quinta-feira, 27 de setembro de 2012

As Três Árvores do Paraíso




DA ÁRVORE SECA À ÁRVORE FLORIDA




Quinze anos foi o tempo que demorei a pintar este quadro. Desenhei-o em 1990, mas quase tudo me pareceu estranho. Sabia quem era a personagem central e os dois rostos sobrepostos da terceira árvore, mas não sabia nada da simbologia da árvore seca. O desenho ficou em grande parte delineado, à espera que eu sentisse impulso para o pintar. Olhava muitas vezes para ele, mas não me apetecia pintá-lo. Era um quadro estranho. Árvores sem folhas, iria ficar uma coisa triste…

Os anos passaram. Mais de dez. Um dia o impulso surgiu e comecei a pintar a figura central. Devagar, muito devagar, pondo muitos outros quadros à frente. Pendurei-o no meu atelier, espaço que, enquanto os miúdos foram pequenos, foi o quarto da empregada. Ia namorando-o, que é a minha técnica de falar com o quadro e de o adivinhar. Entretanto, outras personagens foram surgindo, enriquecendo a «história». Pintava mais alguns aspectos e punha de lado. E os anos foram passando. Finalmente, em 2005, senti que chegara o tempo de o terminar. Entretanto, tinha feito uma longa aprendizagem com ele, que deu um grande passo em frente quando me chegou às mãos o livro de Christian Jacq, «A viagem Iniciática».

Terminara o quadro, já há algum tempo. Tinha-o dependurado na parede ao fundo, mesmo defronte do meu cadeirão, na sala de estar. Levanto os olhos para descansar a vista, pouso-os no quadro em frente. E faz-se luz. Descubro que o livro me estava a explicar a simbologia do quadro. Imaginem o sobressalto! E também o deslumbramento.

O livro falava-me porém somente de uma parte da história. Do significado da árvore seca. Mas foi só um passo da caminhada. A intenção de escrever sobre o quadro levou-me a reflectir mais fundo. O livro fala da árvore seca, mas o quadro que pintei apresenta três árvores substancialmente diferentes umas das outras, todas secas! Ontem, depois de ter decidido escrever sobre o quadro, descobri, em meditação, que tinha pintado as três árvores do Paraíso. E, no quadro, não é só a árvore da vida que está seca. Todas estão secas. Que horror!

Foi então que comecei a pensar o quadro, depois de ter andado todos aqueles anos a senti-lo. Não foi só a Árvore do Conhecimento que secou, mas a Árvore da Vida e a Árvore do Bem e do Mal. Tornaram-se árvores secas todas elas! No meu quadro, só a Árvore do Bem e do Mal floriu, num ramo que entronca na Árvore do Conhecimento. Querará isto dizer que só o conhecimento poderá fazer florir a árvore em que evoluímos?

Reparem, à vossa esquerda está a Árvore da Vida, ao centro a Arvore do Conhecimento e à direita a árvore dupla, do Bem e do Mal.

 




A ÁRVORE DA VIDA: Do tronco da Árvore da Vida surge a mulher, que vai depois reproduzir a Vida, enquadrada em troncos que se movem ao vento. Cada uma de nós, cada um de nós é esse tronco frágil que se move ora em doçura, ora na fúria da tempestade ou na fragilidade do ser. Será isso que somos, troncos que balançam ao rimo do vento da Vida? Sob o signo da Lua, que se vê entre os “dedos”.
Já uma vez escrevi, em outro lugar, que os meus desenhos sabem mais do que eu. E repito-o: os meus desenhos são um conhecimento que passa por mim e me ensina, à medida que estou pronta para aprender.







A ÁRVORE DO CONHECIMENTO: A figura central que, desde a primeira hora, soube que era a Infanta D. Maria, elevou a Árvore do Conhecimento até ao seu coração e deixou-o seguir depois até à garganta, despertando em si o Sol. Numa vida que se distingue pelo silêncio (tão pouco, oficialmente, se sabe de si!), amou, sofreu e resignou-se, submetendo a sua vida à coroa e a Portugal.








A ÁRVORE DO BEM E DO MAL: E a árvore do bem e do mal floriu. Floriu pelo Amor. D. Maria amou o poeta Luís Vaz de Camões. AMOU, SOFREU E CALOU. Era uma das mulheres mais ricas da Europa, mas morreu sem casar. Morreu, quando quis morrer. Apareceu-lhe uma ferida numa perna e não se deixou tratar. Ela antevia o que estava para acontecer com Portugal. O reinado desastroso de D. Sebastião, a perda da independência. Os físicos que a quiseram tratar chamaram um notário e lavraram um auto para livrarem a sua responsabilidade. Nem assim ela mudou de ideias. Parece que chorou nos últimos dias de vida, mas no silêncio e no sofrimento a sua ÁRVORE FLORIU.




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A INFANTA TEVE UM AMOR…


Mostrarei, proximamente, o drama que, para a Infanta, foi o seu amor por Luís de Camões, e que acabaria por determinar que ela nunca casasse, embora nisso também pesassem os interesses da Coroa. Ela era demasiado rica para que o rei seu irmão, D. João III, se disponibilizasse a transferir a sua fortuna para o estrangeiro. Por umas razões ou outras, os vários casamentos negociados acabaram sempre por não se realizar.

O seu amor frustrado por Camões chegou a ser falado nas cortes estrangeiras, mas o destino das mulheres nas casas reais era então o de serem usadas como moeda de troca, segundo o interesse prevalecente da Coroa, da Família e do País.

Durante a sua vida, D. Maria foi obrigada a silenciar o se amor por Camões. A escultura que dela fiz quebra esse silêncio. Numa manifestação porventura chocante, Maria afasta a roda do vestido para mostrar o amor que «debaixo da saia tinha», num trocadilho com a melopeia popular que todos aprendemos em criança, lembram-se? «Uma velha que tinha um gato e debaixo da saia o tinha…» 





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