quinta-feira, 26 de julho de 2012

Clara, Uma Irmã



ISABEL VERSUS CLARA, UM MISTÉRIO A RESOLVER

Encontrei num livro, já lá vão mais de 25 anos, a reprodução de um busto policromado da rainha Santa Isabel, talhado em madeira. Fiz uma fotocópia, que conservo, sem a anotação do título do livro.

A história começa aí. A folha do papel da fotocópia era pouco espessa. A imagem transparecia do outro lado e eu decidi sublinhá-la a lápis. Assim fiz. Ou julguei que fiz. Trabalho feito, quem eu tinha sob os meus olhos era a imagem de Santa Clara! E, à sua volta, outros rostos foram surgindo.

Quando coisas destas me acontecem, a primeira reacção é de surpresa. Depois, tenho palpites. Olha, disse para mim própria: não será que a Rainha Santa é a reencarnação de Santa Clara?

Como ninguém me respondeu, deixo em suspenso a questão. Afinal, somos um contínuo, a matéria é reciclada. E as almas prosseguem ou perseguem elas próprias um contínuo aperfeiçoamento. Então, a hipótese de uma ser a reencarnação da outra é muito possível. Provas? Não há. Não tenho, nem sei de certeza certa. Conto então o que pensei e me pareceu verosímil depois de ter desenhado vendo, à volta da imagem, as figuras que podem observar, uma das quais é a Rainha Santa muito nova. Sabe-se que Isabel tinha, aliás, uma grande admiração e devoção pela Irmã Clara. Adiante.

Pintei a determinada altura Santa Clara e a Rainha Santa no mesmo quadro, aliás um dos primeiros que mostrei. Hoje volto a falar de Clara para contar três sonhos que tive por essa altura e que continuam ainda a intrigar-me.


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UM SOL NA POEIRA DA ESTRADA


Eu estava em Assis e ia à procura de Clara e Francisco. Ia a caminhar por um terreno de terra batida e, de repente, vi um sol a brilhar no chão, sob a poeira que o tapava. Precipitei-me para o apanhar, mas ele desapareceu.

No segundo sonho eu estou de novo em Assis, na cripta de uma capela. Estou num pequeno aposento, deitada de costas. Sei que alguém está do meu lado direito, mas não o vi. Não sei quem era.
Vou receber uma iniciação.

Tenho o rosto voltado para o lado esquerdo. Está lá um frade, muito pequeno e magro. Eu conheço-o desta vida, mas ali ele é muito mais pequeno e curvado. Muito curvado. Tem uma caneca na mão e deixa o quarto para ir buscar água. Reparei que, quando saiu do quarto, desceu três degraus.

Não sei se o sonho parou ali. Não me lembro.

No terceiro sonho eu estou em Itália e quero visitar o convento onde viveu Santa Clara. Estou na entrada e peço para falar com a Irmã Clara. As freiras olham para mim e riem, riem muito. Volto a fazer o pedido e elas voltam a rir, como se eu estivesse a brincar com elas.


    

         

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CLARA E FRANCISCO DESENHADOS EM CARTAS



Comecei  a desenhar Clara com mais insistência em 1989. Numa das vezes, estava a escrever a um amigo. Guardo duas cartas, uma minha, a outra dele, em que Francisco é obviamente mais feliz com o caminho escolhido do que Clara.

Ela é uma menina fascinada pela paixão pelo divino que divisou em Francisco. Apaixonou-se pela capacidade de entrega desse homem, que foi capaz de amar o divino até ao despojamento total, até à nudez em público. Deve tê-lo visto despir-se para devolver as roupas ao pai. Acima de tudo, Clara amou aquela intensidade, aquela paixão. É um amor assim que ela quer para si. Ou pelo menos é um amor assim que ela quer partilhar.

Entretanto, à margem desta labareda de amor, que iria permitir uma renovação na Igreja Católica, ardem as fogueiras do Santo Ofício.

           

Sim, Francisco também ama Clara e admitiu até vir a desposá-la, mas rapidamente percebeu que o encontro entre ambos terá de se dar no divino. Ela poderá pressentir esta luta, mas não a sabe. Deixa-se levar, deixa-se arrastar, mas a escolha de Clara é obviamente Francisco e sofre, sofreu muito tempo sob o seu manto de freira. Sofreu até à transcendência, o que significa que valeu a pena a sua dor!


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A AMOROSA RENUNCIANTE


O que  deixa Clara? O conforto e o aparato de menina rica. Pintei dois quadros em que Clara se veste segundo a sua condição. Foi-me mostrado isso para que pudesse ver o aparato que deixou para trás.

Clara teve saudades da vida que deixou, do cabelo comprido, da pompa dos vestidos bonitos? Estou em crer que isso teria sido mais suportável se tivesse Francisco na proximidade. Tenho a sensação de que Clara gostaria de ter feito uma vida de beguina, gostaria de ter andado de terra em terra a pregar com Francisco, sei lá! Ter ficado encerrada numa cela, acho que não estava nas suas aspirações…

O engraçado é que entre as minhas primeiras esculturas havia uma de Clara com aspecto de menina rica. Um dia quis oferecer uma das estatuetas a um amigo e propus-lhe que escolhesse entre várias. Ele escolheu a de Clara, dizendo: «Esta menina vai gostar muito de ir passear!» Calculem! Nunca mais esqueci.

No seu confinamento, Clara descobriu a transcendência. Doente, sem poder ir assistir à missa, viu a missa na parede da sua cela. É por isso que é a padroeira da televisão. O engraçado é que me sinto muito próximo dela, por ter a possibilidade de ver na parede ou no papel estas imagens que vos mostro.

 A vida é verdadeiramente um grande mistério.


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Nota:
Boas férias. Para todos e para mim também. Em Setembro cá estarei, se o Céu achar por bem. Obrigada por me terem acompanhado estes meses, em que aprofundei e percebi melhor a mensagem recebida. Obrigada.




quarta-feira, 25 de julho de 2012

Um Sonho Realizado



TAREJA É A CASA, O INÍCIO, A MÃE




Tareja e Henrique entenderam-se. Parecem ter sido felizes, segundo as imagens que desenhei e pintei ao longo dos anos. Foram um casal com interesses e objectivos comuns.

Ela é bela, sensual, «salerosa». Repare-se no desenho a tinta-da-china. Os elementos da feminilidade estão representados: os seios, as pernas ou uma perna, com uma meia bordada e com folhos. Sexy? Tudo isto misturado com o ter, a posse das casas, das cidades. O Ter como pano de fundo. Há até um povoado murado, com a forma de um coração. Invertido. É o jogo do Ter que joga este casal. E parece ser feliz com isso. Tareja e Henrique estão a lançar os fundamentos de um País com os primeiros tijolos. Afinal os tijolos com que cada um de nós se faz e refaz, quando surge na Terra. Mas há um sonho a despontar no rosto de Tareja. E doçura.

Ela é a verdadeiramente a Casa, o início, a Mãe.


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A CONDESSA VIÚVA


D. Henrique foi ferido numa batalha. Na cabeça. Vi-o quando modelei esta escultura, em 2001. Tive de repará-la em 2005. O barro não está cozido, não sei se vai aguentar muito mais. Começou a abrir fissuras, que estou a tentar reparar.

Mostro-lhes primeiro as costas da escultura. Está lá tudo. A Taça. O conde morto. A dor de Tareja. A dor de uma mulher só e a determinação no olhar. O futuro que vai ter de enfrentar.



Os anos passam. Os filhos crescem. Afonso Henriques irá fazer porventura 20 anos. Já não se contenta em assinar documentos com a mãe. Quer o Poder, que ela partilha com Fernando Peres de Trava.

Uma coisa é a ideia, o projecto. Outro a realização. Teresa tem dificuldade em ceder. O condado é seu. Transmitiu-lho o seu pai. Há-de transmiti-lo ao filho. Quando for tempo. Quem sabe se não conseguirá juntar a Galiza a Portugal?! Afinal, são a mesma gente! A mesma língua… Só precisa de mais tempo. De mais algum tempo. Tem Fernando Peres de Trava do seu lado. Tudo se tornou possível com esse aliado, agora seu marido. Claro que se tiver um filho varão a situação pode complicar-se, mas já não é uma menina e teve vários filhos e só um varão… 


Afonso conhece a firmeza e determinação da mãe. Com os seus bons modos e fina delicadeza tem uma vontade de ferro. Nada a detém, quando julga ter razão. Já a tentou convencer de que é tempo dele assumir a liderança do Condado. A influência dos Peres de Trava está a tornar-se negativa. Os Nobres de Riba Douro estão inquietos. Já nem querem contactar com ela. É tempo de ceder…

Ela não cede. Considera uma afronta a avidez do filho pelo Poder. É uma afronta. Luta. É vencida, em Guimarães. Presa, com grilhetas nas pernas. Amaldiçoou-o. Dizem que amaldiçoou. Não sofreremos todos por isso. Por essa maldição transmitida ao longo dos tempos?




















Como perdoar? Como esquecer? Foi essa a aprendizagem de Teresa ao longo dos séculos. Como acolher de novo esse filho e amá-lo.

Acho que ela aprendeu como fazê-lo. É pelo menos o que mostra a escultura vista de frente. Tareja dança como uma sacerdotisa. Dança recebendo as energias dos Céu e espalhando-as sobre Portugal. Ela voltou, deu-se a conhecer nas esculturas, para que Portugal se cumpra. Para que Portugal abrisse e entregasse finalmente o Graal.


Tudo isto é um Sonho? Sim, creio que tudo isto é um sonho. Uma imaginação. O importante é que o Porto do Graal se alargou a todo o Mundo. E o Ser Humano pode colectivamente renovar-se e viver em plenitude a Idade do Ouro.


sexta-feira, 20 de julho de 2012

Um Trono Vazio



A MINHA FAMÍLIA EGÍPCIA...


Já falei da Escola Nocturna, que ainda frequento, mas agora raramente me lembro das lições. Não acho que isso seja muito relevante. O importante é que, na vida quotidiana, se acabe por pensar ou proceder segundo as lições aprendidas no sonho.

Houve tempo, porém, em que os sonhos eram muito importantes e alguns deles foram especialmente marcantes. Vou contar um, que me chocou muito na altura, e se mantém ainda muito vivo em mim.
Eu tinha uma instrutora. Não me recordo como ela era. Se calhar nunca a vi. Recordo a sua voz e os seus modos, que colidiram com a minha sensibilidade. Sempre pensei que, do Outro Lado, tinham mais tolerância com as nossas fraquezas. Mas não, a senhora era sabedora, eficiente, mas tinha pouca paciência com as minhas sensibilidades.

No primeiro sonho fui colocada em frente de uma chapa de metal, podia ser alumínio ou algo parecido. Tinha a função de uma televisão, sem o aparato. Então, estando eu em frente desse «espelho», vi começarem a correr imagens de crianças a brincar. Nessa altura, uma voz começou a dizer:
«Quando na XXX  havia crianças…»

 (Desculpem, não vou dizer o nome da região. Já lá vão mais de 20 anos, não aconteceu nada, sinto que não devo lançar a inquietação dizendo o local).

Ao ouvir aquela frase entrei em choque, porque a ideia de não haver crianças em determinada região só poderia resultar de um grande cataclismo. Comecei a chorar. A minha instrutora parou imediatamente a lição, dizendo, indignada, e talvez também com algum desprezo: «Estes intelectuais são impossíveis!» E terminou a lição.

Supliquei-lhe que continuasse e ela, perante as minhas súplicas, ao fim de algum tempo decidiu recomeçar a lição, mas com outro tema: o Ka. A explicação tinha como suporte uma múmia.

Actualmente, nós, ocidentais, consideramos que o ser humano tem alma, corpo e espírito. No antigo Egipto, chamavam a esses elementos respectivamente ba, ka e akh. Mas o ka não pode ser identificado simplesmente com o corpo. A Wikipédia diz que o «ka pode ser definido como um princípio ou elemento metafísico, imaterial, invisível e volátil e de certa forma metafórico»…

Eu li bastante sobre o assunto há muito tempo e, na altura, julgava saber o que esses conceitos significavam, mas o que a instrutora me ensinou era totalmente diferente. Não tinha nada a ver com o que eu tinha aprendido.
Eu estava muito interessada na lição, de que não recordo nada mas, de repente, ao fundo, vejo sentados, como se estivessem a assistir, um faraó, a mulher e as filhas, que reconheci como sendo família. A minha família. Fiquei tão alvoroçada por esse reencontro que corri para eles, esquecendo a lição e a instrutora. Desta vez, ela não disse nada. Simplesmente acabou a lição e acho que desistiu de mim.

Seja como for, desse sonho ou dessas lições trouxe recordações, que acabei por desenhar e esculpir e agora vou mostrar.



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A CABEÇA DE ÍSIS É UM TRONO VAZIO


Vi a belíssima cabeça de Nefertiti no Museu de Berlim, alguns anos depois deste sonho. «A mulher mais bela de Berlim», foi assim que a apresentou, ao grupo em que eu estava integrada, a intérprete-guia que nos acompanhava. Gostei tanto de ver essa escultura que lhe dei destaque na reportagem que então escrevi.


 Modelei, mais tarde, em 1989, um rosto de mulher que, no lugar da cabeça, tinha um trono. Um trono vazio. Dei-lhe o nome de Nefertiti, ainda que não tenha nem a beleza, nem o encanto da rainha egípcia. Nem seja nada parecida. O estranho é que aquele trono tem a sugestão de dois homens, um em cada lado. E ao esculpir a cabeça, uma frase surgiu repetidamente no meu cérebro.

«A cabeça de Nefertiti é um trono vazio. A cabeça de Nefertiti é um trono vazio…».

Esta frase tinha uma ressonância profunda em mim. Mais tarde, numa série sobre a religião egípcia, que está na Internet, «O OLHO DE HÓRUS», fui encontrar finalmente a frase. É difícil saber em que episódio foi e são talvez doze, mas essa frase continua a ressoar em mim, tendo eu a convicção de que não atinjo todo o seu significado. Esqueci a explicação, que deve ter sido divulgada na série. Mas acho que esqueci de propósito, porque o importante é que as nossas cabeças sejam eventualmente, tronos vazios, até que finalmente nos recordemos. Então teremos a resposta.

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Andei dois dias sem ter nada para acrescentar, o que não é habitual em mim. Ontem, fui sair. Levava umas sandálias e… caí. Há muitos anos que não caio. Tenho uns leves arranhões no braço direito, dores nos joelhos e… uma grande nódoa negra à volta do olho direito, sem que o derrame tenha afectado a vista. Dói-me o corpo, mas não é nada de cuidado.

Considerei isto como uma chamada de atenção. Que é que eu não estou a ver? Que estou a deixar escapar? Ou: o que é que eu não quero saber? Depois do pequeno-almoço, voltei para a cama para pensar sossegadamente. Foi interessante recordar todas as memórias que me ocorreram, ligadas às personagens de que me propus falar. Memórias da minha história pessoal de agora ligadas a memórias vivenciadas no Egipto por duas amigas minhas… Precisava de encontrar todos estes fios que interligam os desenhos e as esculturas, que me foram dadas certamente para isso…

Comecei por ir à Wikipédia para tentar encontrar a explicação para a frase «a cabeça de Nefertiti é um trono vazio». E não encontrei nada que se adequasse. Então lembrei-me de que o rosto não é parecido com o de Nefertiti e fiz a busca só com a frase «a cabeça é um trono vazio». E a resposta apareceu no artigo «A arte funerária do Antigo Egipto».




Não se trata de Nefertiti, mas de Isis, que «usa na cabeça um assento com espaldar (trono), que é um hieróglifo do seu nome». Os dois homens insculpidos nos dois lados do trono serão então, eventualmente, Osíris e Hórus. O marido morto e o filho. Serão?
A minha mente sabe muito mais do que eu.



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UM ROSTO QUE QUASE DESAPARECEU


O primeiro desenho que fiz, a lápis de cores, foi a 21 de Julho de 1988. Acho que dei nome desde logo a algumas das personagens. Outras continuam por identificar. Mas são todas egípcias e viveram sob os desígnios do Espírito, como revela a pomba pousada numa das personagens. Reconheço Nefertiti, Akhenaton, Cleópatra, bela apesar do seu grande nariz, três casais que ainda não identifico e, do lado esquerdo, em baixo, uma jovem muito bela, que será uma das filhas de Nefertiti, a que casou com o pai.

Essa jovem apareceu, em outra pintura, à esquerda de Nefertiti, ao alto, de novo muito bela. O estranho é que, pintada com verniz das unhas, na mesma altura que o resto do quadro, o seu rosto quase desapareceu. Pode haver uma explicação racional?


Um dia convidei uma amiga para almoçar e mostrei-lhe esse quadro. «Repare!», disse-lhe, apontando para a figura hoje quase desaparecida. Eu não tinha nenhuma segunda intenção. 

Foi para mim uma surpresa, um choque, uma coisa hoje engraçada, ela ter começado a desculpar-se, explicando como aquilo acontecera. «Sabe, muitas vezes as miúdas apaixonam-se pelo pai.» E quase pediu desculpa. Fiquei tão estupefacta que não reagi, ao mesmo tempo que tudo aquilo me parecia verosímil e com sentido. Ela era ou seria a filha de Akhenaton e Nefertiti, a que casou com o pai. Eu tê-la convidado para almoçar também foi estranho. Era a primeira vez que o fazia. O ter-lhe mostrado precisamente aquela pintura, porquê? E porque não outras? O certo, certo, é que a imagem quase desapareceu e não me decidi reavivá-la. 


Agora reparem, este quadro foi pintado mais ou menos na mesma altura e com os mesmos materiais, representando o que parecem ser Nefertiti, Akhenaton e outros elementos da família. Que aconteceu? Nada. A pintura contínua intacta! Os deuses lá sabem porquê.

 Só mais um desenho, em que se repetem as mesmas personagens, com a serpente e o maço. Não vou fazer especulações. Se chegaram até aqui é porque têm alguma coisa a ver com esta realidade.
desenho a tinta da china


Por fim, quero mostrar a escultura de uma esfinge que, nas costas, tem o casal real já referido e a mãe de Akhenaton…



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FOSTE MINHA FILHA NO EGIPTO



Tive uma outra amiga que, quando ela surgiu na minha vida, lhe disse inopinadamente, no terceiro ou quarto encontro: «Foste minha filha no Egipto!» Não sei porque lho disse. Saiu. Nunca me tinha saído nada de semelhante, nem voltou a sair. Ela não reagiu, só me disse que eu podia tratá-la por tu, mas ela não se sentia capaz de o fazer.

Passaram-se anos até que a minha amiga finalmente me falou da sua vida no Egipto. Contou-me que se recordava de viver num palácio, mas não se lembrava quem eram os pais. O importante é que, a partir de determinada altura, começou a sentir o apelo irresistível do deserto, que a chamava. Um dia, conseguiu escapar-se sozinha e caminhar para o deserto. Sabia que ia à procura de uma pirâmide. Uma pirâmide cujo topo era revestido a ouro. Uma força atraía-a para lá. Aproximou-se e ficou parada a olhar.

Então, uma luz entrou na sua cabeça, iluminou-a. Por dentro era toda luz e via, via por dentro, o indizível, mas deixou de poder ver o exterior… Alguém a reconduziu ao palácio, mas o que lhe aconteceu mudou irremediavelmente a sua vida. E a vida dos pais. Não se lembrava de mais nada.

É esta história que me leva a especular se foi este incidente com uma das filhas que mudou irremediavelmente a vida de Akhenaton e terminou com a «aventura» de Armana, pondo fim à religião do Deus Único, que o casal real tentara implantar?


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MEMÓRIA COLECTIVA? 


Estas coisas passaram por mim, marcaram-me, mas deixaram-me sempre disponível para ser quem sou, quotidiana e vulgar. É meu privilégio não ter uma vida monótona e aborrecida. Estou muito grata por isso.

O que eu aprendi com os segredos dos meus desenhos! Dou graças por todo este desafio e afirmo-lhes que é possível, a todos nós, chegar à franja do nosso cérebro onde está registada a história do mundo. Talvez nos sejam dados determinados acessos. Talvez possamos escolher. Não sei como funciona. Acho que uma das condições é a intenção firme de servir. Servir o outro revelando que a Vida é muito mais larga e interessante do que aquilo que nos condicionaram a crer.

Agora, uma observação: é possível que estas histórias façam parte do mundo onírico e que haja muita mais gente no Planeta que tenha acesso a essa informação, considerando-a como sua. Tratar-se-á da memória colectiva, que é também património da Humanidade. Cada um vivê-la-á, segundo a grandeza da sua alma.

Tendo sido ou não as personagens que recorda. Não tem importância. Somos quem somos, com toda a vida e sonho do Mundo nas nossas células. Há que ter a coragem de abrir o coração e a mente ao Universo.   

sábado, 14 de julho de 2012

O Cálice da Vida




O CASAMENTO DA TERRA COM O CÉU 


Cada um de nós tem um cálice. Esse cálice é a nossa cabeça. Quando um ser humano nasce, esse cálice vem aberto. «Cuidado com a moleirinha!», dizem todas as mães aos filhos mais velhos, quando eles pretendem pegar ou acariciar o recém-nascido.

A sabedoria popular tem todo o conhecimento impregnado. Sabe não sabendo, ou sabe porque as avós já diziam que era assim. A moleirinha é muito frágil. Sim, é preciso cuidado. O recém-nascido tem o seu cálice aberto para facilitar o nascimento. A cabeça é comprimida no canal da vida, mas também massajada, preparando o nascituro para o seu novo habitat. A moleirinha é, portanto, frágil, mas adequada à sua viagem pelo canal da vida.

A moleirinha tem um nome científico: a fontanela. Aliás, um nome adequado, porque é simultaneamente uma fonte de vida e uma janela. A vida, uma vida superior, pode jorrar por ali. E é uma janela que permite aos olhos verem os anjos e as estrelas. Os bebés, nos primeiros tempos de vida, quando nascem sob uma boa estrela, sorriem muito aos anjos e às estrelas, que a sua moleirinha lhes permite ver. 
Com o passar do tempo, a moleirinha fecha, ossifica e os bebés aprenderam já então a sorrir e a chorar à vida e com a vida em seu redor.

A moleirinha fecha, mas eventualmente será de novo aberta, de uma outra maneira, mais tarde. Será aberta por e às energias divinas, após um longo trabalho interior, quando o ser humano aprendeu as lições que a vida tinha preparado para ele. Então, o cálice volta a abrir-se e passa a haver, em permanência, um intercâmbio entre a Terra e o Céu. Melhor dizendo, entre o Céu e a Terra, insuspeitadamente, dentro daquele ser humano.

    Estou em crer que cada um de nós, seres humanos, é a ponte que liga em permanência o Céu à Terra e a Terra ao Céu. Os pés são o ponto de contacto permanente com a Terra, que permite o casamento contínuo entre o interior da Terra e o Céu. Quando a ligação do Humano com o Céu e a Terra está estabilizada, acontece que ele se torna numa caixa-de-ressonância da mais pura alegria e prazer.

 O casamento da Terra e do Céu faz-se pois através do ser humano. Esse é o segredo que as religiões deveriam veicular e não a contínua mensagem de sofrimento. Embora o sofrimento possa algumas vezes servir para nos centrar, não é de maneira nenhuma o objectivo. A Terra já foi o Paraíso. São a avidez e ignorância humana que a transformam ciclicamente num inferno.

Se pudéssemos Ver, veríamos que a energia sobe e desce continuamente, com pequenas partículas de luz que revoluteiam no Ar e são alimento. Em certas circunstâncias poder-nos-íamos alimentar de Luz. Creio que o Ser Humano vai beneficiar disso num futuro não muito longínquo!

Fiz um desenho que mostra o processo. A energia desce em partículas muito pequenas, penetra na terra e nas pessoas, que se prepararam para a receber, e recria a Nova Terra.

       
Sei que há grupos que anunciam para breve grandes cataclismos. Eu disso não sei nada. Nem quero saber. Mas sei que cada um de nós tem a capacidade de modificar o futuro e de contribuir para que a Terra ascenda à quinta dimensão. Mas disso, repito, nada sei ou sei o que leio, mas só acredito verdadeiramente no que o meu Eu interior me diz e na lógica das probabilidades. (Atenção, façam o mesmo!) Não podemos semear cardos e colher rosas, não é? Há um ditado popular que diz que cada um de nós colhe aquilo que semeou. Daí que a passagem para a Era do Aquário possa ser marcada por alguma dor. Aliás, o panorama mundial aponta nesse sentido. A palavra do dia é hoje recessão. Como sou uma optimista, acho que a recessão é o caminho que nos pode levar a uma forma de vida mais equilibrada e não a este desequilíbrio de consumo disparatado que a população, nas últimas décadas, tem sido levada a praticar, delapidando o Planeta.

Acho que uma parte substancial da humanidade foi empurrada para a loucura do consumo, enquanto a outra era deixada a morrer à fome, deliberadamente. Foi uma estratégia? Pelo menos, não foi feito o bastante para que não acontecesse.

 O excesso de consumo e o excesso de pobreza estão neste momento confrontados. Não podem ser ignorados por mais tempo. Como é que isto se muda sem grande dor? Não sei, mas se pensarmos colectivamente sobre isso, talvez surja a solução. O primeiro passo será o de ultrapassarmos os egoísmos. Os nossos egoísmos pessoais que nos isolam na nossa pequenez, quando todos fazemos parte de uma única entidade: a Humanidade. Disso, ninguém tem dúvida. Somos deuses em forma humana. Aí o consenso não será total. Mas não há problema algum nisso. Basta que sejamos verdadeiramente humanos. E o objectivo está cumprido! É isso que é preciso proporcionar a todos: o de serem realmente Humanos. O resto virá por acréscimo.



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O QUE É SER HUMANO?


Não há um tipo único de ser humano. É uma verdade à monsieur de La Palisse. Mas desenhei várias características de seres humanos, que nos distinguem uns dos outros, nos caracterizam. E isto não depende da riqueza nem do grau de instrução, nem da categoria social. É uma condição interior, que nos torna todos iguais e todos diferentes.

Vou apresentar-vos, primeiro, os sonhadores, que andam sempre nas nuvens e são aliás pessoas bem interessantes, se não se desligarem totalmente da realidade. Vejam como eles andam nas Nuvens. Que bom! Não são tão bonitos? Pertencem ao elemento Ar.


 Do elemento água, apresento-vos dois espécimes. O primeiro, o dos seres humanos que têm a fluidez da água e avançam em catadupa. E o segundo, composto pelos seres que são frios como gelo e mais lembram icebergs, montanhas geladas.




O elemento Terra representei-o como uma árvore que explode em gente pelos ramos, sendo musgo, folhas conviventes, aprazíveis, com um sentido de grupo, possivelmente solidárias.



E, por fim, o fogo a explodir em gente pela cratera do vulcão e a derramar-se pela encosta, deixando lava e cinza pelas encostas. Será o seu destino galvanizar gente ou queimar-se no próprio fogo, deixando um rasto de cinza? Uma cinza que, todavia, fecundará a Terra e deixará por onde passa, embora incomodando, um rasto de fertilidade?



Há ainda um outro fogo, o fogo do Amor. É magnífico, mas também pode destruir, como a maior parte de nós bem sabe… Mas também salva. Só o Amor nos pode salvar.






O importante, porém, é que, seja qual for o elemento que trabalha preferencialmente o ser humano, este não se convença da superioridade dos dons recebidos, transformando-se então, num perfeito asno.
Estas algumas das lições que aprendi desenhando e que tenho muito gosto em partilhar. Como as ilustrações são em tamanho reduzido, podem aumentá-las abrindo um novo separador com o botão direito do rato. Mas isso sabem com certeza muito melhor do que eu!







À margem:
Aos amigos que me escrevem para o Hotmail, peço que passem a fazê-lo com o mesmo endereço para sapo.pt

Obrigada.


sexta-feira, 6 de julho de 2012

A Fénix Renascida



A FÉNIX RENASCIDA OU COMO REFUNDAR PORTUGAL



Para que a fénix renasça precisa de ser transmutada pelo fogo. Sem passar pelo fogo a alquimia não pode fazer o seu percurso e a fénix não pode renascer.

Poder-se-á dizer o mesmo do ser humano, que tem de passar pelo fogo interior para iniciar o regresso às origens. O mesmo princípio se aplica aos países e até ao próprio planeta, embora as expressões de depuração não sejam iguais, mas idênticas.

O planeta Terra tem passado, nos últimos anos, por fogos devastadores, chuvas torrenciais, terramotos e furacões da maior violência. Estamos na iminência das calotes polares continuarem a derreter, fazendo subir o nível das águas que poderão, eventualmente, submergir vastas zonas próximas dos oceanos. O problema está estudado, mas fala-se pouco disso porque, para tomar as medidas necessárias para minimizar a catástrofe, ter-se-ia de pôr em causa os interesses instalados, que teriam de mudar completamente de dinâmica e de objectivos.
 A conferência do Rio de Janeiro sobre o ambiente foi mais uma vez a prova da inconsciência suicida do grande capital, da pouca força dos Governos e da quase indiferença da generalidade da população mundial. Enquanto não chega à nossa porta, o problema é dos outros, não é? Mas o que está a tomar forma no horizonte não vai poupar ninguém. Não é a conta no Banco que protege de um terramoto ou do impulso devorador das chamas.

A que propósito estabeleço a ligação da fénix renascida com Portugal, a atravessar um dos momentos mais críticos da sua história?

 Porque, como muito bem sabe a sabedoria chinesa, crise é sinónimo de oportunidade. E, nesta crise, finalmente os portugueses têm condições para a enfrentar, como nunca tiveram antes. Têm condições para fazer renascer o País e tecer laços com a comunidade portuguesa espalhada pelo mundo, não só de afecto, mas de colaboração e de produção. Há que ter em vista o povo culto e preparado em que nos tornamos, nos estamos a tornar, com capacidades novas. Toda esta juventude que se formou nos últimos 20 anos e que constitui um contingente de criatividade, que está a ser desperdiçada e desmotivada. Onde estão os governantes capazes de pegar nesta juventude e pô-la a fazer o que sabe fazer, pô-la a inventar uma nova forma de estar na vida, na produção, na sociedade? NÃO DESPERDICEM OS JOVENS, NÃO OS DESTRUAM RETIRANDO-LHES O SONHO E A CAPACIDADE DE CRIAR. Não os mandem simplesmente emigrar. Não cometam esse crime, essa insensibilidade!

Façam mais. Pensem. Imaginem como sair da crise. Imaginem que é possível fazer uma ligação efectiva a todos os portugueses que partiram e conseguiram ter êxito, para que se invente um novo sentido de comunidade. A comunidade dos que partiram e dos que ficaram, criando laços de apoio, profissionais, sim, levando a que os que estão lá fora, em qualquer sítio espalhado pelo mundo, com a sua indústria ou o seu comércio, ou a sua investigação científica, criem postos de trabalho, cá e lá, com vantagens para todas as partes. Há que sermos capaz de fazer um esquema de trabalho à distância. Com os computadores é tudo possível, na hora. Inventem. Sejam solidários. Recriem a comunidade. Recriem Portugal. Iniciem de novo o Portu Gral, finalmente espalhando as suas bênçãos por todo o Planeta.

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O PECADO ORIGINAL

A história do menino que «bateu» na mãe é o pecado original deste País. Uma espécie de nódoa que tem afectado o nosso percurso colectivo e que, ciclicamente nos põe em causa, como se esse pecado não tivesse sido ainda perdoado e exigisse uma reparação. De que tipo?

Francamente, eu não sei nada. Preocupo-me com isto, porque inocentemente fui levada a desenhar parte da história do mundo, em pequenos apontamentos, e depois vi-me envolvida com os fundamentos de Portugal, com a sua história, com a sua missão. E isso passa-se numa parte de mim, que posso calar, mas que volta como se fosse obrigação minha dar testemunho do que recebi. É por isso que venho aqui e me sento a escrever, como durante anos me sentei a pintar ou a modelar, sem ambição. Nunca quis ganhar dinheiro com isto, nunca quis ser conhecida por isto. Estou a dar um testemunho, sem me importar de que tomem conhecimento ou não. Mas gostaria, isso sim, que tomassem consciência de quem são.

A história do menino que bateu na mãe não tem de pesar para todo o sempre como Karma do País. A mãe, com certeza que se zangou, pelo filho lhe ter tirado a posse do condado que recebeu porventura como prenda de casamento. Há que compreender, ela casara com outro homem, tinha novos filhos, até então só filhas, mas se nascesse um varão, que problemas novos se colocariam. Não iria esse possível novo filho querer juntar a Galiza a Portu Cale, como era o sonho de sua mãe? Revoltou-se, foi como foi, o País fez-se e é um belo País, o mais antigo ou dos mais antigos da Europa.

 Os meus desenhos revelam que a mãe esqueceu e perdoou a revolta do filho. Ela regressa do passado e já não é a mesma, nem vem só. Traz consigo a família original e todos os grandes homens que nasceram ou, de algum modo enriqueceram o País. Traz Camões, mas também traz S. Francisco e Sta. Clara, e outros que engradeceram Portugal. Vejam como ela dança.

Quer isto dizer que o tempo se cumpriu e um novo tempo começa assente numa nova unidade de gente e de valores. É este o Portugal que há a construir. Um Portugal de gente nova, que é em essência a mesma gente, mas mais depurada. E a mãe sacerdotisa dança e, com a sua dança, refaz o ânimo e a alma dos portugueses.

Tareja regressa com o Graal.

Assim seja!



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UMA VIDA EM PERSPECTIVA


Por último, quero deixar em testemunho a perspectiva da vida da rainha condessa D.Teresa. É um trabalho de paciência. Terão também que ter paciência e adivinhar as conexões, os afectos, as alianças, os perigos, tudo o que constituía a vida de uma castelã do séc. XII.

 Tudo o que lhes pudesse dizer seriam imaginações, palpites, porque a história de uma vida é sempre um labirinto em que se entrecruzam grandes momentos com terríveis tragédias ou o simples quotidiano. Acho que há de tudo nesta perspectiva.

São ainda tantos os desenhos e pinturas desta época da história de Portugal, que certamente voltarei ao tema.


sexta-feira, 29 de junho de 2012

A Escola do Sonho



FREQUENTAR A ESCOLA DO SONHO


Francamente, não sei como se é admitido na Escola do Sonho. Sei que um dia me encontrei lá. Subi três degraus e ofereceram-me um vestido azul com grandes flores, um bocado espampanante…

O meu traquejo jornalístico levou-me a escrever uma entrada com todos os ingredientes capazes de prender a atenção. É uma técnica, que tem vantagens e inconvenientes. Por exemplo, como é que se é admitido/a na Escola do Sonho? Uma pessoa candidata-se? Que qualificações são necessárias? É exigido algum tipo de qualificações académicas? Deixei tudo isso de lado, porque eu própria não sei.

Admito, porém, que embora não sendo essencial, alguma formação escolar seja necessária, pela parte que o conhecimento académico possa ter na modelação do Ser. Estou em crer, porém, que não é determinante. Não são os diplomas que habilitam para a Escola do Sonho, mas o que cada um faz em si próprio com aquilo que aprendeu. E não se alvorocem, porque não há candidaturas conscientes. Acho que ninguém pode chegar lá, em vigília, e dizer: «Eu quero frequentar a Escola do Sonho».

Fui, portanto, uma noite, admitida na Escola do Sonho. Dormia, porventura sonhava, mas estava consciente. Subi três degraus. Sei que a subida desses três degraus é uma condição indispensável. Não se entra sem os subir. E como é que se chega a esses três degraus? Não sei.

 Ali estava eu, sozinha, disposta a entrar. Devia ter consciência do que estava a fazer. Não sei ao certo. Sei que subi três degraus e fiquei num grande espaço aberto. Não me recordo do mobiliário, se é que havia.
Então apareceu alguém. Não recordo traços, não recordo vestuário, nem recordo género, mas estou em crer que seria do sexo feminino. Esse alguém estava ali para me receber e para me dar as boas vindas, creio eu. O que efectivamente fez foi dar-me a roupa que eu deveria usar. Não era propriamente uma farda, mas algo personalizado, percebi mais tarde. Um vestido, azul forte, com grandes flores. Espampanante!

Achei o vestido horroroso e como, desde criança, sempre me deixaram escolher o que vestia, perguntei se poderia usar outro vestido. Aquele não me agradava! Disseram-me logo que sim. A minha anfitriã, com toda a boa vontade e gentileza levou-me junto de uma grande mesa, pejada de vestidos. E disse-me para eu escolher o que eu quisesse…

Quando a fartura é muita, a dificuldade na escolha é maior. Ninguém me apressou e eu lá fiquei, face a todos aqueles vestidos, atrapalhada com a dificuldade da escolha. Eu tinha uma ideia do que queria, ou mais precisamente, o que a circunstância exigiria que eu usasse. Um vestido discreto, de cores sóbrias, pensava eu, era o mais adequado à situação e à minha personalidade. Já não me recordo bem, foi há mais de 25 anos, mas acho que escolhi um vestido bege ou cinzento, ou castanho, e fui experimentá-lo. Ficava horrorosa!

Tentei outros e era a mesma tristeza, até que, finalmente, voltei ao vestido azul com flores, que era afinal o que me ficava melhor. E pronto, foi assim que, de vestido berrante, mas adequado à que eu era então, que dei entrada na escola do sonho para uma longa, muito longa aprendizagem, que talvez nunca tenha fim.


ENTÃO, ENCONTREI UMA CHAVE...


Tempos depois encontrei uma chave. No chão, na terra. Grande. De ferro. Parecia a chave da porta de uma igreja. Cismei algum tempo de que igreja seria, até que senti que era perseguida no sonho, que havia qualquer coisa que tentava desviar-me, mas passou.

Um dia, encontrei uma casa. A casa de que eu tinha a chave, soube ao vê-la. Eu faço muita cerimónia com as pessoas. Seria incapaz de entrar na casa de quem quer que seja, sem ter sido convidada. Eu tinha a chave daquela casa, onde poderia ir ler, descansar, estudar, o que quisesse, segundo me disseram, mas não tinha coragem de entrar lá, porque os donos não estavam. Não havia lá ninguém para me receber.

Eu ia até junto da casa, um palacete grande, com um lago e um repuxo! Ouvia-se a água a correr… Era muito convidativo, mas sem os donos presentes, que não me tinham convidado pessoalmente, eu não me sentia autorizada a entrar. Apesar do meu grande desejo, não fui capaz de entrar!

Então, após a cena se ter repetido várias vezes, um dia, parte dos muros que isolavam o palacete caíram, e eu passei a poder ver o jardim, a água a correr para um lago. O desejo de entrar era cada vez mais forte, mas sem os donos estarem lá era um abuso, eu não entrava. E não entrei.

Numa das noites seguintes, levaram-me a uma biblioteca. Mostraram-me especialmente uma estante, convidando-me a ir ali, sempre que quisesse, buscar livros para ler. Fiquei com o título de um livro, com vários volumes, que me interessou especialmente. Um dia passei por uma livraria e encontrei lá os livros. Comprei-os. Não necessitaria de esperar pelo sonho. Podia lê-los sempre que tivesse tempos livres.
O engraçado é que não cheguei a ler os livros, porque uma amiga pediu-mos emprestado e nunca mos devolveu. Não me importei porque, entretanto, soube que, ou já os tinha lido, ou já passara a fase em que era importante eu lê-los.

Acabei por arranjar uma casa. Naquele dia, ia ser a inauguração. Convidei uma determinada amiga para estar presente e fui esperá-la à entrada. A casa tinha um grande jardim, que terminava numa piscina. Para se chegar ao portão tinha, forçosamente, de se entrar na piscina e molhar os pés.

A minha amiga não quis molhar os pés. Disse-me que ia de volta e que mais adiante nos encontraríamos. Comecei a subir o jardim, que ocupava uma pequena encosta, à espera de encontrar a minha amiga mais acima, mas ela não apareceu.

Quando se inicia uma viagem iniciática, que, sei hoje, era o que eu estava a fazer, há sempre alguém que surge a nosso lado para nos apoiar, esclarecer quando fosse preciso, emprestar o livro adequado ao momento. Aliás, não tive um, mas dois amigos, o que, segundo um deles me disse, é raro isso acontecer.

 Então, o amigo a quem contei o episódio, esclareceu-me que era preciso molhar os pés para se poder entrar no Outro Lado. Disse-me até que há pessoas que têm de atravessar rios e águas caudalosas para poder chegar à outra margem. Não sabia nada disso. Já estava do outro lado, alguma preparação anterior teria tido para me deixarem entrar sem problemas.

Subi a encosta que levava à minha casa. Era uma espécie de capela, que teria sido porventura um lugar de culto. Eu gostava muito dela, mas lembro-me da minha indecisão quanto ao sítio onde ia colocar a minha cama.

Entrei e, então, de repente, na parece do lado esquerdo, um bocado acima do solo, vi uma porta. E soube que aquela era a porta que a minha chave abria! A indecisão de antes desapareceu completamente. Aproximei-me da porta, que já estava aberta. Levava a chave de ferro pousada nas minhas mãos abertas, levantadas à minha frente. E entrei.

Uma série de homens, sentados numa mesa em U, iam julgar-me. Julgar-me, porquê? Eu estava ali de direito. Tinha sido convidada! Não tinha dúvida nenhuma de que tinha o direito de estar ali. E sorri para eles!

O meu sorriso aboliu qualquer hipótese de julgamento. Os homens sentados sorriram para mim, abandonaram os lugares da mesa e vieram receber-me, acho que com alegria.

Creio que eram mais de doze, talvez vinte, ou vinte e dois homens vestidos com um estranho e, de certa forma, pomposo vestuário. Pareceu-me um vestuário ritual. Já foi há tantos anos que esqueci.

 Um desses homens de balandrau comprido era-me estranhamente familiar. Sentia que ele me conhecia muito bem e isso incomodava-me, porque conhecia-o, mas não me lembrava… Conhecia-o e ele conhecia-me, mas incomodava-me, porque senti que eu não tinha segredos para ele...

Lembro-me que fui depois introduzida numa outra sala. Duas mulheres vestiram-me um lindo vestido comprido, cor-de-rosa, de seda. E eu ficava muito bonita e elegante com ele. Quiseram então fazer-me um toucado com uma planta de cor branca, semelhante na forma à que tem a mulher de joelhos nos painéis de S. Vicente. Mas a planta movia-se, estava viva e era lindíssima e eu recusei, porque não quis que a cortassem, que ela morresse por minha causa. Então, uma das mulheres, inesperadamente, disse: «Está bem. Vais tê-la quando a mereceres!» Na altura não percebi a lógica, mas talvez tivesse recusado a oferta, porque não estava preparada para ela. Será?

A seguir foi-me mostrado o homem novo em construção. O corpo estava pronto, era muito belo, talvez mais alto do que é actualmente, de uma cor dourada. E de seguida levaram-me a uma sala, mais interior, e mostraram-me o futuro. Felizmente, esta parte esqueci, completamente. Seria talvez um fardo pesado demais!

Então desci, levitando, na capela que era a minha casa, e os meus amigos fizeram-me uma grande festa. E um deles disse-me:

«A partir de agora só está do lado do bem!»

E eu respondi, mais ou menos o seguinte: «Não. Eu aprendi que o mal é só o atrito que nos faz avançar!»

Tenho este episódio descrito com mais rigor, em outro local, mas não vou agora procurá-lo. Acho que o que descrevi dá em síntese tudo o que se passou.


A FECUNDAÇÃO DA LUA



Parei para me perguntar porque estou a contar isto. Será que a Humanidade no seu todo vai passar por este processo? Que sou uma das pessoas a quem cabe a obrigação de abrir caminho para que tudo seja mais fácil e simples? Será muito redutor dizer isto assim, porque cada um de nós no seu percurso está a abrir caminhos de luz, mesmo, ou sobretudo, quando atravessa a noite escura da alma.

Por essa altura, acordava de noite a ver o Sol. E trazer o Sol do sonho era sempre uma experiência que me parecia dilatar a alma. O Sol alternava com a Lua. Por vezes via o Sol. De outras vezes, via a Lua. Até que uma noite no firmamento, estavam do lado esquerdo o Sol e do lado direito a Lua, e o Sol lançava raios sobre a Lua. E eu acordei sabendo que o Sol tinha fecundado a Lua e fiquei com este conhecimento, sem me levantar questões, mas pensando que eu própria fora, de certa forma, fecundada na Luz.

Mais tarde pintei um quadro que mostram as três faces da Lua, a Velha, a Mãe, e a Adolescente, no grande mistério que é a Lua.

O sonho levou-me então à descoberta de outros planetas. Lembro-me especialmente de Saturno e do seu anel dourado. E de um Planeta que toda a sua aura era uma vibração de amor. Ali eu quis ficar ou voltar, mas só me deixaram ir lá uma vez. Talvez houvesse o risco de, na próxima, eu não querer mesmo regressar.

Então comecei a ver não só este Sol que nos ilumina e aquece, mas outros sóis. Até que me mostraram sóis em prateleiras. Aí eu fiquei zangada, porque achei que algum espírito zombeteiro estava a brincar comigo… E, durante muito tempo, o Sol deixou de iluminar as minhas noites.

O tempo passou e encontrei uma outra chave. Era de ouro e prata. Trouxe-a comigo durante cerca de vinte anos, sem saber para que servia. Até que um dia, inesperadamente, soube. E, como sempre acontece, quando se tem a chave e se encontra a porta, ou o que a chave abre, a porta ou o quer que a chave abre já está aberta…

Este é um dos segredos do caminho espiritual. Primeiro, tem de se encontrar a chave. Depois, tem que se encontrar a porta. E, quando se tem a chave, a porta já está aberta… Pode-se entrar.