domingo, 14 de outubro de 2012

O Segredo da Infanta




A HISTÓRIA DE UM AMOR PROIBIDO

 
Nos últimos dias tenho-me sentido indecisa face a um dos desenhos dos vários que fiz relativos à Infanta D. Maria. Não sei ao certo se posso revelar o que me foi mostrado. Na dúvida, devia porventura calar, passar à frente, mas se opto por esta hipótese, a insatisfação instala-se, como se me tornasse menos digna da mensagem que recebi. Acabo por decidir mostrar e falar do desenho em questão porque, à medida que a decisão foi ganhando firmeza, comecei a ficar tranquila, ainda que para já persista um leve aperto no peito.

 Avancemos, ou melhor, retrocedamos a uma tarde de 1988, passada em Santiago de Compostela. Foi no dia 10 de Junho, mas só agora ligo essa data ao Dia de Camões. Durante a manhã fui à catedral, andei depois pela calçada das ruas medievais. Almocei num restaurante da zona e prossegui o passeio até me sentir cansada. Regressei ao meu quarto, deviam ser 16 horas. Descansei um pouco, muito pouco. Surgira em mim o desejo de desenhar.

Desenhar vendo as linhas do desenho era então uma experiência recente, que me fascinava. Quando o apelo me chamava, vivia uma entrega que poderia durar horas. Foi o que aconteceu nesse dia. Fiquei sentada durante longo tempo a desenhar o que rapidamente percebi ser a história dos amores proibidos da Infante D. Maria e do poeta Luís de Camões. Como já disse anteriormente, a infanta D. Maria era filha do nosso rei D. Manuel I. Quanto a Luís de Camões, toda a gente sabe, foi o autor de «Os Lusíadas».

 Nessa noite alguém tocou saxofone pelas ruas de Santiago. Alio este desenho a essa música, que realmente ouvi, mas que poderá ter sido em outro dia. Foram dois eventos mágicos, que posso também magicamente misturar. Podem não ter sido no mesmo dia, mas na minha memória estão registados em simultâneo.   

Desenhei enquanto a luz o permitiu, mas só terminei o desenho no dia seguinte. Então, fascinada, fiquei horas a tentar descodificar a mensagem. Aquilo que, neste momento, antes que avance, lhes proponho que façam. Podem começar pela pomba à esquerda, de asas abertas que é, obviamente, a presença do Espírito, nos amores que se iriam desenrolar, de costas voltadas para a Igreja, mas abençoados pelo Divino., como o confirma a segunda pomba ao lado da jovem Infanta, em baixo, à direita.


É a partir daqui que o drama se desenvolve. Para trás fica um Camões dançando com uma mulher mais velha e o amor pela Infanta. A terceira parte do desenho narra um drama de que a História não fala. O da aflição da jovem infanta, com o ventre proeminente. A dor no rosto, em frente a uma velha ama, que a leva de barco para a outra margem do Tejo e, sem saber nem compreender o que se passa, Camões grita.

 Há um homem que tem uma data à volta do pescoço: 1579. Um dia entrevistei uma especialista em Camões, de que não recordo o nome, e disse-lhe que admitia que Camões tivesse morrido em 1579. E ela perguntou-me como é que eu chegara a essa conclusão, porque demorara vinte anos para descobrir isso?!

A ser verdade o que me dizem os desenhos, Camões nunca soube o verdadeiro motivo porque foi abruptamente afastado e depois perseguido, a ponto de ter de ir para o Oriente. Julgou porventura que a perseguição decorria por ter tido a ousadia de fazer a corte à Infanta.


Admito que D. Maria tenha ido para Setúbal, para o convento que a ama do rei D. Manuel, seu pai, mandara construir e tenha ali esperado a chegada da criança, se criança houve. O resto da história está documentado. A Infanta desistiu do Convento e voltou para o seu Palácio, onde viveu rodeada por um conjunto de mulheres, sempre prestes a ficar noiva, e sempre de noivado desfeito. Até que um dia desistiu de viver e não deixou tratar uma ferida que lhe tinha aparecido numa das pernas, o que lhe provocou a morte.

Não foi nunca minha intenção escrever a biografia da Infanta D. Maria, mas simplesmente evocar o drama de uma vida que parece ter sido gorada. E, todavia, talvez não o tivesse sido. E se a Infanta nasceu para criar as condições propícias a que Luís Vaz de Camões amasse e sofresse o bastante para elevar a sua alma e os seu génio até à possibilidade de sentir e escrever «Os Lusíadas»? Estou em crer que todos os sofrimentos e frustrações que ambos viveram foram a condição necessária para que o génio eclodisse em Camões, levando-o a escrever um livro fundamental à própria sobrevivência de Portugal como Nação!

 Se me foi mostrado que me ofereci para viver a vida que tenho vivido, quem sabe se, embora não o sabendo, isso aconteça sempre a cada um de nós? Quem sabe se não se passa o mesmo com todos? Quem sabe se todos e cada um de nós escolhe o tempo, o País e a família indicada para vivermos as experiências capazes de nos revelar a nós próprios? Quem sabe se aquilo que cada um de nós vive foi o drama que escolheu para manifestar o que somos e dar forma ao drama histórico em que nos inserimos?

Para que isto tenha realmente sentido será necessário que chegue um momento em que todos e cada um de nós descubra que tudo se desenrola num palco chamado Vida, em que o ser humano se vai paulatinamente revelando a si próprio. Até que chegue o momento em que o actor e a actriz que somos decidam que é tempo de regressarmos a um palco mais amplo, aquele onde se desenrola a verdadeira Vida.  



sábado, 6 de outubro de 2012

O Despertar



A BUSCA OU O SEGUNDO NASCIMENTO




O PARTO DE SI MESMO -- A busca do que nos transcende corresponde a um segundo nascimento. Surge de um despertar para algo que pode ser ainda informe, mas que se revela, desvela aos poucos, no segredo do Ser. De princípio pode ser só uma incomodidade, uma espécie de frustração ou insatisfação perante as respostas disponíveis, um saber de dentro de que há mais, que se esconde do nosso olhar e da nossa mente. Algo de que somos pai e mãe e que expelimos de forma concêntrica, um andar à volta de si mesmo, da interrogação que persiste e não se formula, um querer saber desconexo, não se sabe muito bem o quê e que se expele e se alarga, alargando a interrogação e a inquietação.  É a fase da descoberta. Sabemos que não sabemos, mas não sabermos ainda como nos aproximar desse saber, onde o procurar, a quem perguntar, como lá chegar. Entretanto, o Ser descobre a criatividade, tome as formas que tomar.  



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O PRIMEIRO PORTAL – Inesperadamente, com espanto, quase como novidade, abre-se a primeira clareira. Um Caminho. Pode chaga-se lá pela nebulosa das interrogações, por vivências inesperadas, por um caminho que se abre, como por milagre. Mas todo o novo caminho pode causar medo. Aí é preciso arriscar e entrar, logo se vê. Há escadas que é preciso subir, portas a que é preciso bater. Ou perseverar junto delas até que se abram.


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CAMINHAR PELO LABIRINTO – Há que caminhar pelo labirinto, interior e exterior. Acreditar que se chegará um dia, amanhã, mais tarde, à sala do sagrado, ao coração do segredo.  É possível que haja monstros pelo caminho, mas não têm existência real. São projecções dos nossos medos. Da insegurança, da falta de confiança, do Ser que precisa de andar às voltas para se fortalecer. Mas quando o Ser está determinado, inevitavelmente vai lá chegar. E, nestes dias, pode ser muito rápida, fulminante, a passagem pelo labirinto. A chegada ao Coração do Ser.


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O CORAÇÃO DO SER – Ali, na morada do Coração, não há mais incerteza, nem busca, nem solidão. Ali é o Porto onde tudo acontece, onde tudo É.


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  PILARES QUE LIGAM A TERRA AO CÉU – Outrora, falava-se de escada. A escada de acesso ao Céu. Nos tempos que vivemos, ergueram-se pilares à volta do Mundo, entre a Terra e o Céu. Pilares de energia que prepararam o Novo Tempo. E âncoras de luz desceram do Céu  e ancoraram energia na Terra. Energia de Redenção. De transmutação. Irradiando na horizontal.



quinta-feira, 27 de setembro de 2012

As Três Árvores do Paraíso




DA ÁRVORE SECA À ÁRVORE FLORIDA




Quinze anos foi o tempo que demorei a pintar este quadro. Desenhei-o em 1990, mas quase tudo me pareceu estranho. Sabia quem era a personagem central e os dois rostos sobrepostos da terceira árvore, mas não sabia nada da simbologia da árvore seca. O desenho ficou em grande parte delineado, à espera que eu sentisse impulso para o pintar. Olhava muitas vezes para ele, mas não me apetecia pintá-lo. Era um quadro estranho. Árvores sem folhas, iria ficar uma coisa triste…

Os anos passaram. Mais de dez. Um dia o impulso surgiu e comecei a pintar a figura central. Devagar, muito devagar, pondo muitos outros quadros à frente. Pendurei-o no meu atelier, espaço que, enquanto os miúdos foram pequenos, foi o quarto da empregada. Ia namorando-o, que é a minha técnica de falar com o quadro e de o adivinhar. Entretanto, outras personagens foram surgindo, enriquecendo a «história». Pintava mais alguns aspectos e punha de lado. E os anos foram passando. Finalmente, em 2005, senti que chegara o tempo de o terminar. Entretanto, tinha feito uma longa aprendizagem com ele, que deu um grande passo em frente quando me chegou às mãos o livro de Christian Jacq, «A viagem Iniciática».

Terminara o quadro, já há algum tempo. Tinha-o dependurado na parede ao fundo, mesmo defronte do meu cadeirão, na sala de estar. Levanto os olhos para descansar a vista, pouso-os no quadro em frente. E faz-se luz. Descubro que o livro me estava a explicar a simbologia do quadro. Imaginem o sobressalto! E também o deslumbramento.

O livro falava-me porém somente de uma parte da história. Do significado da árvore seca. Mas foi só um passo da caminhada. A intenção de escrever sobre o quadro levou-me a reflectir mais fundo. O livro fala da árvore seca, mas o quadro que pintei apresenta três árvores substancialmente diferentes umas das outras, todas secas! Ontem, depois de ter decidido escrever sobre o quadro, descobri, em meditação, que tinha pintado as três árvores do Paraíso. E, no quadro, não é só a árvore da vida que está seca. Todas estão secas. Que horror!

Foi então que comecei a pensar o quadro, depois de ter andado todos aqueles anos a senti-lo. Não foi só a Árvore do Conhecimento que secou, mas a Árvore da Vida e a Árvore do Bem e do Mal. Tornaram-se árvores secas todas elas! No meu quadro, só a Árvore do Bem e do Mal floriu, num ramo que entronca na Árvore do Conhecimento. Querará isto dizer que só o conhecimento poderá fazer florir a árvore em que evoluímos?

Reparem, à vossa esquerda está a Árvore da Vida, ao centro a Arvore do Conhecimento e à direita a árvore dupla, do Bem e do Mal.

 




A ÁRVORE DA VIDA: Do tronco da Árvore da Vida surge a mulher, que vai depois reproduzir a Vida, enquadrada em troncos que se movem ao vento. Cada uma de nós, cada um de nós é esse tronco frágil que se move ora em doçura, ora na fúria da tempestade ou na fragilidade do ser. Será isso que somos, troncos que balançam ao rimo do vento da Vida? Sob o signo da Lua, que se vê entre os “dedos”.
Já uma vez escrevi, em outro lugar, que os meus desenhos sabem mais do que eu. E repito-o: os meus desenhos são um conhecimento que passa por mim e me ensina, à medida que estou pronta para aprender.







A ÁRVORE DO CONHECIMENTO: A figura central que, desde a primeira hora, soube que era a Infanta D. Maria, elevou a Árvore do Conhecimento até ao seu coração e deixou-o seguir depois até à garganta, despertando em si o Sol. Numa vida que se distingue pelo silêncio (tão pouco, oficialmente, se sabe de si!), amou, sofreu e resignou-se, submetendo a sua vida à coroa e a Portugal.








A ÁRVORE DO BEM E DO MAL: E a árvore do bem e do mal floriu. Floriu pelo Amor. D. Maria amou o poeta Luís Vaz de Camões. AMOU, SOFREU E CALOU. Era uma das mulheres mais ricas da Europa, mas morreu sem casar. Morreu, quando quis morrer. Apareceu-lhe uma ferida numa perna e não se deixou tratar. Ela antevia o que estava para acontecer com Portugal. O reinado desastroso de D. Sebastião, a perda da independência. Os físicos que a quiseram tratar chamaram um notário e lavraram um auto para livrarem a sua responsabilidade. Nem assim ela mudou de ideias. Parece que chorou nos últimos dias de vida, mas no silêncio e no sofrimento a sua ÁRVORE FLORIU.




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A INFANTA TEVE UM AMOR…


Mostrarei, proximamente, o drama que, para a Infanta, foi o seu amor por Luís de Camões, e que acabaria por determinar que ela nunca casasse, embora nisso também pesassem os interesses da Coroa. Ela era demasiado rica para que o rei seu irmão, D. João III, se disponibilizasse a transferir a sua fortuna para o estrangeiro. Por umas razões ou outras, os vários casamentos negociados acabaram sempre por não se realizar.

O seu amor frustrado por Camões chegou a ser falado nas cortes estrangeiras, mas o destino das mulheres nas casas reais era então o de serem usadas como moeda de troca, segundo o interesse prevalecente da Coroa, da Família e do País.

Durante a sua vida, D. Maria foi obrigada a silenciar o se amor por Camões. A escultura que dela fiz quebra esse silêncio. Numa manifestação porventura chocante, Maria afasta a roda do vestido para mostrar o amor que «debaixo da saia tinha», num trocadilho com a melopeia popular que todos aprendemos em criança, lembram-se? «Uma velha que tinha um gato e debaixo da saia o tinha…» 





sábado, 22 de setembro de 2012

A Iluminação



A ILUMINAÇÃO DO SOL, DA TERRA E DA

HUMANIDADE


Em 2006, pintei um quadro a que chamei Iluminação. Quando se fala em iluminação, pensamos na iluminação de um ser humano que conseguiu, na Terra, mergulhar no Divino.

Francamente, não sei como me surgiu a ideia, mas o quadro que pintei vai para além do humano. A iluminação que me inspirava acontecia simultaneamente no Sol, no planeta Terra e no Ser Humano.

De certa forma sentia-me insignificante perante a ideia e não consegui dar a magnitude do acontecimento cósmico que me era desvendado. Tive dificuldade em encontrar o termo adequado. Revelação não era o termo, porque eu não passei a saber de repente que, num futuro próximo, se ia dar uma tripla iluminação. Foi diferente, na diferença que há entre desvelamento e revelação. Revelação é algo de fulminante, aparentemente vindo de fora. Não foi assim. A ideia foi surgindo no quadro, como se estivesse a fazer surgir algo que estava velado, mas que estava lá, sempre esteve lá. Na Terra, no Sol, no ar que respiramos, na Humanidade. Só era preciso desvelar. Não sei dizer melhor. Recentemente vi confirmada esta ideia nas «Autres Dimensions».

Quando me perguntavam o que eu pretendia dizer naquela pintura, metia os pés pelas mãos e mudava de assunto. Como é que uma pessoa igual às outras pode afirmar que se vai dar uma iluminação colectiva? É pura loucura, não é? Agora, já não estou sozinha.

Depois, há outra questão: e se me perguntassem o que irá ser a iluminação do Sol, da Terra e do Ser Humano? Não sei. Talvez seja uma transfiguração, foi a palavra que me ocorreu. Olhando para dentro, seja o que for que vai acontecer, é muito belo e vai ao mais fundo do coração.

Resolvi mostrar esta «iluminação», no dia do Equinócio do Outono. Deve haver uma razão, que eu não sei.


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A LIGAÇÃO DO ORIENTE AO OCIDENTE


Porque hoje é o equinócio sou também compelida a mostrar dois quadros com a mesma personagem central: a Infanta D. Maria, filha do rei D. Manuel I e da sua mulher, a rainha D. Leonor, irmã de Carlos V.
Ambos os quadros foram pintados em 1990, um dos quais numa tarde, num hotel da Praia Grande, frente ao mar. Nunca me tinha acontecido pintar uma história tão complexa em tão pouco tempo.

O mais estranho para mim é que tenha pintado, com intervalo de meses, dois quadros a dizer a mesma coisa. D. Maria surge como a figura central, a força que reúne em si o Oriente e o Ocidente, através de várias personagens históricas.

Reparem que, num dos quadros, o toucado de D. Maria tem uma letra japonesa, que não sei o que significa, mas que estava lá e a que eu somente dei cor. Há ainda uma mensagem, que não descodifico, num retábulo, ao alto, no seu lado esquerdo, depois do casario.

Sinto que coube a esta mulher fazer em si a ligação de vários tempos, num determinado País, que foi Portugal. Não, não sei o sentido, mas ambos os quadros dão a mesma mensagem: um passado de muitas vidas que se reúne à volta da personagem central, como se ela fosse a forma centralizadora. É um reencontro e uma integração, num ser que resguardou a sua intimidade e que aparece a chorar, num dos muitos desenhos e pinturas que dela fiz, «contando-me» o drama da sua vida.


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A DESCIDA DA JERUSALÉM CELESTE?


À última hora resolvi mostrar-vos um óleo com diversas imagens da Rainha Santa Isabel numa situação que de há muito se espera e que talvez, finalmente, esteja para acontecer: a da descida da Jerusalém Celeste. Veja-se a rainha a observar a descida, sorrindo, mas de certa forma espantada com o que vê, com a mão erguida à frente da boca.

O quadro foi pintado em 1990. Lembro-me de o ter mostrado a uma colega que fazia crítica de arte. Para meu espanto, ela olhou e recuou assustada. Na altura, eu não fazia ideia do que a pintura poderia querer dizer. Para mim era estranha, só isso, e talvez a tenha mostrado para ver se suscitava uma interpretação.
A minha colega não soube dizer-me porque reagira daquele modo. Disse-me qualquer coisa, como «faço crítica de arte, porque tenho uma reacção especial em relação à pintura…» E não disse mais.

Eu via a estrutura que descia do céu, mas não sabia interpretar. Só recentemente me perguntei: «será que é a Jerusalém Celeste?» Não é uma afirmação, mas uma interrogação. Sinto-me humilde, muito humilde, perante o mistério. E nunca me atreverei a afirmar: eu sei. Não, posso enganar-me nas interpretações que faço. A minha verdade é que recebi uma mensagem e a passo. Espero que a possam compreender. Se isso acontecer, sentir-me-ei compensada por esta exposição, que é contra a minha natureza.  
E, por hoje, fico por aqui. Bom Equinócio.




terça-feira, 18 de setembro de 2012

Um Dia De Cada Vez




MUDANÇA DE PARADIGMA A NÍVEL PLANETÁRIO?


Os tempos não estão fáceis. Não me parece que haja alguém que saiba realmente o que o futuro próximo nos reserva. E não estou a falar da situação do País, ou da Europa, que pode ser difícil, mas é resolúvel.
Estou a falar da iminência possível do fim dos tempos, segundo uma das leituras do calendário Maia. Ou, o que me parece mais previsível, de uma possível mudança de paradigma a nível planetário.

A idade trouxe-me a reforma e com ela muito tempo livre. Por outro lado, manteve em mim a insaciável curiosidade e interesse pelo que se passa à minha volta. Ainda reajo e me indigno com a política, mas dá-me serenidade saber que a política é um fenómeno sempre em devir e que não há nada estável, nem governos, nem economias.

Vivi o bastante do fenómeno social. Fui casada com um político, tive salários em atraso, fui a manifestações, embora sempre tivesse tido horror a multidões. Devo ter memórias passadas de que uma multidão dinamizada em determinado sentido pode tornar-se num fenómeno incontrolável. Mesmo tendo esse horror físico, e essa memória do passado ou do futuro, não deixei de ir a manifestações quando a minha consciência me dizia que a minha presença era necessária.

Já vivi algo de semelhante ao que se passa hoje e se vai passar. Continuo a indignar-me, mas não estou perturbada. Os políticos passam, o Povo fica. Às vezes, é preciso dar um empurrão para que os políticos passem mais depressa. Estamos a viver um desses momentos. Os países continuam depois de todos os «indispensáveis» terem morrido, envelhecido ou sido afastados. Mas há uma questão maior que ainda não abordei aqui: e se estivermos realmente não no fim da História, mas numa mudança colectiva de paradigma?

Não tenho resposta, claro. Como disponho de muito tempo livre, gasto-o, por vezes, em investigações na Internet. Foi assim que cheguei a um site francês intitulado «Autres Dimensions». Foi uma descoberta de há dois ou três anos, que fui seguindo, nem sempre com regularidade, mas sempre com interesse. Interesse não significa crença absoluta ou confiança cega, mas a minha experiência pessoal confirma muitas das coisas que lá encontrei, sobretudo ao nível da irradiação das energias subtis pelo corpo. Descobri, creio que no ano passado, um blog brasileiro, «Minha Mestria», que publica, em português, os artigos das «Autres Dimensions».

 Vale a pena ir espreitar as «Autres Dimensions». Os ensinamentos são correctos, tanto quanto posso dizer da minha experiência. O fogo do coração, que ensina a estimular, é uma realidade, assim como a abertura da cabeça ao Cosmos, que em mim começou, há mais de 20 anos, então com um fiozinho de energia a sair ou a entrar pelo meio da cabeça. Tudo isso é real, posso confirmá-lo, por experiência.

Não sei nada, porém, sobre o que pode estar para acontecer à Humanidade nos próximos tempos. Não cheguei aí. Ou recuso-me a chegar. Mas sei que escolho ficar na Terra para ajudar a Humanidade que não possa ascender Isto a confirmarem-se as Profecias. Quando digo ficar na Terra, quero simplesmente significar a decisão de voltar a nascer na Terra. E só decidi isto há poucos dias, como se eu pudesse decidir…

«O Povo é sereno!» disse, nos tempos da Revolução, o Almirante Pinheiro de Azevedo, em reacção a um episódio qualquer, acho que de fogo e fumo, durante uma manifestação no Terreiro do Paço. O Povo é sereno e, como a manifestação de sábado provou, vai contestar com serenidade a política deste Governo. Também com serenidade há-de acolher o que está para vir, se algo de radical está para acontecer no Planeta.

 O Povo é sereno e somos todos deuses, filhos de Deus. Com a capacidade de nos adaptarmos e de reagir, como ficou provado. Pode não ser verdade e não estar para acontecer nada à escala planetária, mas não faz mal a ninguém estar informado. E a acontecer, o que antevejo é uma mudança súbita e radical do funcionamento das sociedades. Só não sei que fenómeno ou fenómenos planetários vão levar as pessoas a aderir simultaneamente a um novo relacionamento com o Planeta. Não sei se isso será motivado por uma série de cataclismos ou, e é essa a hipótese para que me inclino, porque vai dar-se, quase simultaneamente, uma mudança de mentalidades, como se as pessoas uma manhã acordassem já num novo paradigma.

Pura fantasia? Será, mas seria bonito. Pois então, vamos cingir-nos só a Portugal. Talvez a mudança tenha começado na Grécia, com toda aquela confusão, e prossiga agora aqui. O Povo já não quer mais do mesmo e o tempo das atitudes ditatoriais já foi. As pessoas têm hoje uma nova consciência de quem são e dos seus direitos. Querer impor restrições às cegas é um disparate. Salazar pôde fazer isso, porque governou um povo maioritariamente analfabeto. Felizmente, não é o que acontece hoje. Essa é a nossa mais-valia, face ao exterior e a possíveis atitudes ditatoriais. Hoje, o colectivo das pessoas sabe que os governantes são meros servidores do Estado e do Povo. SERVIDORES! E têm de ter consciência disso. A sua força vem exclusivamente do apoio que o Povo lhes dá. Quando esse apoio lhes é retirado, a queda é uma questão de tempo. Já não há energia no planeta que possa suportar ditadores.


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A INFÂNCIA DO ESPÍRITO


Soube, aos 21 anos, que tinha uma missão. Eu amava e era amada. Um dia, o meu amado fez-me uma pergunta, que me causou um choque profundo. Ele perguntou-me, num momento de profundo enlevo, quem eu era realmente?

Nesse momento fui transportada a outro local. Eu tinha uma túnica branca até aos pés e estava junto a uma coluna de pedra muito alta. À minha volta havia mulheres ao lado de outras colunas. Numa penumbra viva, ouviu-se uma voz a pedir que alguém se oferecesse para uma determinada tarefa. E eu ofereci-me. Nesse momento houve, à minha volta, um burburinho, como se a tarefa fosse difícil, mas eu não sentia nem o alvoroço nem a dificuldade.

Nessa altura, tive a noção que estava, ao mesmo tempo, em dois locais: nesse templo sem tecto, com outras mulheres de túnica branca como eu, e junto ao meu amado. Dei um grito de espanto por poder estar em dois sítios ao mesmo tempo e voltei a ter consciência de estar só junto ao meu amado. Ou a ter somente consciência disso.

Nos dias seguintes sentia que havia presenças à minha volta e era muito desagradável. Queria vestir-me e despir-me sem me sentir espiada. E declarei alto que não queria gente à minha volta. Acho que devo ter uma vontade forte, porque as vozes e as presenças desapareceram.

Numa outra noite acordei, de madrugada. Na luz da antemanhã vi o busto do meu amado, que dormia a meu lado, suspenso no ar. Fitava-me, fixamente e prolongadamente, como quem me avaliava. Fitei-o também durante muito tempo, sem nenhuma estranheza, até que me cansei. Nessa altura, o busto do meu amado começou a desaparecer, em pontinhos no ar, até que ficaram apenas as primeiras luzes do alvorecer. Virei-me para o outro lado e adormeci.

 Então, tive um sonho. Sonhei que estava num jardim maravilhoso. Um jardim encantado. Tinha um cão a meu lado, grande e muito bonito. Esse cão era o guia que me mostrava e explicava esse jardim. A certa altura, passamos por um castelo, ou uma casa castelo e ele explicou-me do que se tratava, mas não me lembro. A certa altura disse-me: «Daqui a vinte anos…» Continuamos a andar e chegamos a uma igreja. Eu entrei sozinha. No altar-mor havia uma grande cruz, com o Cristo crucificado. E, perante a cruz, eu pensei: é preciso descrucificar Cristo. Acordei e lembrei-me que tempos antes tinha escrito um artigo numa revista do Porto, por altura da Páscoa, com o título: «É preciso descrucificar o Homem.» E pareceu-me a mesma coisa.

Vinte anos depois, como me dissera esse extraordinário cão, e sem ter conhecimento do que isso significava, uma noite, sozinha na cama, descobri a verdadeira natureza do ser humano ao sentir um sopro que fez subir uma poderosa energia pela minha coluna. E eu, sem saber o que significava, disse a mim própria, no fim dessa noite em claro: «Agora falta a cabeça».        

Depois, nas semanas seguintes, a energia inundou a minha cabeça e fiquei ao serviço do Céu e da Terra, esperando que toda a humanidade retomasse a sua ligação ao divino.

Outrora, no Ocidente, isto só poderia acontecer dentro dos conventos e, mesmo aí, a freira ficava sob vigilância apertada, porque no exterior corria o risco de ser considerada bruxa e queimada na fogueira. Santa Teresa d’Ávila, que narra esse processo, em termos religiosos, esteve sempre sob vigilância apertada.
Fui impelida a contar isto hoje, porque creio que, nos próximos tempos, este processo vai alastrar por toda a humanidade. Não sei o ritmo em que vai acontecer. Mas é para mim evidente que esta é a condição para fazermos a ligação ao divino, que somos.


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UM DIA DE CADA VEZ


Se fossemos realmente inteligentes, viveríamos um dia de cada vez. Ou seja, viveríamos a eternidade do momento, que é realmente a única coisa que temos, libertos da preocupação de arrecadar para um futuro imaginário.

Uma noite mostraram-me um lavrador a trabalhar a terra, dizendo-me que o importante não era o fruto que ele haveria de colher, mas o que ele estava a lavrar em si, enquanto trabalhava a Terra, como se o processo fosse idêntico. Talvez seja.

 Cada um de nós, ao longo de múltiplas vidas, lavrou o seu ser íntimo e arrecadou uma série de experiências, que darão porventura um sentido mais vasto, ou pelo menos um outro sentido, à descida do Homem à Terra. Quando regressarmos ao Paraíso -- seja isso o que for! --, os que regressarem irão com uma mais-valia, que não pode ter quem nunca desceu à matéria.

Olho para as memórias que me chegam e verifico que há já muitas repetições. Começo a pensar que é altura de descansar mas, ao mesmo tempo, sinto o fascínio do incerto, as probabilidades que se jogam e descubro-me aventureira. Uma aventureira do espírito, que é o que todos somos, mesmo aqueles de nós que estão assustados com a vida e sofrem com a incerteza do pão nosso de cada dia, que é um direito fundamental.

 Casa, Pão, Saúde, Habitação, segundo um slogan do 25 de Abril, que resumia os direitos essenciais. Direitos que, mais do que nunca, Países e o Planeta têm de assegurar a cada um dos seus habitantes para, finalmente, chegarmos ao equilíbrio. Mas desta vez o slogan deve ter cinco proposições

 CASA, PÃO, SAÚDE, HABITAÇÃO E MUITO AMOR -- como dizia a minha amiga Fátima.

 Este o programa possível para o Planeta Terra dos Novos Tempos.





quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Os Quatro Elementos




UMA INICIAÇÃO A QUATRO TEMPOS


A experiência de Vida do Ser Humano tem decorrido no jogo dos quatro elementos: Terra, Água, Fogo e Ar. Creio que são estes quatro elementos que nos permitem desenvolver e testar o nosso Ser interno, nesta aventura que é a nossa passagem pelo planeta Terra. E isto sem fazer considerações nem especulações acerca das razões porque estamos aqui. E porque voltamos e voltamos e voltamos. Há os que dizem que viemos aperfeiçoar-nos ou liquidar culpas passadas. O que nos leva a perguntar: e da primeira vez que viemos já teríamos culpas? Não fomos criados perfeitos? Seremos nós os anjos caídos? E que imperfeição na Criação terá permitido que os Anjos pudessem decair?

 Claro que não vou responder. Não sei. Com os dados disponíveis só posso especular. E, aliás, não estou preocupada com este tipo de questões. O que me importa realmente é tentar saber como podemos escapar a este jogo. Ou como podemos jogá-lo conscientemente, com grandeza. Quando um poeta diz: «faz da tua dor um poema», está a apontar-nos uma saída: a da Grandeza Interior: O poema que oferece é a oportunidades de outros ultrapassarem os seus limites e se tornarem eles próprios poema. E se cada um de nós fosse um poema, a Vida Humana seria uma sinfonia incomparável. Deus, ou aquilo a que chamamos Deus, só pode ser um poema, em que cada um de nós é uma estrofe. Se calhar é esse estadio que nos espera. É por isso que digo que somos deuses.

A maior parte de nós passa ao lado do mistério da Vida. Está tudo em nós. É só preciso activá-lo, mas isso só pode acontecer se nos despirmos dos jogos deste mundo, se caminharmos pela verdade do ser, pela fragilidade da sua grandeza. Tinha eu 46 anos quando descobri o mistério da ligação do ser Humano ao Divino. Ou, pelo menos, a uma Vida mais vasta, em que acreditar não é uma expressão de fé, mas a vivência quotidiana do mistério. Descobri circuitos de energia no corpo, que desconhecia. Passei a olhar o Sol de frente. Ouvi música na minha cabeça, que teria podido registar se a soubesse escrever. Via o Sol de noite, de olhos fechados e, pelo menos duas vezes, no meu quarto, de olhos abertos. E fui muito feliz, num equilíbrio conseguido entre duas realidades.

Vem tudo isto a propósito de um sonho, que tive por essa altura e que vou contar, por me parecer que pode ajudar alguém. Trata-se de um sonho sobre os quatro elementos, Terra, Água, Fogo e Ar. Por esta ordem. Um sonho que me revelava a mim própria. Um sonho, em quatro partes, na mesma noite.

Eu era muito jovem. Talvez tivesse 15 anos ou um pouco mais. Era sacerdotisa, mas estava sentada no colo de um homem, numa rocha, no meio de um campo de papiros. Beijávamo-nos, quando tive a percepção de estar a ser vigiada por um sacerdote. Tive medo e o sonho terminou, para continuar de seguida à beira mar.

 As ondas eram baixas e derramavam-se preguiçosamente em espuma na areia. Então vi, na babugem da água, que a minha cabeça cortada boiava nas ondas, indo e voltando de novo até à areia, repetidamente, até que a imagem desapareceu.

No terceiro sonho eu teria dez, onde, o máximo doze anos. Estava bem vestida, com roupa ritual e ia a subir a montanha. Eu sabia que subia à montanha para ser sacrificada ao vulcão. O grande sacerdote ia a meu lado, mas a minha sensação era que não estava a ser tratada com a elevação e o respeito que a cerimónia exigia e, conforme andava, ia acumulando um certo ressentimento. Ia ser sacrificada e isso exigia que me mostrassem reverência. Era isso que sentia, não revolta por ir ser sacrificada ao vulcão.

Chegamos. O grande sacerdote estava a preparar-se para o sacrifício. Estou junto à boca do vulcão, vejo o vermelho do fogo. A minha decisão está tomada. O sacerdote está a terminar o ritual. Nesse momento, antes que o sacerdote me toque, eu lanço-me voluntariamente ao magma ardente da lava do vulcão.

Recordo a entrada nesse magma vermelho de fogo e sinto que sou ternamente envolvida, impregnada dessa força ígnea, amada, poderosa, feliz. A sensação foi tão arrebatadora que acordei. Revivi todo o cerimonial, essa entrega voluntária, a transmutação pelo fogo, depois da passagem pela Terra e pela Água e ouvi-me dizer: “Agora falta o Ar»! E adormeci.

Estava no cimo de uma montanha, junto ao precipício. Mais um passo e caio no abismo. Por trás de mim, o mesmo homem que me espiou e me levou ao vulcão está radiante. Eu não tenho escapatória. Finalmente, vai poder aprisionar-me. Olho-o, sem dizer nada. Olho o abismo. Acho que não penso nada. Tenho só uma sensação de liberdade, que ninguém pode coarctar. E então atiro-me ao abismo.

Atiro-me ao abismo, mas não caí. Não sabia, mas tinha ganho asas e em vez de cair, voei.

Conto isto, porque acho que todo o ser humano tem que passar pela iniciação dos quatro elementos e só atingirá a liberdade, seja isso o que for, quando conseguir «voar».


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OS QUATRO SÍMBOLOS DO CONHECIMENTO


É um desenho, de 1989, a tinta-da-china, que se estende por uma folha de 44/64 cm. Mandei-o emoldurar há muitos anos, mas ao contrário de quase todos os outros, não conheço uma parte das personagens. Admito que uma delas sou eu ou, pelo menos, é muito parecida com o que eu era quando nova. A mesma atenção, a mesma determinação e traços muito semelhantes. Mas não me foi revelado o contexto nem a civilização em que o jogo das personagens se inscreveu. Mas isso, ao fim e ao cabo, não é muito relevante.

Trago aqui este quadro para mostrar quatro símbolos de iniciação, num contexto amoroso. O engraçado é que ainda hoje gostaria daquela personagem masculina… Claro que é uma graça.


Reparem no extremo direito, em baixo, a imagem do mensageiro, com asas, a selar os lábios de uma possível mulher de conhecimento. Tudo isto se passou no tempo em que o conhecimento era restrito a um grupo escolhido de iniciados.

Observem e descubram os símbolos espalhados pelo quadro. Comecem pelo seu lado esquerdo, em baixo. Vêem o cordeiro, tantas vezes imolado aos deuses?

Os pombos, que surgem em muitos dos meus outros quadros e que são o símbolo dos mensageiros. O papagaio, junto da pitonisa, a mensageira dos deuses. E, por fim, a serpente, símbolo da kundalini, que passa pela cabeça de várias personagens, que vieram dos fundos do tempo, talvez para me levar a recordar.
Espero que possam tirar alguma informação deste desenho. Se outra coisa não resultar, fica pelo menos a informação de que a sacralização do Homem atravessa e persiste ao longo das civilizações, como algo eterno.


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A INSENSIBILIDADE SOCIAL DO PRIMEIRO-MINISTRO 


É legítima e apropriada a Onda de Indignação contra a comunicação ao País do Senhor Primeiro-Ministro. A minha é tão grande que varri o seu nome da minha memória. Não me lembro como ele se chama. Não quero lembrar-me. Não tem existência real. É um fantasma. O mais do mesmo que ainda conheci e que, felizmente, caiu de uma cadeira. Há sempre uma cadeira de onde se pode cair. Toda a gente sabe. A cadeira do Poder é das mais frágeis.

 Chamo-lhe o salazarento, fora do tempo e do contexto. Salazarento, porque é um salazar com técnicas e tácticas desfasadas do tempo. Já foi. Não queremos mais. Deixou nos cofres um ouro que não se pode vender, e um país de analfabetos. Um País silenciado e envergonhado.

Recordo-me que quando regressei da viagem aos Estados Unidos, que já referi neste blog, o choque maior que sofri ao passear pelas ruas de Lisboa foi ver as pessoas, todas as pessoas, a olhar para o chão. Choro ao pensar nisso. E lembro que a população do meu País só levantou os olhos do chão e passou a olhar em frente depois do 25 de Abril.

Não quero ver o Povo a que pertenço a olhar de novo para o chão, vencido. Não quero ver de novo o meu Povo a emigrar em massa, a oferecer aos outros países a alta qualidade intelectual que, entretanto, desenvolveu e que não deve a nenhum salazar. Não quero que os chicos espertos tomem conta do meu País e destruam a sua alma, a sua garra, a sua criatividade. Não podemos deixar que isso se faça! Não podemos deixar que a RTP1 vá ser o canal de uma ideologia e o pote de ouro de um grupo. Não, não!

Dói-me a ligeireza com que o Primeiro-Ministro, de que não quero lembrar o nome, e a mulher, depois daquele murro no estômago dos portugueses que foi a sua comunicação ao País, se dirigiram com sorrisos e leveza para um concerto, onde foram divertir-se e rir. Isto chama-se insensibilidade social. Pelo menos podia fingir-se preocupado e ir para casa, onde podia esconder o riso à vontade. Agora lançar para o ar um pacote daqueles e ir divertir-se de seguida, não lembra ao diabo! É o máximo de insensibilidade social. E um Primeiro-Ministro de um qualquer País não pode exibir insensibilidade social. Não pode abrir uma ferida e lançar pimenta por cima. Foi o que fez. Este Povo não lhe vai perdoar. Amen.

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

O Cipreste Sagrado




O CAMINHO DA DOR E DA SOLIDÃO



As histórias infantis contam-nos as vidas fabulosas de príncipes e princesas, como se elas fossem o expoente máximo que o comum dos mortais desejaria poder ser e viver. Que grande ficção! As histórias de príncipes e princesas são fábulas que pretendem dar exemplos de vida. Na realidade, o aparato de vidas faustosas esconde a mais profunda solidão e submissão aos interesses do grupo e à consolidação do poder. Tudo é sacrificado a esses dois objectivos, desde a vontade e as inclinações pessoais à própria liberdade de sonhar. Tudo está condicionado aos interesses da família a que pertencem. E só o espírito de missão, a lealdade familiar, o medo de perder as benesses que o estatuto confere, permitiu que o mito se mantivesse até aos nossos dias.

Nem sempre foi assim e, felizmente, tudo isto parece prestes a desaparecer. Quando pudemos ver o príncipe Harry nu, isso significa que finalmente o tabu foi vencido e que o estatuto perdeu a primazia para dar lugar ao humano. A etapa seguinte, é claro, vai ser menos agradável, quando os britânicos integrarem que não vale a pena continuar a manter a ficção da grandeza da realeza, quando é ela própria a expor na rua a sua nudez.

Isto vem a propósito da solidão e da dor que marcou a vida da Rainha Santa Isabel. Quando eu era criança ouvi e li, como a maior parte dos portugueses, histórias sobre a Rainha Santa. Lembro-me de a imaginar com o avental cheio de rosas, num pátio onde havia um sino e uma escada estreita, que a rainha iria descer. O milagre das rosas ficou fixado para mim neste flash, que não sei se tem apoio no real e que, aliás, nunca quis esclarecer. É possível que o tenha lido num poema, no livro da primeira ou segunda classe. Ou visto em sonhos. Não sei.

Como já referi em outra oportunidade, Isabel de Aragão foi uma das primeiras personagens que surgiram quando comecei a desenhar e a esculpir. Ela surgiu no dia em que fiz os primeiros desenhos. Aliás, Isabel de Aragão foi um dos poucos rostos identificáveis nos desenhos dos primeiros tempos. O outro, que identifiquei um pouco mais tarde, foi o da Infanta D. Maria, filha de D. Manuel. Este foi um desenho que me incomodou especialmente. Isso não aconteceu com mais nenhuma personagem, e incomoda-me falar disso, mas acho que o devo revelar: o rosto de D. Maria surgiu associado a um demónio, que a torturava. Quis ignorar essa figura, mas ela ressurgiu no extremo do desenho, (à direita), como testemunho de algo que tornou a Infanta infeliz durante toda a sua vida. E o estranho é que, ao querer ignorá-la, a imagem acabou por tornar-se maior. Acabei por aceitá-la e deixá-la ficar.

Na mesma página desenhei um velho, aparentemente judeu, que nunca cheguei a identificar. E, já agora, chamo a atenção para a mulher com o barrete branco dos condenados ou suspeitos de heresia, que obviamente esteve sob a alçada da Inquisição. Não sei o que lhe aconteceu. Estes foram caminhos que acabaram por não se desvelar. Talvez não se tenham tornado relevantes ou necessários para o meu percurso de vida. Ou talvez ainda se venham a manifestar… Se algumas destas personagens ilustram o meu percurso na Terra, devo ter passado por algumas situações muito complicadas. Felizmente hoje trata-se só de imagens, lembranças, porventura imaginações que serviram e servem para lições de vida.


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A REALEZA E O SAGRADO


No percurso do planeta Terra, a realeza desempenhava uma importante função: a da ligação do Humano com o Divino. Os Reis eram intermediários entre as forças celestes e terrestres. Garantes da harmonia entre o Céu e a Terra e da fecundidade do Planeta.

 Era, portanto, uma função sagrada, sacralizada, a da realeza. Foi o tempo dos reis pastores e reis sacerdotes, que tinham como insígnia de poder o sinal que assinalei quando vos falei do cromeleque dos Almendres ou Almendra, segundo a nova grafia.

O mais próximo que temos com a realeza desses tempos míticos é a lenda do Rei Artur. O Rei que tirou a espada da pedra. Isto é, o Rei a quem o Céu concedeu a espada, a insígnia do Guerreiro Espiritual, como instrumento de Vida, não de morte. A espada como receptor e catalisador de energia, a ligar a Terra e o Céu. A espada como símbolo de fecundidade. Da verdade última do Ser.

Não vou alongar-me em explicações sobre o simbolismo da espada. A Internet tem imensa informação; mas não é essa que é verdadeiramente importante, mas a explicação que encontrar dentro de si. É aí, no interior do seu coração que deve procurar o significado da espada e o sentido que ela pode ter na sua vida. É aí, nesse fio-de-prumo, que deve temperar o seu coração: Nessa espada de luz, a que cada um de nós virá a ter acesso no decurso da sua evolução.

 Viemos à Terra para nos experimentarmos. Sem pecado nem castigo. A Vida é uma aventura e se não passarmos por todos os papéis, como poderemos avaliar as suas potencialidades? Cada um de nós já foi rei e mendigo, poeta e salteador de estradas, temos de experimentar todos os papéis para termos a medida da grandeza absoluta e da pequenez mais total. O problema é que não temos sentido da experiência e nos deixamos soçobrar na pequenez e o que não é menos grande na própria grandeza. E tudo se repete até que um dia, nessa busca interna, vamos descobrir quanto nos distanciamos do que realmente é importante! Empurrados a modelar o nosso ser segundo uma ilusão, próximo de uma máscara de Carnaval, acabaremos todos, mais dia, menos dia, por a deixar cair quando nos aproximarmos da nossa verdade interna. Revestidos de uma importância fictícia vamos um dia descobrir, admirados, que afinal somos muito mais importantes do que alguma vez julgamos ser ou vir a ser. E só poderemos descobrir isso na maior humildade.


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O PERCURSO DE ISABEL



Destinei a mensagem de hoje a Isabel de Aragão, rainha e santa em Portugal, e vejo-me a perder-me em palavras porque me é difícil abordar a personagem que ela foi. Reparo que faço uma separação entre a mulher a caminho da santidade e a rainha. E não percebo este mecanismo. Se penso na santa custa-me seguir o sofrimento e as lágrimas que surgem nos desenhos. E vejo-me a ter pudor de mostrar a dor que marcou a vida dessa mulher. Na minha memória de criança ela continua a ser a santa do milagre das rosas e não a que chora, porque o filho se revoltou contra o pai. E não a que se deixa abater em profunda tristeza, no final da vida, ao fitar o panorama do que viveu.


Vejam Isabel, segundo as imagens que dela fui tendo. Isabel menina, com uma curiosidade e avidez insaciável. Avidez de saber, de conhecer, espreitando até o que pretenderiam esconder-lhe. Desenhei-a, pintei-a, modelei-a tantas vezes, que se me tornou próxima, familiar e, ao mesmo tempo, distante. 

Aproximo-me dela a medo, medo de não a perceber, de interpretar mal o que dela li, o que dela vi, o que dela julgo saber. Adi-o escrever, como se estivesse à espera que ela ganhe densidade em mim. Vejo a curiosidade e a dor: também vejo a determinação. E sinto a minha atrapalhação perante uma personagem que se tornou real para mim nos desenhos e no barro e me parece escapar à concretização da palavra.


Não consigo ser a receptora do que ela tem para dizer. Talvez porque ache que tenho algo a dizer por ela, algo que ainda não sei o que é. Vou dormir. Talvez amanhã saiba o que há a dizer, se alguma coisa há a dizer. De repente pensei que devia calar-me e apresentar sem palavras, o que dela tive consciência ao longo dos últimos 25 anos. É isso. Não vou dizer mais nada. Vou deixar que as imagens o digam. Façam a vossa leitura. Retiro-me para que ela seja. Deixo-vos Isabel como o Cipreste Sagrado. Uma árvore de silêncio e solidão, que cresceu com ela e se tornou frondosa. Uma árvore que resiste ao tempo, cada vez mais bela.