SÓ PRECISAMOS DE O DESVELAR…
No Bem e no Mal todos somos responsáveis pelo estado do
Mundo e dos Povos.. Todos somos responsáveis pela riqueza acumulada de alguns,
pela pobreza extrema de outros, pelo egoísmo das sociedades. Pela Guerra e pela
Fome que passam transversalmente por todos os Povos. É fácil e cómodo dizer que
a culpa é dos outros. Dos árabes, por exemplo, ou dos capitalistas, ou da
aridez dos solos, da desregulação do planeta. Já chega! É altura de assumirmos
a culpa comum. Todos somos responsáveis, de uma forma ou de outra, pelo estado
do Planeta, pela organização que oprime tantos de nós e pelo sofrimento dos
nossos irmãos em humanidade.
Esta reflexão impôs-se-me hoje. Quero ver-me só naquilo
que sou hoje, e isso iliba-me da responsabilidade, ou uma parte de mim
desejaria que,livres de toda a responsabilidade. Não, cada um de nós nasceu já
milhares de vezes. Na Escola da Vida temos de experimentar tudo. Desde a
abjecção à santidade. Da pobreza mais extrema à vida em palácio. O que será
melhor? O que será pior? Vejo o sofrimento a perpassar por todas as hipóteses.
Desde o déspota que tem tudo e não é amado por ninguém, ao miserável que buscou
nos caixotes do lixo as sobras rejeitadas, com que pode matar a sua fome.
Todos tivemos que passar pela dor! Então, porque ainda
não aprendemos, porque temos de repetir e voltar a repetir, desejando estar «na
mó de cima», de barriga cheia e com a embriagante sensação de Poder, que
queremos, quisemos sempre eternizar? Até quando este jogo abjecto? Não será
altura de acordar? De dizer: «porventura fomos tudo isso, mas queremos agora acordar,
reconquistar a nossa verdadeira dimensão de Ser». Que é igual, ou pelo menos
semelhante, em todas as raças humanas. Igual em cada homem e cada mulher seja
qual for a cor da sua pele e o lugar onde nasceu. Somos todos divinos antes de
ser humanos. E, sim, vivenciamos colectivamente uma espantosa experiência
comum. Mas é apenas uma experiência. Viemos trazer o Espírito à matéria, é
preciso consciencializar isso para podermos avançar para a nova étapa. É altura
de subir o patamar, de passar à quinta dimensão, de readquirirmos a noção da
nossa divindade. Pode algum filho de Deus negar a si próprio e aos outros a
irmandade e a sua ascendência divina?
Todos somos iguais. Não podemos continuar a viver numa
estrutura social em que uns são mais iguais do que os outros. Isso já foi. Já
tivemos milhares de anos em que experimentamos esse modelo, com maiores ou
menores variações. Basta! Basta, meus irmãos! Vamos agora reinventar o futuro, imaginar
uma nova Terra, sempre a mesma, sempre com novas potencialidades, aquelas que
nela pudermos visionar. Tudo depende de nós. E isto não é política. Isto é
simplesmente fruto do Amor que sempre existiu dentro de nós e está agora numa
nova fase de manifestação.
Eu acredito nisto. A Humanidade vai reinventar-se, com maior
ou menor facilidade. Vai despojar-se do egoísmo endémico, como doença do
carácter, e reinventar o Paraíso. Assim espero que seja.
Entretanto…
_____
«ESTA É UMA POLÍTICA DE GENOCÍDIO»
O Paraíso é aqui. Mas o Inferno também. E é o ser humano
que o faz.
Hoje, dia 8 de Fevereiro, sexta-feira à noite, acabo de
ouvir na televisão, pela boca de um dos idosos que se manifestavam contra o
corte das pensões, na sua maior parte já irrisórias, a acusação que deveria
fazer empalidecer qualquer governante com o mínimo de sensibilidade: «Esta é
uma política de genocídio!»
Registo aqui este grito, esta denúncia, numa praça
pública, de quem já não tem nada a perder. Será que o Governo ouviu? Será que
não se envergonha? Será que os membros do Governo podem chegar a casa e olhar os
filhos nos olhos sem vergonha?!
E será que os seus filhos conseguem olhá-los nos olhos
com amor?
Afinal, qual é a pressa de reduzir o déficit tão
rapidamente? Será para se vangloriarem das suas perfomances, condenando à fome
e à miséria uma parte significativa da população? Será que o objectivo é
chegarem às próximas eleições como os que venceram a crise? Acham que as
pessoas vão esquecer o rasto de destruição que foram deixando pelo caminho?
Já agora, lembrem-se: a velhice e a doença espera-vos, ao
virar da esquina. Quem sabe se também com as reformas de miséria a que querem
condenar os reformados de hoje?!
Sabem que além da
justiça humana há uma justiça imanente?
Nunca ouviram falar? E também não sabem que Portugal é um
dos países em que a distribuição da riqueza é mais desigual?
Tenham vergonha!
_____
O EQUILÍBRIO ENTRE
DOIS MUNDOS
Não é fácil manter o equilíbrio entre dois mundos. Viver
simultaneamente no Aqui e Agora e no Mundo do Espírito tem as suas dificuldades.
Uma delas é a tendência a minimizar o Aqui e Agora. Enquanto uma pessoa
permanece neste lado do véu, não há como escapar. Para ser verdadeiramente
consciente tem de manter firme a sua ligação ao concreto. Seria fácil deixar-se
pairar «no andar de cima», considerando que a vida é a ilusão que é, a que não
merece a pena dar muita importância, o que a um certo nível é verdade e a
outro constitui uma demissão. Creio que
vivo simultaneamente no concreto e em outra realidade, que se manifesta mais ou
menos segundo a minha disponibilidade.
Desenhar o passado foi, durante anos, uma forma de me
conhecer melhor, até que um dia achei que aquilo era muito interessante, mas
não me bastava, já não bastava para mitigar a minha sede. Então admiti que, se
deixasse de desenhar, a energia que gastava nos desenhos podia ser aplicada na
minha elevação espiritual. Além do mais, aquelas histórias, em que eu podia ter
estado envolvida, de que podia ter sido a protagonista, não me prendiam
verdadeiramente. Eu era a que desenhava, só isso! Tudo o mais eram imaginações ou
reconstituições, e ainda que, em alguns casos, eu pudesse ter sido esses seres,
hoje eu era outra, que importância tinha isso?
Confesso que nunca desenhei, pintei ou esculpi com a
ideia de que era uma artista. Eu era simplesmente a que via a figura no papel e
passava o lápis por cima, ou a que tocava no barro e o barro ganhava forma sob
o calor das minhas mãos, Não era eu, era a energia das minhas mãos que
orientavam a forma do barro. Como é que eu podia destrinçar isso? E
interessava-me destrinçar? Talvez não.
Vivia a magia do momento.
Um dia surgiu no barro a figura de um guerreiro. Um
guerreiro que me saudava com a mão no peito. Esforcei-me por realizar essa
figura de homem com a mão no peito e não consegui. Então, essa figura de homem
apareceu-me em sonhos e saudou-me com a sua mão no peito, talvez para me
mostrar como era, talvez porque ele queria mesmo saudar-me… A estatueta acabou
por ter duas faces, um homem e uma mulher, formando um só corpo, de um lado
homem, do outro mulher, mas sem saudação…
O engraçado é que, mais tarde, modelei a figura de Júlio
César, a saudar Cleópatra, de mão no peito, e não me custou nada fazer esse
braço e essa mão...
A explicação, não
sei. A verdade é que aquele primeiro guerreiro e a sua saudação me fez um certo
medo… Como se fosse um passado a que eu não queria regressar.
_____
SÁBADO DE MANHÃ
Dormi. Percebi finalmente o que me incomoda nessa escultura.
Transfere-me para um passado e uma vivência que me pareceu deslocada no
contexto geral dos meus trabalhos, mas que assinalou o início do meu despertar.
É, pelo menos, essa a interpretação que lhe dou.
Mostro o desenho que tinha posto de lado, como se fosse
algo de que não me quisesse lembrar e que documenta o mesmo par. Fui buscá-lo de
manhã, quando me decidi continuar a escrever. Ele reporta não só o estadio de
uma alma, mas a manifestação do impulso básico da vida humana, a sexualidade,
que é a etapa decisiva para o despertar do espírito. Reparem que é da cintura
da mulher que surge a cabeça da pomba. Dito de outra forma: a Sexualidade está
indissociavelmente ligada ao Espírito. O problema é que uma moral distorcida
nos levou a diabolizá-la e a pervertê-la, quando condiciona todo o nosso ser e
a nossa caminhada para a transcendência.
Por hoje, fico por aqui, Até para a semana.
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