntas desnecessárias.
O sonho terminou assim, com Tareja, menina de 14 anos, de repente mulher, profundamente só.

Ainda às voltas com os desenhos de Tareja, voltei a sonhar de novo com ela. E ela era eu. Estava em fuga, perseguida por um exército, quase a ser descoberta. Cheguei junto de uma ribeira e tomei uma decisão. Entrei na água e escondi-me entre a vegetação, numa das margens.

Passei ali toda uma noite. De manhã, o exército tinha desaparecido e eu pude sair da água. Eu, na pele de Tareja, para perceber a dureza daqueles tempos.
Havia uma aldeia próxima, Toda molhada, dirigi-me para a povoação. Quando encontrei gente disse: «Eu sou a mulher do conde D. Henrique!...»

Acordei com estas palavras e fiquei a pensar: «estou a ser induzida em erro. Então ela não se denominava Rainha?» Depois fui fazer as minhas costumadas investigações e descobri que Tareja, a D. Teresa, enquanto o marido foi vivo, se denominou sempre  por «mulher do conde D. Henrique», ao contrário do que eu julgava saber.
  
 Estes dois sonhos permitiram-me ganhar uma consideração especial por Tareja, uma mulher de rara formusura e inteligência, segundo as crónicas da época, teve o sonho de construir um país, em que o condado ficaria ligado à Galiza. Santiago de Compostela era uma, e talvez a mais importante, das razões.
Lembrei-me agora de que, numa das viagens que fiz a Santiago de Compostela, no livro que estava a ler fiz desenhos num livro de Tareja e a irmã e de Isabel de Aragão. O problema vai ser encontrar o livro. Vou tentar .   
    


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UM REINO PARA ACOLHER O GRAAL



Tareja, que tão mal tratada tem sido por alguns historiadores, é parte fundamental do sonho da fundação de Portugal. Um reino criado para acolher o Graal. Portu Gral.

 Como pano de fundo de tudo o que então aconteceu na Península Ibérica, há com certeza a ambição pessoal, que é quase sempre a primeira motivação de todas as acções humanas. Mas há também uma acção concertada, que a certa altura foi a componente mais forte, de construir, neste fim de mundo, que era então o território junto ao Oceano Atlântico, um nicho que pudesse acolher e insuspeitadamente preservar o Graal, Dois séculos depois, o mesmo território serviria para, com outro nome, manter a Ordem do Templo, que sobreviveria, sob a protecção de D. Dinis, com a designação de Ordem de Cristo.

Portugal foi o primeiro país a acolher os Templários e a oferecer-lhes território e bens. D. Teresa, em 1126, ofereceu-lhes, em Penafiel, a povoação da Fonte de Arcada e, dois anos depois, o Castelo de Soure, na condição pública de colaborarem na conquista de terras aos mouros. Isto é de uma rara prodigalidade, quando só nesse mesmo ano, o Papa aprovaria a Ordem do Templo. Aliás, D. Afonso Henriques entrou para a Ordem do Tempo, em 1129.

Dito isto, pergunto: como posso afirmar que D. Teresa foi, no seu tempo, a portadora do Graal? Verdadeiramente, como jornalista, não posso. Não tenho provas. Documentos. Embora os documentos também possam ser falsificados. Como cheguei a esta certeza? Pela única forma que nunca terei a possibilidade  de provar. Cheguei lá, vendo e desenhando o que vi.

 Podem rir, se quiserem. Se eu estivesse do vosso lado de certeza que compartilharia da vossa incredulidade. Talvez até dissesse: «É uma lunática!» Mas não estou do vosso lado e não vou continuar a esconder, a sonegar toda a informação que recebi. Não tenho esse direito.

Não me faz mossa nenhuma o quer que pensem de mim. Antigamente, cortavam a cabeça ao mensageiro, não é?! Pronto, posso reconhecer que, como testemunho, o que acabo de dizer não vale nada. É como se fosse uma linda história da carochinha… D. Teresa, a Tareja, enquanto no seu ventre faz a gestação de um País, é a guardiã do Graal. Que ficou no território mais de oito séculos. Um território que se manteve quase sempre em paz, enquanto a Europa viveu consecutivas convulsões. Não foi um privilégio? Essa Paz dever-se-ia acaso à presença do Graal?...

Portanto, é como tudo se passasse ao nível do sonho. A expressão artística surge quase sempre do mundo onírico, não é? Mas, verdadeiramente, tudo é um sonho. A vida que vivemos. A personalidade que temos. Os amores que amamos. As personagens que pintei, os desenhos, as esculturas, como testemunho real, nada valem. São expressões da criatividade humana. Acreditem somente no que lhes diz o coração.


sábado, 16 de junho de 2012

Cleópatra e a Lei dos Ciclos



TUDO COMEÇA E TUDO ACABA



Uma Civilização é um organismo vivo. Como todos os organismos vivos cumpre sucessivas etapas de evolução. Não surge do nada. Algo a faz eclodir no sonho. Tudo é sonhado antes de aparecer na manifestação. É sonhado por Deus, digamos, ou é sonhado pelo Homem em determinada etapa da sua evolução. E surge sempre de um par, fruto do sonho e da acção. Só um desses elementos não chegaria para que, por exemplo, o sonho tomasse forma. E a forma sem sonho seria descoordenada, sem alicerces, condenada a esboroar-se rapidamente. A desaparecer.
Vejo uma civilização como uma dança. Uma dança de pares. E, enquanto o par se mantem, desencadeando o aparecimento de novos pares, a civilização floresce e propaga-se. Mas para que tal aconteça tem de ter uma alma, isto é, um sonho. Só o sonho faz avançar.
    O guerreiro pode conquistar territórios, mas a lei da espada está mais perto da destruição do que de um novo começo. Só a Lei do Amor fecunda e faz a planta, as pessoas e as civilizações florescerem.
Como estamos a atravessar um tempo mágico, o solstício de Verão, em que, segundo a crença popular, andam ninfas e fadas à solta na noite mais curta do ano, decidi falar dos ciclos. Quando um ciclo termina outro começa. O que se lhe segue surge com uma vibração mais elevada. Diria que o fim de um ciclo culmina com a integração de uma aprendizagem. É a época do exame e da passagem a outro patamar O que vem a seguir deverá ser de uma oitava mais elevada. É o que espera a humanidade que vem após o fim deste Kali Yuga, a época que acabamos de terminar.
 O novo ciclo começa sempre pela Idade do Ouro e, ao fim de cerca de 25 800 anos, passa para a Idade da Prata, depois para a Idade do Cobre, terminando de novo na Idade do Ferro, ou Kali Yuga, aquela que acabamos de deixar. Entretanto, passaram-se, mais ou menos, cerca de 65 mil anos. Pelo menos é o que afirmam os gnósticos, na peugada do conhecimento milenar da Índia,
É estranho, não é? Em termos humanos, pensamos que caminhamos para a perfeição. Com o passar do tempo, tal como uma obra de arte, por um cinzelamento contínuo, por um aperfeiçoamento contínuo, o ser humano acabará por atingir a perfeição. Creio que há um certo consenso acerca disso.

                     
A TEORIA DAS IDADES DO MUNDO

A Teoria das Idades do Mundo defende, porém, uma evolução que passa sempre pela involução. O ser humano parte de um dado nível de perfeição, como Adão e Eva no Paraíso mas, à medida que o casal iniciador mergulha na matéria, começa a afastar-se do divino. Ao experimentar-se, decai, mas essa queda vai permitir-lhe elevar a vibração da matéria mais densa. No fundo, inicia a matéria no caminho do espírito. É como um sacrifício, um sacro ofício. Desce para que a matéria densa se espiritualize. É isso que me leva hoje a pensar que não há pecado algum a redimir. E que não há castigo, mas uma escolha. A escolha do espírito que se faz carne para transformar toda a criação em Luz. Poderá ser assim?
Posso dizer isto de muitas maneiras. Por exemplo, que o ser humano se ofereceu para fazer uma peregrinação na Terra e que, pela sua caminhada,  arrasta consigo toda a criação. Claro que à medida que se experimenta na matéria vai decaindo e mergulhando na densidade. Isto é, na imperfeição. Entretanto, acumulou muitas e variadas experiências. Enriqueceu-se no erro e na dor. Será assim? Eu estou a especular, mas isto é possível, não acham? Já pensaram que muitos dos santos foram anteriormente grandes pecadores? Será que a sua perfeição deriva de eles terem visto «a luz na pedra», e o que aprisionou outros na densidade, permitiu-lhes perceberem, soltarem-se e adquirirem ou readquirirem a vibração primordial?
Estou em crer que está ao alcance de todos a memória primordial. E a força para olhar a luz, ainda que se fique cego, a força para enfrentar a verdade do ser. O que aconteceu à maior parte de nós é que nos deixamos aprisionar no Ter. Fascinados, carregamos o fardo do Ter e esquecemo-nos de SER. Esquecemo-nos da magnificência que cada um de nós é. Esquecemo-nos que somos Deus, filhos de Deus, partículas vivas da divindade. Esquecemo-nos? Houve tempo que a sensação de esquecimento caiu sobre mim como uma montanha. Sufocada vivi o drama horrível do esquecimento. Eu tinha-me esquecido. Tinha-me esquecido do que fui. Do que sou!


UM DIA ACORDEI NO SONHO…

 Um dia acordei no sonho. Era eu, mas não tinha corpo. Ou não sentia o corpo. Estava mergulhada no Grande Oceano. Ligamos a ideia da água ao Oceano. Talvez fosse água. Não tenho a certeza. Era o Grande Oceano de Energia. O grande Oceano do Conhecimento. Nunca tinha ouvido falar sobre isso, nem lido. Nesse Oceano do Conhecimento eu era uma partícula. Ao mesmo tempo que partilhava de todo o conhecimento, eu mantinha o meu sentido de individualidade. Eu era eu, o nome não tinha importância, era eu plena no Ser e no Conhecimento.

A minha amiga Fátima Proença, de quem já uma vez falei e que, há meses, se passou para o Outro Lado, teve um dia uma experiência semelhante, mas parece ter ido mais longe. Terá passado por uma fase de integração no Todo, em que a memória do que se foi, do que se é, deixa de ter importância e o Ser atinge uma indizível plenitude, em que será Tudo. Ou Nada.

Agora, mais uma informação. Para quem não sabe, e segundo a Wikipedia, «Kali Yuga é um termo sânscrito que significa a Idade do Vício. Escrituras como o Mahabharata e o Bhagavata Purana apresentam Kali Yuga como uma era de crescente degradação humana, cultural, social, ambiental e espiritual, sendo simbolicamente referida como Idade das Trevas, porque nela as pessoas estão tão longe quanto possível de Deus».
 O Kali Yuga, porém, já terminou, segundo Sri Aurobindo, um mestre indiano, com vasta bibliografia. Eu li «A Mãe» e outros pequenos livros da sua autoria. Já os li há muitos anos, mas pareceu-me então verdadeiramente um sage. Em resumo, e de acordo com outros autores, teremos entrado já na Idade do Ouro, em que a Terra inicia uma nova era. A ser verdade, a Nova Terra será habitada somente por homens justos… E, como aparte: não é preciso acreditar, mas não faz mal nenhum pensar que tal vai acontecer. Segundo o que li, também há muito tempo, quando se atinge uma massa crítica de pessoas que pensam de determinada maneira, esse pensamento espalha-se velozmente e passa a ser aceite pela maioria. Eu acredito profundamente nisto.                          
 O Universo é Mental. É um preceito de sabedoria. Podemos construí-lo ou destruí-lo pelo pensamento. Não foi pensando que se chegou à bomba atómica e a esta organização desumana em que vivemos? Um pensamento de minorias, para favorecer minorias, que levou à delapidação do Planeta. Ou mudamos o pensamento, o que significa mudar a nossa relação com o Planeta ou, não tenham dúvidas, estamos na iminência de grandes catástrofes e não de uma mudança pacífica de civilização. Que, de uma forma drástica ou gradual, se vai verificar. A decisão pertence ao Planeta Terra, que é um Ser consciente. É a Mãe Terra quem vai decidir quando e quais serão as mudanças que vão voltar a construir na Terra o Paraíso.  
Seja isto uma utopia ou não, há o alerta dos Cientistas. A Terra corre perigo. Neste momento, está a decorrer, no Rio de Janeiro, até dia 22 próximo, a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável. Não se esperam grandes alterações, porque os interesses instalados são tão poderosos, que não vão permitir que se vá além das boas intenções. Infelizmente, vai ser o Planeta a decidir o que convém à sua sobrevivência. Oxalá consigamos aprender. A tempo. Se ainda estamos a tempo.
 Aparte: posso entregar-me a grandes especulações, mas continuo com os pés bem assentes na Terra. Que muito amo.



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O BARRETE FRÍGIO E UM SORRISO ENIGMÁTICO
         

Nada de especial me liga a Cleópatra. Não me lembro de ter qualquer fascinação pela sua figura. Todavia, considerei que poderia ser Cleópatra uma das primeiras personagens que surgiram no barro, em 1987, quase em simultâneo com as figuras da Santa Clara e da Rainha Santa Isabel. É provável que esse busto tenha sido feito antes, porque o barro é de má qualidade, comprado aqui no bairro, antes de ter ido a uma das casas da especialidade no Bairro Alto. Não registei a data.
O barro era de tão má qualidade que começou a esboroar-se, mesmo depois de cozido e, para não perder a estatueta, tive de a isolar com tinta de vidro. No mesmo dia em que a modelei, vi surgir das minhas mãos uma perturbante figura, com um estranho sorriso e um ainda mais estranho barrete. É uma figura inquietante, que tem um segredo, que não esconde, mas também não pretende revelar. É mefistofélica, sem dúvida. Nunca me atrevi a pô-la no meu quarto…
Parei de escrever, porque me ocorreu que deveria tentar descobrir, na Wikipédia, se existe alguma informação sobre aquele barrete. Porque sobre o sorriso será mais complicado…
Eis-me na busca e… Oh, meus Deus! Acabo de encontrar a explicação de algo que me intriga há mais de vinte anos! Porque mantive durante tanto tempo este enigma? Talvez porque só agora merecesse a explicação ou simplesmente porque só agora tive necessidade dela…
O barrete existe. É o barrete frígio, considerado o barrete da liberdade, e está ligado ao deus Mitra, um deus de uma religião de mistérios, solar. O cristianismo terá recuperado algumas das suas práticas e contribuído para o desaparecimento dessa religião. Isto, em linhas gerais. Podem fazer a busca na mesma fonte a que recorri. Há muita informação disponível.

Sinceramente, estou-vos muito grata por serdes o pretexto que me levou a tentar saber o que me pretendia dizer esta personagem, que há tantos anos me acompanha e só agora finalmente se revela! Acho que ela me confirma nas minhas características solares e me reporta para o mistério que acabara de se abater sobre a minha vida. Tenho-lhe um certo respeito, mas continuo a mantê-la à distância. Talvez um dia venha também a ter informação sobre isso.

É curioso que esta personagem de barrete frígio, com um sorriso que prenuncia o Conhecimento, tenha surgido ao mesmo tempo que a primeira estatueta de uma mulher de poder. Tomei-a como a efígie de Cleópatra. Será? Ia escrever que não é, mas pousei-a na mesa do computador e estou a senti-la. É Cleópatra, com o barro estalado, mas de uma grande dignidade nas suas muitas feridas. Olho-a, tem o estigma do Poder, mas não posso deixar de gostar dela.


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A MARCHA DE TRÊS GRANDES GIGANTES


Esta é outra das imagens de Cleópatra. Reparem no rosto de homem que exibe na testa. É o perfil de Júlio César, que a encontra adolescente e, de certa forma, contribuiu para que ela se tornasse na grande mulher que viria a ser. Ele é a estrela que a guia, de perto ou de longe, vivo ou morto, como se fosse a sua alma gémea ou o seu par cósmico, a existir. Marco António viria a ser porventura a paixão e a festa dos sentidos ou, simplesmente, a espada que ela precisava a seu lado.

Um dia peguei numa cartolina de 67 por 35 centímetros e comecei a desenhar no extremo do lado esquerdo, em baixo. A desenhar não sabia o quê. Aos poucos, começou a surgir, ante os meus olhos, a epopeia que é a vida desta rainha, desenhada a tinta-da-china, como sendo a marcha de três gigantes. Ainda hoje me espanto com a intrincada teia da vida e morte das três personagens, que continuam a mexer com a nossa imaginação.



Por muito fabulosas que estas personagens tenham sido, francamente, ainda hoje não sei porque as desenhei tão minuciosamente. Vieram dar-me uma mensagem, que ainda não consegui decifrar. Será que me querem dizer que tudo acaba, tanto a máxima grandeza como a mais humilde e ignorada pequenez? Tudo se dilui no tempo. A civilização e os seus protagonistas…Talvez um dia desapareça também a memória de quem foram e do que sonharam.

Não é este, porém, o desenho da vida de Cleópatra de que mais gosto. Mas um que fiz numa folha A4, que me fala de Cleópatra, do Nilo, de felicidade. Comecei a pintá-lo com lápis de cor, mas a meio desisti e senti que era para ficar assim. A minha mão recusou-se a continuar.

A vida desta mulher é um drama não essa coisa leve que o lápis de cor poderia transmitir. Não concordam? É o drama do Poder, o drama de uma civilização vencida, o drama de uma mulher que se recusa ser passeada em Roma como um troféu e resolve morrer como rainha e sacerdotisa. O drama do Poder vencido e de um País subjugado, que vai entrar por um longo caminho de esquecimento de si próprio e da sua grandeza. O drama da morte cíclica de civilizações, que se renovam em outros locais, com outros heróis e outros costumes. Mas nenhuma civilização nos deixou uma memória tão grandiosa como a civilização egípcia, nenhuma teve um sistema de crenças tão completo e complexo como era o seu sistema religioso. Ainda hoje deveria ser estudado. Teríamos muito a aprender com ele.


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TRÊS HOMENS E UMA MULHER



 
Octávio, imperador romano, não foi mais um dos amores de Cleópatra. Todavia, foi um dos primeiros que insculpi, ainda sem saber quem era nem o que me pretendia dizer.
Não será essa a estatueta que mostrarei, pelo menos por agora, mas uma das últimas que modelei. Nela vemos o imperador Octávio, com o rosto de Cleópatra na sua túnica, rendida, amorosamente rendida? Não, ele exibe na sua túnica o Egipto 
dominado e a morte de Cleópatra como troféu. O que ele certamente não realizou…


Antes de falar disso, porém, quero mostrar Júlio César com a jovem Cleópatra, ávida e curiosa, num dos lados e, no outro, já amadurecida e doce. Uma mulher, que é também rainha, foi confirmada por esse velho guerreiro, a quem chamavam o homem de todas as mulheres. A frase completa é mais escabrosa, mas não a vou repetir. 


Depois, o ainda jovem Marco António, que se perdeu de amores por Cleópatra e se deixou cegar por ela. Ela amou-o? Certamente, mas inteira, ciente da sua grandeza e das suas responsabilidades. Amou-o, sim, mas o seu amor primeiro era o Egipto. Sempre foi o Egipto. Com Júlio César, esse amor ampliou-se e englobou o mundo. O casamento do Egipto com Roma para conquistar o mundo, foi essa a sua ambição. Ciclicamente surgem novas expressões de um sonho idêntico, em outros locais.
   
Por fim, mostro Octávio, mas agora visto de costas. Octávio, o vencedor, que tem no seu manto Cleópatra, como despojo de guerra. Octávio não sabe, talvez não o chegasse a saber durante a sua vida, mas foi ele que imortalizou Cleópatra, ele que a sacralizou e legou para a posteridade a sua memória. Foi ele, contra todas as suas intenções, quem nos legou Cleópatra tal como a conhecemos, a mulher que se faz morder por uma víbora e morre como rainha, como sacerdotisa e deusa do seu Povo. Ainda hoje, mais de 2000 anos decorridos, ela continua a ser a rainha do Egipto que mais gente conhece e admira. A outra é Nefertiti.   


sábado, 9 de junho de 2012

As Montanhas Também Andam




LOREMINA: A SÍLFIDE DA MONTANHA

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Caminhamos na horizontal. Talvez em direcção ao Sol. Em direcção à Luz. As pedras caminham na vertical. São mais lentas do que nós, mas dirigem-se decididamente para o alto. Surgem no interior da Terra e iniciam a sua lenta ascensão, erguendo-se. O que vemos da montanha foi o que primeiro surgiu no ventre da Terra e depois se foi erguendo, cada vez mais alto. O topo da montanha é, de certa forma, a sua cabeça. Aliás, o Povo refere o cabeço da montanha. O cabeço. Em contraponto à nossa cabeça.

Nunca teria realizado desta maneira este pensamento se, na alvorada da minha descoberta, não tivesse desenhado montanhas com rosto humano. Montanhas a andar. Montanhas com nome. Loremina. Foi a montanha que mo disse. Como? Não, não ouço vozes. A minha mente é sossegada. Descobri esse nome, no fundo do desenho, como uma assinatura.

Vivo no maravilhoso, mas com os pés bem assentes na Terra. Como é isso possível? Não sei. Só sei que é. Nunca faço uma nova descoberta sem que realize uma investigação, tentando perceber como cheguei lá. Perceber continua a ser um passo fundamental da minha peregrinação. Uma peregrinação pela memória das minhas células. Será? Pergunto-me muitas vezes: será que tresli? E divirto-me com a hipótese. De resto, tenho uma vida bem organizada. Contínuo a fazer almoços semanais para os meus filhos, noras e netos e vou ao restaurante, de vez em quando, para variar. Sou uma mulher solar.

 Apesar dos acidentes de percurso, acho que tive uma vida rica, variada, com o quanto baste das contrariedades necessárias para me lançar em novas etapas e me obrigar a evoluir. Somos todos muito comodistas. Se pudéssemos, nada mudava e acabaríamos por morrer de tédio… Mas também é preciso dizer, de vez em quando, à Vida: faça favor de não exagerar…

Vou explicar como Loremina aconteceu na minha vida. Na aurora da minha descoberta do desenho, vi-me a humanizar repetidamente a pedra. E certa vez houve que, na base do desenho, apareceu escrito, no rebordo da imagem, um nome: Loremina.
 Obviamente, eu não pensara escrever um nome, mas somente respeitar a sinuosidade da linha que via no papel. E a linha escreveu-se a si própria.

Nunca vira tal palavra. Fui ao dicionário, já com umas décadas, e não encontrei a expressão. Da mesma raiz, porém, deparei com Lorelei, as sílfides da água. Embora o meu dicionário não registasse a palavra, passei a admitir, desde então, que as sílfides da montanha se chamavam Loremina e, com esse nome, passaram, para mim, a ter uma existência real. Não as via como imagem à minha frente, mas via-as no desenho. Nem me punha a questão sequer de não haver a possibilidade de não existirem. Nem isso era verdadeiramente relevante.

O mundo é mágico e cada um de nós vê a realidade que seleccionou e achou adequada para si. Já mostrou a alguém um objecto que lhe seja querido e lhe perguntou o que via nele? O que o outro vê assemelha-se acaso ao que vê nele, ao que no fundo ele representa para si? Somos todos diferentes, felizmente, e há tantas realidades quantas as pessoas. Claro que existe uma franja que, quando ultrapassada, nos pode isolar naquilo a que chamamos loucura. Mas se essa franja não for ultrapassada, a realidade será sempre um consenso.

 Eu admito que o leitor vê aquilo que eu vejo, mas a verdade é que vê aquilo que eu vejo, o mesmo objecto, com a sua sensibilidade, a sua cultura, a sua experiência de vida e até com o perfume que permanece em si dos amores que viveu. Não é poesia, é a verdade do Ser. Só que raramente temos ocasião de pensar nisso.

Nos últimos 20 anos vivi com a imagem de Loremina, como sílfide da montanha. É uma imaginação minha? Será, mas para mim tem existência real. É um ser diáfano, um ser do ar, que faz vibrar um sino muito leve, como aqueles que imaginamos nas histórias infantis. Existe? Para mim existe, assim como todas as outras Loreminas que desenhei na "rocha", apaixonadas pelo infinito, a caminhar para a sua libertação.
É estranho que os dicionários só falem das Lorelei, ninfas das águas, que atraem os homens para a perdição…


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A ACÚSTICA DAS PEDRAS

O Cromeleque dos Almendres

 
Fui um dia, ao Alentejo, entrevistar o escultor João Cutileiro. Quando combinamos a minha ida a Évora, pelo telefone, ele aconselhou-me: «Venha um pouco mais cedo e, se ainda não conhece, vá visitar o Cromeleque dos Almendres».

Segui o seu conselho e, na mesma viagem, em vez de uma só entrevista, trouxe também material para uma grande reportagem sobre o cromeleque dos Almendres. Talvez um dia fale deles. E, já agora, mostro uma foto desse lugar mágico, construído há mais de cinco mil anos, por homens, nossos antepassados, que sabiam muito mais dos segredos das energias telúricas, do que oficialmente se sabe hoje. E digo oficialmente, porque, quando o Google começou a referenciar a Península Ibérica, nos mapas territoriais do Planeta, descobri que as fotos tiradas do ar revelavam as linhas telúricas que atravessam Portugal. E hoje, embora aparentemente os mapas sejam mais nítidos, só mostram casas e estradas…

No dia em que fui a Évora, visitei não só o cromeleque dos Almendres, mas aproveitei também para visitar uma gruta perto do local.  
A Pedra do Poder
 Quando chegámos, junto da gruta, na carrinha do Diário de Notícias, o sistema de comunicações do carro, que se tornara silencioso logo a seguir à passagem da Ponte 25 de Abril, começou de novo a falar. E ouvimos a voz do Celso, então chefe da secção de serviços, a contactar os carros em reportagem. Quer dizer, a energia dos rochedos à nossa volta ampliava a capacidade do sistema de comunicação do veículo.

 Admiti que fosse a mica das rochas que conseguisse esse prodígio Foi esse o dia em que descobri que as pedras também podem comunicar. Ou que, pelo menos, podem ampliar o sistema que permite a recepção da voz… Ou, ainda mais especificamente, a mica que existe em determinadas pedras, consegue ampliar a capacidade do sistema de comunicações. O que para mim foi um espanto. E um deslumbramento. Seria por isso que os povos antigos utilizavam aquele e outros locais semelhantes para comunicar com os deuses?

Afinal, a mica talvez também facilite a nossa comunicação com os deuses…
Nesse dia, nessa gruta, vi uma imagem antropomórfica, num dos rochedos: um cavalo suspenso, que parecia um animal xamânico e que seria ou não apenas rocha… Tudo isto perto de um altar, escavado na pedra…

Em resumo, nesse dia tomei contacto com um mundo mágico, a poucos quilómetros de Évora e, afinal, também muito perto de Lisboa, a grande cidade, onde nada disto importa, talvez…



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UM PERCURSO PELA PEDRA



Fisicamente, somos de carne, nervos e sangue. Todos viemos do Alto. Isto é, todos somos deuses que vieram experimentar-se na matéria. Nenhum de nós é mais do que o outro a seu lado, ainda que, na aparência, existam profundas diferenças sociais. Contudo, isso não passa da máscara. Isso é o jogo que combinámos jogar, umas vezes sendo nós o senhor, outras o escravo, para que a nossa alma registe, em sabedoria, o que é esta ausência de sentido, este modelo desligado da origem. É esta a aflição em que estamos. Mas já foi pior.


Os meus desenhos ensinaram-me como tem sido este percurso terrível, esta espantosa aventura que vivemos, em que, apesar de tudo, mesmo na mais profunda densidade, não esquecemos a origem. Na pedra, o Ser levanta os olhos para uma qualquer divindade que imagina e ganha forças para andar. Andando perde densidade, abre espaços interiores, ligações novas, que imagina, de si para si, construindo-se. É o primeiro passo para o regresso.
O segundo passo é o da relação próxima com o outro, os outros. Já com espaços de liberdade e expansão, permitindo que o Ser se individualize, se estruture, coexistindo o denso com a matéria mais leve. Seres ainda xistosos, que podem a todo o momento esboroar-se, mas que tendem para a unidade em si mesmos.



O terceiro passo traz o par e a vida em grupo, guiada por uma qualquer divindade, onde os seres se projectam e se reconhecem, no regresso ao Um. É esta verdadeiramente a grande, a espantosa experiência humana. O espírito que penetrou a matéria densa e através dos milénios consegue recuperar a memória de quem foi e, sobretudo, de quem é. Esta é verdadeiramente a grande aventura humana. Todas as outras, mesmo as viagens pelo espaço, em complicados aparelhos, são meras aproximações. Porque, e esse é o grande segredo prestes a desvelar-se, tudo está disponível. Depende somente do grau de vibração do ser humano. Os que atingirem o grau adequado conseguirão, finalmente, «da lei da morte» libertar-se, como pretendia o nosso grande épico, Luís Vaz de Camões.




   

sábado, 2 de junho de 2012

O Parto do Futuro



O PLANETA TERRA ESTÁ EM TRABALHO DE PARTO

Vesica Piscis: uma imagem sagrada


O Planeta Terra entrou, há já alguns anos, em trabalho de parto. De Parto do Futuro. Esta realidade tonou-se presente em mim, com toda a força da evidência, na altura em que pintei um quadro prenunciador, em 1991. Há 21 anos. Esse quadro foi, de certa forma, o corolário de uma revelação.

Eu era ingénua. Ainda o sou e acho que vou conservar essa característica até ao meu último suspiro. Só a minha ingenuidade, aliás, me dá forças para revelar tudo isto. Também sou destemida, o que leva a um efeito arrasador.

A propósito, ou despropósito, não sei bem, ocorreu-me um episódio que se passou comigo, em 1975, depois da revolução dos cravos. Eu trabalhava no jornal «República» e, nesse dia, as instalações do jornal foram ocupadas pelos tipógrafos, que não consideravam nem a direcção nem os jornalistas suficientemente à esquerda… De uma assentada pretendiam afastar-nos a todos.

Durante uma noite estive, com os outros jornalistas e direcção do jornal, sequestrada na sala da Redacção. Ficámos lá a noite inteira, com milhares de pessoas, na rua, a apoiar-nos. Eu chorei, só que as pessoas não souberam porque chorava. Chorei porque soube então, desta maneira fulgurante com que de repente sei coisas, que não voltaria a entrar naquela Redacção. E não voltei. Nenhum de nós voltou.

Nos dias seguintes, houve manifestações à porta do jornal. Nunca mais esquecerei a reacção inimaginável que tive num desses dias. Eu estava à porta da tipografia e havia um grupo de pessoas a fazer barreira junto à porta, para que ninguém entrasse. Gente que não fazia parte do grupo de trabalhadores do jornal.

Talvez eu me tivesse aproximado demais, talvez tivessem receio de que eu forçasse a entrada, embora não fosse essa a minha intenção. Nessa altura, um rapaz, talvez de 18 ou 20 anos, avançou para mim, de matraca enfiada nos dedos da mão. Não fui eu que reagi, foi o meu corpo. E disse-lhe, apresentando-lhe o meu rosto: «Bate, só se morre uma vez!»

Não chegou a bater. Alguém o puxou para trás e ele desapareceu na multidão. Não me lembro do seu rosto, só dessa frase, dita por mim, e que ainda hoje me surpreende.

Afinal, morre-se e nasce-se milhares de vezes. Eu não o sabia então. Ainda o não sabia. Estava a preparar-me no jogo da vida para ter condições de o saber. O que, aliás, só aconteceria em 1986, gradativamente, até que me fosse dado um novo olhar. Mas já então não tinha medo de morrer.

 Quando pintei o «Parto do Futuro», não sabia o que estava a pintar, como aliás sempre acontece, quando pinto ou desenho. Sabia o óbvio: que estava a pintar um parto mental, que se realizava dentro da Vesica Piscis, uma figura geométrica sagrada. Que eu ligava então exclusivamente ao peixe, com que os primeiros cristãos se identificavam. O gigante que, do lado direito do quadro, guarda algo dentro de uma barca, desde o início que considerei que ele estava a proteger a semente do futuro, ainda frágil. Isso sabia.

Só hoje, acreditem ou não, a fim de me sentir mais à vontade para escrever sobre este quadro, fiz uma investigação na Internet sobre a Vesica Piscis. E descobri que é não só o que eu já sabia, mas muito mais. Eis o que trago como informação:

«A Vesica Piscis simboliza a união de Deus e da Deusa para criar uma prole. É um símbolo de reconhecimento usado pelos primeiros cristãos. Foi utilizada como auréola, em escultura, na Idade Média. Representa a vagina da deusa. É o motivo básico da Flor da Vida e uma sobreposição da Árvore da Vida. É ainda uma descrição geométrica da raiz quadrada e proporções harmónicas. Finalmente, é uma fonte de imenso poder e energia.»

Não estou assustada, porque já pouca coisa me assusta, mas sinto-me muito pequena face a tudo isto. E, de certa forma, irresponsável porque, há alguns anos, ofereci este quadro e hoje descubro que era um quadro de que não me devia ter separado.

O pintor Lima de Freitas trouxe um dia a minha casa o físico teórico Besarab Nicolescu, para que eu o entrevistasse sobre a transdisciplinaridade, que Besarab pretendia divulgar no nosso País. No final da entrevista, Lima de Freitas deu uma volta à sala e parou bastante tempo frente ao quadro que agora vos mostro. Achei estranho e perguntei-lhe porquê. E ele respondeu-me: «Fiz um quadro semelhante nas últimas semanas…» Não cheguei a ver esse quadro, mas ele era pintor. Deve existir e ser muito melhor do que o meu.

Finalmente, observem a pintura. Reparem que se trata de um parto, um parto mental, que se processa na cabeça da deusa. E isso passa-se tendo, a encimar a Vesica Piscis, o rosto de D. Teresa, a mãe do primeiro rei de Portugal. D. Teresa, reparem, tem, sobre a sua cabeça, uma Pomba, símbolo do Espírito Santo…

São muitas pistas para seguir. E narro tudo isto enquanto Portugal sofre um dos períodos mais negros da sua história.  Ouvem-se e lêem-se as notícias sobre o Governo e não se sabe se há alguém em quem se possa confiar…

Será que Portugal tem de passar por tudo isto, para que, finalmente, cumpra a sua missão? Para onde o querem arrastar? Estamos a descer muito baixo. A promiscuidade das secretas com um ramo da maçonaria e os grandes negócios fazem-me desejar que esta gente seja rapidamente corrida.

Rapidamente, rapidamente, rapidamente! E quem mantem o sentido de honra no Governo que se demita ou se pronuncie. Não vão querer que o seu nome fique ligado a estas trapalhadas.

E já agora vou lembrar o dia em que ouvi o então candidato a Primeiro-ministro, Passos Coelho, na televisão, chamar mentiroso a Sócrates. Disse-o com tal convicção, que admiti que houvesse alguma verdade na sua afirmação.

Tenho assistido ao seu comportamento e agora vi-o, junto de crianças, a ensiná-las a utilizar a voz. E percebi: ele aprendeu a utilizar a voz e a dar veracidade às suas palavras. É um bom actor, mas está a ficar cansado. E nós dele. Já não engana ninguém.


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A FECUNDAÇÃO DO PLANETA


Há um quadro que não posso mostrar. Ofereci-o, ao então director do «Diário de Notícias, Mário Bettencourt Resendes, como recordação, em vésperas de deixar o jornal. E não fiquei com nenhuma fotografia.

Gostei de pintar esse quadro, mas sei que não era facilmente compreensível. «Que significa?» -- perguntou-me. E eu mostrei-lhe os espermatozóides de fogo a descer do Céu e a fecundara Terra. Era óbvio, mas não era espectável que eu pintasse algo de semelhante.

Sim, num tempo próximo. o Planeta Terra foi fecundado. Primeiro, foram os terramotos em diversas partes do planeta, numa frequência não habitual. Depois vieram os grandes furacões. A seguir, foram as grandes tempestades e inundações. Os tsunamis. Por fim, o despertar dos vulcões em várias partes do mundo. Um a um, os quatro elementos entraram em convulsão. A fecundação da Terra verificou-se antes ou depois disso? Eu registei-a antes.

O ciclo das grandes catástrofes está, porém, a renovar-se. A última revista Science & Vie, já de Junho, tem como chamada de capa a repetição dos megassismos. E faz esta pergunta bombástica: «A Terra enlouqueceu?» Eu digo-o de outra forma: a terra entrou em trabalho de parto. Que preferem? O Planeta vai expandir-se… Talvez sejamos apanhados nessa convulsão. Alguns ou muitos de nós. A Terra vai dar à luz o futuro, o seu e o nosso. Será um  planeta renovado, que vai oferecer às novas gerações. Iniciando, desta maneira, a Nova Idade do Ouro, uma era de criatividade, da descoberta do Um no Todo e o Todo no Um. Mas todas as mudanças de Ciclo são problemáticas…

Quem quiser que pense que tudo isto não passa de especulações! Se calhar têm razão. Ao certo, ao certo, que sei eu? Nada. Só o que os desenhos me dizem e posso estar a fazer especulações incorrectas. Antes de tomarem posição, ouçam a vossa voz interior. Todos a têm. Muitos abafam-na na obsessão do trabalho, no álcool ou na balbúrdia dos cabarets. Ao fazê-lo estão a ser infiéis a si próprios, que é a verdadeira e total infidelidade, de que todas as outras decorrem.



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A MÃE DESCEU DE NOVO À TERRA


A Mãe é una, constituída por um conjunto de seres...

Hesitei bastante antes de me decidir a publicar esta pintura, por muito tempo inacabada. É a descida da Mãe celeste de novo à Terra. Simplesmente, o seu corpo é formado por diversos corpos. A Mãe desceu ou está a descer com múltiplos rostos e múltiplas personalidades e porventura em múltiplos lugares da Terra.

Pode ser que seja uma invenção minha. Como posso eu ter a certeza do quer que seja? Simplesmente, o desenho ou a pintura surge. Houve até tempo, muito tempo, que me recusei a pintar. E há muito tempo que deixei de querer projectar imagens no papel. Se estou desprevenida, projecto ainda imagens na parede, mas isso afasta a tentação de passar o lápis por cima. Afasta a tentação de fixar no tempo o que é intemporal. Só o voltarei a fazer se sentir que voltou a ser importante. Se sentir que, mais do que o passado, é o futuro que vou desenhar. É o futuro que vou descodificar. E quererei eu saber o futuro? Aliás, acredito que não há um futuro fixo, mas possibilidades múltiplas de o vivenciar. Que seremos nós que o iremos criar segundo aquilo que somos e aquilo em que nos formos tornando.

Vai haver uma mudança. Isso, eu sei. Vai haver uma mudança na constituição de todos os seres, que vão ser confrontados com aquilo que são e aquilo que podem vir a ser. Acredito que, em certo limite, lhes vai ser dada a possibilidade de escolha no que vão fazer de si próprios, no que se vão tornar.

Porque todos somos deuses, mas nem todos nos preparamos para assumir essa divindade e muitos de nós continuarão a precisar da matéria densa para fazer as suas experiências. É essa a força alquímica da dor que, por atalhos, nos guia para o melhor de nós próprios. Uma coisa parece certa: não mais nos será permitido esquecer de onde viemos e para onde vamos. E isso é um passo gigante na evolução.

Poderemos continuar neste jogo de provas contínuas de prazer e dor, mas saberemos sempre o que nos espera no final da caminhada. E só isso, essa consciência de quem se é e da meta que será mais tarde ou mais cedo a nossa, só isso modificará profundamente o humano que somos. O homem deus.
Não estaremos sós. A nosso lado, para nos apoiar, haverá sempre alguém que se disponibilizou a dar-nos a mão e a mostrar-nos o caminho. Esses que desceram com o único objectivo de tornar o nosso caminho mais fácil. E isso é para já.


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A IMAGEM DO AGIOTA


A imagem do agiota da Idade Média é a que me ocorre quando penso nos juros que são praticados nos países em dificuldades. Será que o dinheiro emprestado é para ajudar os países ou para os fazer cair rapidamente, criando condições para um “fartar vilanagem”, que é o que acontece às pessoas e aos países em situações de aflição. Ficar à disposição do credor, que leva sempre o melhor.

Qual foi o juro que os EUA cobraram à Alemanha, para a ajudar a recuperar o atraso na Alemanha do Leste? Lembram-se? Pensem nisso e na diferença de tratamento da Alemanha em relação aos países hoje em dificuldade.

Este é o tempo em que os países e as pessoas vão ser confrontados consigo próprios. Está a acontecer com Portugal, mas os países ricos também não escaparão a essa confrontação. E cada um vai ver-se tal qual é. Até que cada um descubra e interiorize que somos realmente todos irmãos. E que até a cigarra é necessária para alegrar os dias cinzentos da formiga.

Não era nada disto que queria dizer, mas a prosa escreveu-se a si própria, rapidamente, através das minhas mãos. Eu penso isto? Claro que penso, mas no meu coração sinto que é preciso que todos, muito rapidamente, dêem as mãos. Até para que a Mãe Terra não estremeça e crie condições para que, finalmente, os homens descubram a verdadeira solidariedade. Então numa autêntica situação de catástrofe e igualdade. Ao que, admito, ninguém quer chegar.