UMA INICIAÇÃO A QUATRO
TEMPOS
A
experiência de Vida do Ser Humano tem decorrido no jogo dos quatro elementos:
Terra, Água, Fogo e Ar. Creio que são estes quatro elementos que nos permitem
desenvolver e testar o nosso Ser interno, nesta aventura que é a nossa passagem
pelo planeta Terra. E isto sem fazer considerações nem especulações acerca das
razões porque estamos aqui. E porque voltamos e voltamos e voltamos. Há os que
dizem que viemos aperfeiçoar-nos ou liquidar culpas passadas. O que nos leva a
perguntar: e da primeira vez que viemos já teríamos culpas? Não fomos criados
perfeitos? Seremos nós os anjos caídos? E que imperfeição na Criação terá
permitido que os Anjos pudessem decair?
Claro que não vou responder. Não sei. Com os
dados disponíveis só posso especular. E, aliás, não estou preocupada com este
tipo de questões. O que me importa realmente é tentar saber como podemos
escapar a este jogo. Ou como podemos jogá-lo conscientemente, com grandeza.
Quando um poeta diz: «faz da tua dor um poema», está a apontar-nos uma saída: a
da Grandeza Interior: O poema que oferece é a oportunidades de outros
ultrapassarem os seus limites e se tornarem eles próprios poema. E se cada um
de nós fosse um poema, a Vida Humana seria uma sinfonia incomparável. Deus, ou
aquilo a que chamamos Deus, só pode ser um poema, em que cada um de nós é uma estrofe. Se calhar é esse estadio que nos
espera. É por isso que digo que somos deuses.
A maior
parte de nós passa ao lado do mistério da Vida. Está tudo em nós. É só preciso
activá-lo, mas isso só pode acontecer se nos despirmos dos jogos deste mundo,
se caminharmos pela verdade do ser, pela fragilidade da sua grandeza. Tinha eu
46 anos quando descobri o mistério da ligação do ser Humano ao Divino. Ou, pelo
menos, a uma Vida mais vasta, em que acreditar não é uma expressão de fé, mas a
vivência quotidiana do mistério. Descobri circuitos de energia no corpo, que
desconhecia. Passei a olhar o Sol de frente. Ouvi música na minha cabeça, que
teria podido registar se a soubesse escrever. Via o Sol de noite, de olhos
fechados e, pelo menos duas vezes, no meu quarto, de olhos abertos. E fui muito
feliz, num equilíbrio conseguido entre duas realidades.
Vem tudo
isto a propósito de um sonho, que tive por essa altura e que vou contar, por me
parecer que pode ajudar alguém. Trata-se de um sonho sobre os quatro elementos,
Terra, Água, Fogo e Ar. Por esta ordem. Um sonho que me revelava a mim própria.
Um sonho, em quatro partes, na mesma noite.
Eu era muito
jovem. Talvez tivesse 15 anos ou um pouco mais. Era sacerdotisa, mas estava
sentada no colo de um homem, numa rocha, no meio de um campo de papiros. Beijávamo-nos,
quando tive a percepção de estar a ser vigiada por um sacerdote. Tive medo e o
sonho terminou, para continuar de seguida à beira mar.
As ondas eram baixas e derramavam-se
preguiçosamente em espuma na areia. Então vi, na babugem da água, que a minha
cabeça cortada boiava nas ondas, indo e voltando de novo até à areia,
repetidamente, até que a imagem desapareceu.
No terceiro
sonho eu teria dez, onde, o máximo doze anos. Estava bem vestida, com roupa
ritual e ia a subir a montanha. Eu sabia que subia à montanha para ser
sacrificada ao vulcão. O grande sacerdote ia a meu lado, mas a minha sensação
era que não estava a ser tratada com a elevação e o respeito que a cerimónia exigia
e, conforme andava, ia acumulando um certo ressentimento. Ia ser sacrificada e
isso exigia que me mostrassem reverência. Era isso que sentia, não revolta por
ir ser sacrificada ao vulcão.
Chegamos. O
grande sacerdote estava a preparar-se para o sacrifício. Estou junto à boca do
vulcão, vejo o vermelho do fogo. A minha decisão está tomada. O sacerdote está
a terminar o ritual. Nesse momento, antes que o sacerdote me toque, eu lanço-me
voluntariamente ao magma ardente da lava do vulcão.
Recordo a
entrada nesse magma vermelho de fogo e sinto que sou ternamente envolvida,
impregnada dessa força ígnea, amada, poderosa, feliz. A sensação foi tão
arrebatadora que acordei. Revivi todo o cerimonial, essa entrega voluntária, a
transmutação pelo fogo, depois da passagem pela Terra e pela Água e ouvi-me
dizer: “Agora falta o Ar»! E adormeci.
Estava no
cimo de uma montanha, junto ao precipício. Mais um passo e caio no abismo. Por
trás de mim, o mesmo homem que me espiou e me levou ao vulcão está radiante. Eu
não tenho escapatória. Finalmente, vai poder aprisionar-me. Olho-o, sem dizer
nada. Olho o abismo. Acho que não penso nada. Tenho só uma sensação de
liberdade, que ninguém pode coarctar. E então atiro-me ao abismo.
Atiro-me ao
abismo, mas não caí. Não sabia, mas tinha ganho asas e em vez de cair, voei.
Conto isto,
porque acho que todo o ser humano tem que passar pela iniciação dos quatro
elementos e só atingirá a liberdade, seja isso o que for, quando conseguir
«voar».
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OS QUATRO SÍMBOLOS DO
CONHECIMENTO
É um
desenho, de 1989, a tinta-da-china, que se estende por uma folha de 44/64 cm.
Mandei-o emoldurar há muitos anos, mas ao contrário de quase todos os outros,
não conheço uma parte das personagens. Admito que uma delas sou eu ou, pelo
menos, é muito parecida com o que eu era quando nova. A mesma atenção, a mesma
determinação e traços muito semelhantes. Mas não me foi revelado o contexto nem
a civilização em que o jogo das personagens se inscreveu. Mas isso, ao fim e ao
cabo, não é muito relevante.
Trago aqui
este quadro para mostrar quatro símbolos de iniciação, num contexto amoroso. O
engraçado é que ainda hoje gostaria daquela personagem masculina… Claro que é
uma graça.
Reparem no
extremo direito, em baixo, a imagem do mensageiro, com asas, a selar os lábios
de uma possível mulher de conhecimento. Tudo isto se passou no tempo em que o
conhecimento era restrito a um grupo escolhido de iniciados.
Observem e
descubram os símbolos espalhados pelo quadro. Comecem pelo seu lado esquerdo,
em baixo. Vêem o cordeiro, tantas vezes imolado aos deuses?
Os pombos,
que surgem em muitos dos meus outros quadros e que são o símbolo dos
mensageiros. O papagaio, junto da pitonisa, a mensageira dos deuses. E, por
fim, a serpente, símbolo da kundalini, que passa pela cabeça de várias
personagens, que vieram dos fundos do tempo, talvez para me levar a recordar.
Espero que
possam tirar alguma informação deste desenho. Se outra coisa não resultar, fica
pelo menos a informação de que a sacralização do Homem atravessa e persiste ao
longo das civilizações, como algo eterno.
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A INSENSIBILIDADE SOCIAL DO PRIMEIRO-MINISTRO
É legítima e
apropriada a Onda de Indignação contra a comunicação ao País do Senhor Primeiro-Ministro.
A minha é tão grande que varri o seu nome da minha memória. Não me lembro como
ele se chama. Não quero lembrar-me. Não tem existência real. É um fantasma. O
mais do mesmo que ainda conheci e que, felizmente, caiu de uma cadeira. Há
sempre uma cadeira de onde se pode cair. Toda a gente sabe. A cadeira do Poder
é das mais frágeis.
Chamo-lhe o salazarento, fora do tempo e do
contexto. Salazarento, porque é um salazar com técnicas e tácticas desfasadas
do tempo. Já foi. Não queremos mais. Deixou nos cofres um ouro que não se pode
vender, e um país de analfabetos. Um País silenciado e envergonhado.
Recordo-me
que quando regressei da viagem aos Estados Unidos, que já referi neste blog, o
choque maior que sofri ao passear pelas ruas de Lisboa foi ver as pessoas,
todas as pessoas, a olhar para o chão. Choro ao pensar nisso. E lembro que a população do meu País só levantou os olhos do chão e passou a olhar em frente depois do 25 de Abril.
Não quero ver o Povo a que pertenço a olhar de novo para o chão, vencido. Não quero ver de novo o meu Povo a emigrar em massa, a oferecer aos outros países a alta qualidade intelectual que, entretanto, desenvolveu e que não deve a nenhum salazar. Não quero que os chicos espertos tomem conta do meu País e destruam a sua alma, a sua garra, a sua criatividade. Não podemos deixar que isso se faça! Não podemos deixar que a RTP1 vá ser o canal de uma ideologia e o pote de ouro de um grupo. Não, não!
Não quero ver o Povo a que pertenço a olhar de novo para o chão, vencido. Não quero ver de novo o meu Povo a emigrar em massa, a oferecer aos outros países a alta qualidade intelectual que, entretanto, desenvolveu e que não deve a nenhum salazar. Não quero que os chicos espertos tomem conta do meu País e destruam a sua alma, a sua garra, a sua criatividade. Não podemos deixar que isso se faça! Não podemos deixar que a RTP1 vá ser o canal de uma ideologia e o pote de ouro de um grupo. Não, não!
Dói-me a
ligeireza com que o Primeiro-Ministro, de que não quero lembrar o nome, e a
mulher, depois daquele murro no estômago dos portugueses que foi a sua
comunicação ao País, se dirigiram com sorrisos e leveza para um concerto, onde
foram divertir-se e rir. Isto chama-se insensibilidade social. Pelo menos podia
fingir-se preocupado e ir para casa, onde podia esconder o riso à vontade.
Agora lançar para o ar um pacote daqueles e ir divertir-se de seguida, não
lembra ao diabo! É o máximo de insensibilidade social. E um Primeiro-Ministro
de um qualquer País não pode exibir insensibilidade social. Não pode abrir uma
ferida e lançar pimenta por cima. Foi o que fez. Este Povo não lhe vai perdoar.
Amen.
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