segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O Cipreste Sagrado




O CAMINHO DA DOR E DA SOLIDÃO



As histórias infantis contam-nos as vidas fabulosas de príncipes e princesas, como se elas fossem o expoente máximo que o comum dos mortais desejaria poder ser e viver. Que grande ficção! As histórias de príncipes e princesas são fábulas que pretendem dar exemplos de vida. Na realidade, o aparato de vidas faustosas esconde a mais profunda solidão e submissão aos interesses do grupo e à consolidação do poder. Tudo é sacrificado a esses dois objectivos, desde a vontade e as inclinações pessoais à própria liberdade de sonhar. Tudo está condicionado aos interesses da família a que pertencem. E só o espírito de missão, a lealdade familiar, o medo de perder as benesses que o estatuto confere, permitiu que o mito se mantivesse até aos nossos dias.

Nem sempre foi assim e, felizmente, tudo isto parece prestes a desaparecer. Quando pudemos ver o príncipe Harry nu, isso significa que finalmente o tabu foi vencido e que o estatuto perdeu a primazia para dar lugar ao humano. A etapa seguinte, é claro, vai ser menos agradável, quando os britânicos integrarem que não vale a pena continuar a manter a ficção da grandeza da realeza, quando é ela própria a expor na rua a sua nudez.

Isto vem a propósito da solidão e da dor que marcou a vida da Rainha Santa Isabel. Quando eu era criança ouvi e li, como a maior parte dos portugueses, histórias sobre a Rainha Santa. Lembro-me de a imaginar com o avental cheio de rosas, num pátio onde havia um sino e uma escada estreita, que a rainha iria descer. O milagre das rosas ficou fixado para mim neste flash, que não sei se tem apoio no real e que, aliás, nunca quis esclarecer. É possível que o tenha lido num poema, no livro da primeira ou segunda classe. Ou visto em sonhos. Não sei.

Como já referi em outra oportunidade, Isabel de Aragão foi uma das primeiras personagens que surgiram quando comecei a desenhar e a esculpir. Ela surgiu no dia em que fiz os primeiros desenhos. Aliás, Isabel de Aragão foi um dos poucos rostos identificáveis nos desenhos dos primeiros tempos. O outro, que identifiquei um pouco mais tarde, foi o da Infanta D. Maria, filha de D. Manuel. Este foi um desenho que me incomodou especialmente. Isso não aconteceu com mais nenhuma personagem, e incomoda-me falar disso, mas acho que o devo revelar: o rosto de D. Maria surgiu associado a um demónio, que a torturava. Quis ignorar essa figura, mas ela ressurgiu no extremo do desenho, (à direita), como testemunho de algo que tornou a Infanta infeliz durante toda a sua vida. E o estranho é que, ao querer ignorá-la, a imagem acabou por tornar-se maior. Acabei por aceitá-la e deixá-la ficar.

Na mesma página desenhei um velho, aparentemente judeu, que nunca cheguei a identificar. E, já agora, chamo a atenção para a mulher com o barrete branco dos condenados ou suspeitos de heresia, que obviamente esteve sob a alçada da Inquisição. Não sei o que lhe aconteceu. Estes foram caminhos que acabaram por não se desvelar. Talvez não se tenham tornado relevantes ou necessários para o meu percurso de vida. Ou talvez ainda se venham a manifestar… Se algumas destas personagens ilustram o meu percurso na Terra, devo ter passado por algumas situações muito complicadas. Felizmente hoje trata-se só de imagens, lembranças, porventura imaginações que serviram e servem para lições de vida.


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A REALEZA E O SAGRADO


No percurso do planeta Terra, a realeza desempenhava uma importante função: a da ligação do Humano com o Divino. Os Reis eram intermediários entre as forças celestes e terrestres. Garantes da harmonia entre o Céu e a Terra e da fecundidade do Planeta.

 Era, portanto, uma função sagrada, sacralizada, a da realeza. Foi o tempo dos reis pastores e reis sacerdotes, que tinham como insígnia de poder o sinal que assinalei quando vos falei do cromeleque dos Almendres ou Almendra, segundo a nova grafia.

O mais próximo que temos com a realeza desses tempos míticos é a lenda do Rei Artur. O Rei que tirou a espada da pedra. Isto é, o Rei a quem o Céu concedeu a espada, a insígnia do Guerreiro Espiritual, como instrumento de Vida, não de morte. A espada como receptor e catalisador de energia, a ligar a Terra e o Céu. A espada como símbolo de fecundidade. Da verdade última do Ser.

Não vou alongar-me em explicações sobre o simbolismo da espada. A Internet tem imensa informação; mas não é essa que é verdadeiramente importante, mas a explicação que encontrar dentro de si. É aí, no interior do seu coração que deve procurar o significado da espada e o sentido que ela pode ter na sua vida. É aí, nesse fio-de-prumo, que deve temperar o seu coração: Nessa espada de luz, a que cada um de nós virá a ter acesso no decurso da sua evolução.

 Viemos à Terra para nos experimentarmos. Sem pecado nem castigo. A Vida é uma aventura e se não passarmos por todos os papéis, como poderemos avaliar as suas potencialidades? Cada um de nós já foi rei e mendigo, poeta e salteador de estradas, temos de experimentar todos os papéis para termos a medida da grandeza absoluta e da pequenez mais total. O problema é que não temos sentido da experiência e nos deixamos soçobrar na pequenez e o que não é menos grande na própria grandeza. E tudo se repete até que um dia, nessa busca interna, vamos descobrir quanto nos distanciamos do que realmente é importante! Empurrados a modelar o nosso ser segundo uma ilusão, próximo de uma máscara de Carnaval, acabaremos todos, mais dia, menos dia, por a deixar cair quando nos aproximarmos da nossa verdade interna. Revestidos de uma importância fictícia vamos um dia descobrir, admirados, que afinal somos muito mais importantes do que alguma vez julgamos ser ou vir a ser. E só poderemos descobrir isso na maior humildade.


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O PERCURSO DE ISABEL



Destinei a mensagem de hoje a Isabel de Aragão, rainha e santa em Portugal, e vejo-me a perder-me em palavras porque me é difícil abordar a personagem que ela foi. Reparo que faço uma separação entre a mulher a caminho da santidade e a rainha. E não percebo este mecanismo. Se penso na santa custa-me seguir o sofrimento e as lágrimas que surgem nos desenhos. E vejo-me a ter pudor de mostrar a dor que marcou a vida dessa mulher. Na minha memória de criança ela continua a ser a santa do milagre das rosas e não a que chora, porque o filho se revoltou contra o pai. E não a que se deixa abater em profunda tristeza, no final da vida, ao fitar o panorama do que viveu.


Vejam Isabel, segundo as imagens que dela fui tendo. Isabel menina, com uma curiosidade e avidez insaciável. Avidez de saber, de conhecer, espreitando até o que pretenderiam esconder-lhe. Desenhei-a, pintei-a, modelei-a tantas vezes, que se me tornou próxima, familiar e, ao mesmo tempo, distante. 

Aproximo-me dela a medo, medo de não a perceber, de interpretar mal o que dela li, o que dela vi, o que dela julgo saber. Adi-o escrever, como se estivesse à espera que ela ganhe densidade em mim. Vejo a curiosidade e a dor: também vejo a determinação. E sinto a minha atrapalhação perante uma personagem que se tornou real para mim nos desenhos e no barro e me parece escapar à concretização da palavra.


Não consigo ser a receptora do que ela tem para dizer. Talvez porque ache que tenho algo a dizer por ela, algo que ainda não sei o que é. Vou dormir. Talvez amanhã saiba o que há a dizer, se alguma coisa há a dizer. De repente pensei que devia calar-me e apresentar sem palavras, o que dela tive consciência ao longo dos últimos 25 anos. É isso. Não vou dizer mais nada. Vou deixar que as imagens o digam. Façam a vossa leitura. Retiro-me para que ela seja. Deixo-vos Isabel como o Cipreste Sagrado. Uma árvore de silêncio e solidão, que cresceu com ela e se tornou frondosa. Uma árvore que resiste ao tempo, cada vez mais bela.





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