A HISTÓRIA DE
UM AMOR PROIBIDO
Nos últimos
dias tenho-me sentido indecisa face a um dos desenhos dos vários que fiz relativos
à Infanta D. Maria. Não sei ao certo se posso revelar o que me foi mostrado. Na
dúvida, devia porventura calar, passar à frente, mas se opto por esta hipótese,
a insatisfação instala-se, como se me tornasse menos digna da mensagem que
recebi. Acabo por decidir mostrar e falar do desenho em questão porque, à
medida que a decisão foi ganhando firmeza, comecei a ficar tranquila, ainda que
para já persista um leve aperto no peito.
Avancemos, ou melhor, retrocedamos a uma tarde
de 1988, passada em Santiago de Compostela. Foi no dia 10 de Junho, mas só agora
ligo essa data ao Dia de Camões. Durante a manhã fui à catedral, andei depois
pela calçada das ruas medievais. Almocei num restaurante da zona e prossegui o
passeio até me sentir cansada. Regressei ao meu quarto, deviam ser 16 horas. Descansei
um pouco, muito pouco. Surgira em mim o desejo de desenhar.
Desenhar
vendo as linhas do desenho era então uma experiência recente, que me fascinava.
Quando o apelo me chamava, vivia uma entrega que poderia durar horas. Foi o que
aconteceu nesse dia. Fiquei sentada durante longo tempo a desenhar o que
rapidamente percebi ser a história dos amores proibidos da Infante D. Maria e
do poeta Luís de Camões. Como já disse anteriormente, a infanta D. Maria era
filha do nosso rei D. Manuel I. Quanto a Luís de Camões, toda a gente sabe, foi
o autor de «Os Lusíadas».
Nessa noite alguém tocou saxofone pelas ruas
de Santiago. Alio este desenho a essa música, que realmente ouvi, mas que
poderá ter sido em outro dia. Foram dois eventos mágicos, que posso também magicamente
misturar. Podem não ter sido no mesmo dia, mas na minha memória estão
registados em simultâneo.
Desenhei
enquanto a luz o permitiu, mas só terminei o desenho no dia seguinte. Então,
fascinada, fiquei horas a tentar descodificar a mensagem. Aquilo que, neste
momento, antes que avance, lhes proponho que façam. Podem começar pela pomba à
esquerda, de asas abertas que é, obviamente, a presença do Espírito, nos amores
que se iriam desenrolar, de costas voltadas para a Igreja, mas abençoados pelo
Divino., como o confirma a segunda pomba ao lado da jovem Infanta, em baixo, à
direita.
É a partir
daqui que o drama se desenvolve. Para trás fica um Camões dançando com uma
mulher mais velha e o amor pela Infanta. A terceira parte do desenho narra um
drama de que a História não fala. O da aflição da jovem infanta, com o ventre
proeminente. A dor no rosto, em frente a uma velha ama, que a leva de barco
para a outra margem do Tejo e, sem saber nem compreender o que se passa, Camões
grita.
Há um homem que tem uma data à volta do
pescoço: 1579. Um dia entrevistei uma especialista em Camões, de que não
recordo o nome, e disse-lhe que admitia que Camões tivesse morrido em 1579. E
ela perguntou-me como é que eu chegara a essa conclusão, porque demorara vinte
anos para descobrir isso?!
A ser
verdade o que me dizem os desenhos, Camões nunca soube o verdadeiro motivo
porque foi abruptamente afastado e depois perseguido, a ponto de ter de ir para
o Oriente. Julgou porventura que a perseguição decorria por ter tido a ousadia
de fazer a corte à Infanta.
Admito que D.
Maria tenha ido para Setúbal, para o convento que a ama do rei D. Manuel, seu
pai, mandara construir e tenha ali esperado a chegada da criança, se criança
houve. O resto da história está documentado. A Infanta desistiu do Convento e
voltou para o seu Palácio, onde viveu rodeada por um conjunto de mulheres,
sempre prestes a ficar noiva, e sempre de noivado desfeito. Até que um dia
desistiu de viver e não deixou tratar uma ferida que lhe tinha aparecido numa
das pernas, o que lhe provocou a morte.
Não foi
nunca minha intenção escrever a biografia da Infanta D. Maria, mas simplesmente
evocar o drama de uma vida que parece ter sido gorada. E, todavia, talvez não o
tivesse sido. E se a Infanta nasceu para criar as condições propícias a que
Luís Vaz de Camões amasse e sofresse o bastante para elevar a sua alma e os seu
génio até à possibilidade de sentir e escrever «Os Lusíadas»? Estou em crer que
todos os sofrimentos e frustrações que ambos viveram foram a condição
necessária para que o génio eclodisse em Camões, levando-o a escrever um livro
fundamental à própria sobrevivência de Portugal como Nação!
Se me foi mostrado que me ofereci para viver a
vida que tenho vivido, quem sabe se, embora não o sabendo, isso aconteça sempre
a cada um de nós? Quem sabe se não se passa o mesmo com todos? Quem sabe se
todos e cada um de nós escolhe o tempo, o País e a família indicada para vivermos
as experiências capazes de nos revelar a nós próprios? Quem sabe se aquilo que
cada um de nós vive foi o drama que escolheu para manifestar o que somos e dar
forma ao drama histórico em que nos inserimos?
Para que
isto tenha realmente sentido será necessário que chegue um momento em que todos
e cada um de nós descubra que tudo se desenrola num palco chamado Vida, em que
o ser humano se vai paulatinamente revelando a si próprio. Até que chegue o
momento em que o actor e a actriz que somos decidam que é tempo de regressarmos
a um palco mais amplo, aquele onde se desenrola a verdadeira Vida.










